Sexta-feira, 26 Junho 2026

Em tom de opinião

Nação Global: O que os Tubarões Azuis nos Ensinam

Durante séculos, a nossa emigração foi encarada como uma necessidade, uma resposta inevitável às secas cíclicas, às fomes devastadoras e à escassez de oportunidades que marcaram a nossa história. Embora tenhamos conhecido progressos assinaláveis desde a independência, a emigração continua, para muitos compatriotas, a representar uma via legítima de realização pessoal, profissional e económica. Ainda hoje, milhares de cabo-verdianos partem em busca de oportunidades de emprego, formação, rendimento e qualidade de vida que nem sempre conseguem encontrar no nosso país.

Hoje, os Tubarões Azuis vêm re-significar essa realidade, demonstrando-nos, na prática, aquilo que tantas vezes tem permanecido apenas no domínio dos discursos, dos planos estratégicos e das boas intenções. Pela primeira vez, podemos olhar para a diáspora não apenas como consequência das dificuldades do passado, mas como um dos maiores ativos estratégicos do futuro. Os Tubarões Azuis estão a dizer-nos, com a autoridade de quem faz, que um país pequeno como o nosso pode tornar-se grande quando aprende a pensar para além das suas fronteiras físicas.

À primeira vista, a participação de Cabo Verde no Mundial de Futebol de 2026 constitui um feito desportivo extraordinário. Um pequeno arquipélago africano, com pouco mais de meio milhão de habitantes, enfrenta algumas das maiores potências do futebol mundial e conquista o respeito da imprensa internacional, dos adversários e dos adeptos dos quatro cantos do mundo, colocando Cabo Verde no centro das atenções globais. Mas, se olharmos com mais profundidade, perceberemos que esta história não é apenas sobre futebol. É, acima de tudo, uma história sobre visão, liderança, identidade e capacidade de mobilização nacional.

Durante demasiado tempo, o discurso sobre Cabo Verde centrou-se mais nas limitações do que nas potencialidades. A nossa seleção nacional veio desafiar essa narrativa. O fenómeno Tubarões Azuis reafirma que a grandeza de um país não se mede apenas pela extensão do seu território ou pelo número de habitantes residentes. Mede-se também pela sua capacidade de mobilizar os seus recursos humanos, onde quer que eles estejam. E foi precisamente isso que a Federação Cabo-Verdiana de Futebol compreendeu e colocou em prática.

A FCF percebeu que o verdadeiro território cabo-verdiano não termina nas fronteiras marítimas do arquipélago. Estende-se por Lisboa, Roterdão, Paris, Luxemburgo, Boston, Dakar, Rio de Janeiro e por dezenas de outras cidades onde vivem cabo-verdianos ou seus descendentes. Percebeu igualmente que a diáspora não é apenas uma fonte de remessas financeiras, mas uma reserva extraordinária de talento, conhecimento, experiência, influência, inovação e capacidade de realização.

Mais importante ainda: compreendeu que a ligação emocional dos cabo-verdianos à sua terra pode ser transformada numa poderosa força mobilizadora. A nossa seleção nacional tornou-se, assim, um retrato do próprio país.

Há jogadores nascidos em Cabo Verde.

Há jogadores nascidos em Portugal.

Há jogadores nascidos em França.

Há jogadores nascidos nos Países Baixos.

Alguns falam crioulo desde a infância. Outros aprenderam-no mais tarde. Alguns cresceram nas ilhas. Outros visitavam Cabo Verde apenas durante as férias. Mas todos encontraram um espaço comum de pertença. Todos encontraram uma bandeira capaz de os unir. E é precisamente aqui que devemos retirar uma grande lição. O sucesso da seleção não resulta apenas da qualidade dos seus jogadores. Resulta da existência de um projeto suficientemente credível para mobilizar pessoas que vivem em diferentes geografias, possuem experiências distintas e, em muitos casos, nunca partilharam o mesmo percurso de vida.

Os jogadores não aderiram à seleção apenas porque tinham raízes cabo-verdianas. Aderiram porque encontraram uma equipa séria, uma estrutura organizada, uma liderança consistente e uma causa em que valia a pena acreditar. Os Tubarões Azuis vieram também demonstrar que a diáspora não procura privilégios. Procura oportunidades de participação, projetos bem estruturados, instituições credíveis. Acima de tudo, procura sentir que o seu contributo é reconhecido, valorizado e útil ao desenvolvimento coletivo.

O Mundial terminará. Os resultados passarão para a história. As emoções, por mais intensas que sejam, acabarão por dar lugar à rotina. Mas aquilo que não pode desaparecer é a lição. A Federação Cabo-Verdiana de Futebol mostrou que, quando Cabo Verde pensa globalmente, mobiliza a sua diáspora, acredita nas suas capacidades e cria projetos credíveis, torna-se capaz de competir com os melhores do mundo. A questão que agora se coloca é simples: estaremos preparados para fazer o mesmo noutras áreas?

Porque não criar uma estratégia nacional capaz de mobilizar a diáspora para a ciência, a tecnologia, a cultura, a economia, o empreendedorismo, a educação, a inovação ou a diplomacia económica?

Quantos investigadores cabo-verdianos trabalham hoje em universidades de referência internacional?

Quantos empresários cabo-verdianos lideram empresas em diferentes continentes?

Quantos artistas, engenheiros, médicos, académicos, gestores e especialistas ocupam posições de destaque em organizações internacionais?

Possuímos mecanismos eficazes para aproveitar os seus conhecimentos, experiências e redes de influência? Estamos a criar projetos suficientemente mobilizadores para os atrair e envolver?

O futuro do nosso país poderá depender, em grande medida, da nossa capacidade de responder positivamente a estas questões. Quiçá o maior legado da nossa participação neste Mundial não seja uma vitória, um empate histórico ou uma qualificação memorável, mas sim o de nos mostrar, de forma clara e inequívoca, que a nossa maior riqueza nunca esteve apenas nas ilhas, mas que está nas pessoas e estas estão espalhadas pelo mundo inteiro.

Se soubermos mobilizá-las, valorizá-las e integrá-las num verdadeiro projeto nacional de desenvolvimento, então os Tubarões Azuis terão feito muito mais do que disputar um Mundial: terão ajudado Cabo Verde a descobrir toda a dimensão da sua própria força.

Tags

Partilhar esta notícia

×