
A escritora e antiga magistrada cabo-verdiana Vera Duarte vai ser distinguida na 10ª edição da Gala Prémios da Lusofonia, a realizar-se a 10 de outubro de 2026, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril, em Portugal, em reconhecimento do seu contributo para a promoção da língua, da cultura e dos direitos humanos no espaço lusófono, revelou a autora em entrevista ao Voz do Archipelago.
Vera Duarte afirma que o seu trabalho, a escrita e o ativismo em prol dos direitos humanos nunca tiveram como objetivo a obtenção de prémios, mas sim uma pulsão pessoal que sempre a levou a participar ativamente na vida coletiva. A escritora sublinha que a cultura ocupa um lugar central na sua existência, por considerá-la um instrumento de expansão do ser humano e de procura da felicidade e da compaixão.
A escritora defende que a sua escrita procura não apenas denunciar aquilo que considera negativo, mas também apontar caminhos para o futuro, com base em valores como a solidariedade, o combate ao racismo, e a construção de uma sociedade inclusiva, independentemente de género, etnia ou condição social.
Explica ainda que um prémio desempenha várias funções na vida de quem o recebe. Segundo Vera Duarte, o reconhecimento funciona como uma forma de validação do trabalho realizado e, simultaneamente, como um instrumento de visibilidade para atividades que, de outra forma, poderiam passar despercebidas. A escritora recebe a referida distinção, “com humildade e alegria”, encarando-a como um estímulo para continuar o seu percurso.
Vera Duarte destaca que este prémio específico reconhece a sua dimensão enquanto cidadã, uma faceta que considera central na sua identidade desde cedo. A defesa da cidadania e a formação de bons cidadãos, jovens ou menos jovens, constituem, segundo a mesma, elementos fundamentais para a construção de uma sociedade melhor.
A Gala Prémios da Lusofonia acontece anualmente com o propósito de homenagear personalidades e instituições da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que se destacaram na promoção da língua, da cultura e do desenvolvimento humano no espaço lusófono.
Ainda em outubro, a autora vai estar em outro compromisso de relevo internacional, Vera Duarte foi convidada pela CLPI – Associação Internacional das Comunidades de Língua Portuguesa a integrar o painel de oradores do II Encontro Internacional de Escritores da CPLP, que acontece no dia 11 de outubro, no Centro de Congressos do Estoril. O evento assinala os 30 anos da criação da CPLP, e tem como tema “A Valorização das Literaturas de Língua Portuguesa nos 30 Anos da CPLP”.
Avanços na emancipação das mulheres
Vera Duarte foi também homenageada pelos seus pares no Dia das Mulheres Juízas, distinção que associou ao fato de ter sido a primeira mulher magistrada em Cabo Verde no período pós-independência, com a primeira nomeação como substituta do procurador da República em 1976.
Acrescenta que a luta pela independência do país, liderada por Amílcar Cabral, incluiu desde a sua tenra idade uma forte defesa da emancipação das mulheres, o que permitiu a queda de barreiras profissionais que até então impediam as mulheres de exercer funções como a magistratura ou a diplomacia.
Questionada sobre os avanços na condição da mulher em Cabo Verde, a autora afirma que o país percorreu um caminho extraordinário desde a independência, com as mulheres a conquistarem espaço em diversas áreas profissionais que, em muitos casos, contaram com o apoio de homens que também assumiram a causa da igualdade de género.
Ter uma mulher como Presidente da República interina de Cabo Verde, que hoje é uma realidade no país, é um dos avanços que Vera Duarte já idealizava quando escreveu, há mais de 30 anos, o romance “A Candidata”, cuja narrativa antecipava a figura de uma mulher candidata à presidência do país.
Apesar dos avanços registados, a escritora defende a necessidade de aprofundar a participação das mulheres em áreas como as tecnologias, as engenharias, a arquitetura e a sociologia, e não apenas no direito, disciplina que, segundo notou, continua a atrair a maioria das jovens cabo-verdianas.
EmpowerHer: uma nova missão
No âmbito do seu papel como madrinha do movimento EmpowerHer, promovido pelo Social Development Hub, a autora tem participado em sessões de diálogo com jovens cabo-verdianas, incentivando-as a não permitir que obstáculos externos condicionem os seus percursos.
Durante a entrevista, Vera Duarte, visivelmente satisfeita com a sua mais nova missão, manifestou satisfação por poder servir de inspiração a novas gerações de mulheres.
Relativamente a projetos futuros, a escritora, já reformada, afirma continuar a escrever regularmente, pois vê na escrita um processo “catártico e uma forma de estabelecer pontes com os outros”. Vera Duarte revela estar a preparar um novo livro, já com título definido, centrado em temas ligadas aos direitos humanos, como a guerra na Ucrânia, a situação em Gaza e a crise migratória no Mediterrâneo, assuntos que classifica como flagelos do tempo presente.

















































