Terça-feira, 23 Junho 2026

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Ascensão de Vozinha nas redes sociais transforma-se em caso de estudo académico

A explosão de popularidade do guarda-redes cabo-verdiano Josimar José Évora Dias, conhecido como “Vozinha”, após o empate 0-0 com a Espanha no Mundial 2026, tornou-se objeto de um estudo académico de análise de discurso computacional, assinado por Vinicius Covas, da Faculdade de Comunicação da Universidad Anáhuac México.

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O artigo, publicado como pré-print em junho de 2026, analisa como a língua — e não apenas a viralidade — transformou um desempenho desportivo periférico num fenómeno de “consagração algorítmica” global. O guarda-redes de 40 anos, que tinha um valor de mercado modesto (cerca de 50 mil euros) e construiu a carreira fora da elite europeia, viu a sua conta de Instagram (@vozinha1) crescer de uma base estimada entre 45 mil e 56 mil seguidores antes do jogo para 8.235.652 seguidores exatos, valor registado a 16 de junho de 2026, às 15h47 UTC — o único ponto de dados que o estudo trata como medição exata, sendo os restantes números reportados como intervalos ou limiares estimados.

A mobilização brasileira como motor inicial

Segundo a investigação, o crescimento inicial foi impulsionado por uma mobilização ao vivo na CazéTV, transmissão brasileira apresentada pelo streamer Casimiro, que apelou diretamente ao público para seguir o jogador — um “mutirão” que, de acordo com a cobertura portuguesa analisada, levou a conta a saltar para a ordem das centenas de milhares de seguidores em poucos minutos.

Quatro línguas, quatro narrativas

Um dos contributos centrais do estudo é a identificação de nove “molduras narrativas” (frames) e de como estas se distribuíram de forma distinta por quatro línguas:

Em português, predominou a narrativa de mobilização coletiva ligada à CazéTV. Em espanhol, destacou-se um enquadramento de “crise” e frustração face à incapacidade da Espanha de vencer um adversário modesto. Em inglês, sobressaiu a narrativa do “azarão” (underdog) e da construção de uma identidade nacional cabo-verdiana, associada a apelos emocionais — como o caso da mãe do jogador, que não teria conseguido pagar os custos do visto para assistir ao Mundial. Em francês, a cobertura foi mais escassa, mas marcou a transição entre o feito desportivo e a visibilidade nas redes.

O número como “prova” partilhável

A conclusão central do estudo é que a contagem de seguidores deixou de ser um simples indicador e passou a funcionar como um objeto linguístico em si mesmo: a fórmula “de 50 mil para 8 milhões” foi repetida em todas as línguas como prova autoevidente de que algo histórico tinha ocorrido, circulando em comparações com atletas de outras modalidades (como o basquetebolista Victor Wembanyama) e em capturas de ecrã antes/depois do perfil.

Os autores sublinham que se trata de um estudo-piloto (v0.1), baseado num corpus reduzido e ainda sem validação completa entre anotadores, pelo que os resultados não devem ser interpretados como representativos de toda a cobertura mediática do caso. O conjunto de dados, esquema do corpus e taxonomia das narrativas foram disponibilizados publicamente no Zenodo para permitir replicação do estudo.

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