A identificação de vestígios materiais da “Frigideira Maior” do antigo Campo de Concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago, no âmbito de uma campanha de investigação arqueológica em curso naquela infraestrutura histórica, representa um reforço concreto e de grande valor para a candidatura do Museu da Resistência do Tarrafal a Património Mundial da UNESCO. Para além do testemunho oral e dos registos históricos já existentes, a arqueologia fornece agora evidências físicas que documentam, de forma irrefutável, as condições de detenção e os mecanismos de repressão utilizados no campo.
Por: Teresa Sofia Fortes
A “Frigideira Maior” era uma cela disciplinar onde eram aplicadas as punições mais severas aos presos políticos. O espaço ficou marcado pelas condições extremas a que os detidos eram submetidos: ausência de ventilação, temperaturas sufocantes e isolamento prolongado. A descoberta foi acompanhada de perto pelo ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Augusto Veiga, que esteve presente, na quarta-feira, 13 de maio, numa das fases consideradas mais significativas das escavações.
A presença do titular da pasta reforça o compromisso institucional com a valorização histórica e patrimonial do local, num momento em que Cabo Verde intensifica os esforços para inscrever o Museu da Resistência do Tarrafal na lista do Património Mundial da UNESCO. Os trabalhos arqueológicos integram precisamente o processo de preparação dessa candidatura e centram-se na documentação e interpretação das estruturas do complexo, procurando reconstituir, com base em evidências físicas, a memória do que ali aconteceu.
A estrutura terá sido erguida na sequência da tentativa de fuga coletiva de 2 de agosto de 1937 e integrava um sistema mais amplo de repressão e controlo carcerário. O Campo de Concentração do Tarrafal funcionou entre 1936 e 1954, reabrindo depois entre 1961 e 1974, durante o período da luta pela independência das colónias portuguesas em África.
Este tipo de prova tangível tende a pesar significativamente na avaliação dos processos de candidatura, uma vez que a UNESCO valoriza a autenticidade e a integridade dos bens propostos. Os vestígios encontrados não só enriquecem o dossiê técnico que sustenta a candidatura, como conferem ao local uma dimensão patrimonial mais robusta — transformando o espaço num testemunho vivo, e não apenas narrado, de uma das páginas mais dolorosas da história colonial e da resistência africana.
Curta História do Campo de Concentração de Tarrafal
O Estado Novo, regime fascista e colonial português, exerceu uma forte repressão política contra quem se opunha a ele, recorrendo a medidas de prisão e campos de trabalho. O Campo de Concentração do Tarrafal foi um dos “cárceres do Império”, talvez a mais sombria. Esteve ativa entre 1936 e 1974 de forma irregular. A primeira fase durou dezoito anos, funcionou como Colónia Penal e encarcerou os opositores ao regime salazarista. Reabre as suas portas em 1961 para dar lugar aos prisioneiros da segunda fase que lutavam pela independência das suas terras. Por este campo passaram mais de 600 presos políticos.
O Campo do Tarrafal abre as suas portas a 29 de outubro de 1936, quando chegam as primeiras 150 pessoas, todos portugueses. Passaram por lá dirigentes comunistas e anarcossindicalistas da CGT e militantes operários que se haviam destacado, em especial, na Greve Revolucionária de 18 de janeiro de 1934 e na Revolta dos Marinheiros de 8 de setembro de 1936. O período entre 1937 e 1939, sob a direção de Martins dos Reis e, depois, de João da Silva, foi tido pelo «período agudo» do Tarrafal. Nesta fase, a «frigideira» funcionou sistematicamente.
A frigideira era uma pequena construção de cimento, com sete metros de comprimento e três e meio de largura, sem janelas, com duas celas, onde se aglomeravam vários presos. Estava completamente exposta ao sol, atingindo no seu interior temperaturas de 50 graus centígrados. Os presos poderiam ficar entre 10 e 60 dias nesta cela a pão e alguma água servida em latas de petróleo.
Principais instalações do Campo de Concentração do Tarrafal
No desenho original não estavam referenciadas as celas de castigo, que ficaram conhecidas como “frigideira”. Fonte: Forte de Sacavém No final da primeira fase do campo, o aparelho de tortura foi destruído pelo regime que a desenhou, para que os atos criminais que lá aconteceram fossem esquecidos. No entanto, as memórias dos presos políticos ajudaram, quase 90 anos depois, a redescobrir a «frigideira». (ligação com a notícia da any)
Mais tarde, como resposta ao surgimento das lutas armadas e movimentos independentistas africanos no início dos anos sessenta, Salazar reabre o campo de Tarrafal em 1962. Passou a designar-se Campo de Trabalho de Chão Bom. Recebeu os primeiros 32 presos políticos angolanos a 25 de fevereiro de 1962, seguidos, no mesmo ano, de 100 presos políticos guineenses. Em 1968, chegaram ao Tarrafal os presos políticos de Cabo Verde. Neste segundo período de funcionamento do campo, a designada frigideira foi substituída pela «holandinha», uma obra mais pequena que visava o mesmo tipo de tortura e tratamento desumano. O nome fazia referência à Holanda, onde na altura partiam muitos cabo-verdianos.
O campo não substituía os atos de fuzilamento, era um lugar de isolamento, humilhação, trabalho forçado, tortura, má nutrição, água insalubre, doenças (como o paludismo, tuberculose etc.) e cuidados médicos quase inexistentes, era um “campo de morte lenta”. O Tarrafal constituiu, ao longo de cerca de 40 anos, o símbolo maior da repressão exercida pelo regime fascista e colonialista, sem invisibilizar os múltiplos outros campos prisionais espalhados por diferentes territórios que formaram os “cárceres do Império”.
E neste espaço, mais uma vez, o regime explorava a divisão. Dando pequeno-almoço, almoço e jantar aos angolanos e apenas uma refeição por dia aos guineenses. Evitava a todo o custo encontros entre os dois grupos para enfraquecer a luta. Do papel do colonialismo e tudo o que ele destruiu ainda se aguarda o pedido de desculpas para abrir caminho para reparação histórica.
Museu de Resistência e Memória ou Sistema Prisional e Esquecimento?
“Tarrafal nunca mais!”, pode ler-se no título do jornal A semana do dia 13 de setembro de 1993. A notícia relata a indignação de antigos prisioneiros ao saberem o plano do governo cabo-verdiano em abrir o campo do Tarrafal como sistema prisional para delitos comuns. A ideia surge como resposta à superlotação da Cadeia Central de São Martinho.
Este campo representa um passado assombroso do regime fascista e colonial português, mas é igualmente símbolo de resistências políticas. É um espaço de dolorosas memórias que testemunha o elevado preço da liberdade e da obscura história que une a luta de Portugal, Cabo-verde, Angola e Guiné.
Felizmente, o campo acaba por tornar-se num Museu da Resistência onde hoje se conta a história e honra a memória dos que por lá passaram. É, também hoje reconhecido como Património Cultural Nacional Cabo-verdiano e candidato a Património da Humanidade.
Bibliografia
Instituto Património Cultural
Lopes, José Vicente (2010), Tarrafal – Chão Bom: memórias e verdades, IIPC
Centro de Documentação do Tarrafal (https://memorial2019.org/)
Museu do Aljube Resistência e Liberdade (https://www.museudoaljube.pt/)
50 Anos de 25 de Abril (https://50anos25abril.pt)
Fotografia: Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas
Nota da Redação: Esta reportagem contou com a colaboração da estagiária Bruna Castro.