Sexta-feira, 12 Junho 2026

Em tom de opinião

Esperança versus Responsabilidade

As eleições legislativas de 17 de maio de 2026 representaram um momento importante da vida democrática cabo-verdiana. A vitória do PAICV e a conquista da maioria absoluta por Francisco Carvalho foram interpretadas por muitos de nós cidadãos, como um voto de confiança numa nova visão para o país.

Ao longo da campanha eleitoral, ouvimos promessas de mudança, eficiência, maior proximidade com os cidadãos, redução das desigualdades e uma nova forma de governar. A mensagem foi clara, mobilizadora e suficientemente convincente para assegurar uma maioria absoluta no Parlamento.

Contudo, passadas as eleições, o discurso político começou naturalmente a entrar numa nova fase, o de governar. Nessa transição surgem alguns sinais que merecem a nossa atenção. Nas suas primeiras intervenções públicas enquanto Primeiro-Ministro indigitado, Francisco Carvalho tem insistido na necessidade de conhecer em profundidade a situação financeira do Estado, avaliar compromissos assumidos pelo anterior Governo, analisar a realidade das empresas públicas e medir os constrangimentos orçamentais existentes.

Tudo isso é legitimo e, naturalmente, aceitável porquanto qualquer governante responsável deve procurar conhecer a realidade antes de agir. A prudência é uma virtude da boa governação. Contudo, existe uma linha muito ténue entre o diagnóstico necessário e a construção antecipada de uma narrativa justificativa. Os cabo-verdianos votaram numa proposta política que prometeu mudanças concretas e relativamente rápidas. Foi essa promessa que mobilizou uma parte significativa do eleitorado. Por isso, é natural que a sociedade acompanhe com atenção os sinais emitidos pelo futuro Governo.

A história política demonstra que todos os governos, sem exceção, encontram dificuldades quando assumem funções. Todos herdam problemas, descobrem limitações, enfrentam desafios que não eram totalmente visíveis durante a campanha eleitoral. Isso aconteceu em 1991, em 2001, em 2016 e volta a acontecer em 2026. Portanto, dificuldades existem sempre e continuarão a existir. A questão está na forma como elas são utilizados no discurso político. Quando as dificuldades servem para enquadrar decisões e definir prioridades, estamos perante um exercício legítimo de transparência. Quando passam a ocupar mais espaço do que as soluções, correm o risco de ser percecionadas como justificações.

A maioria absoluta alcançada pelo PAICV introduz uma variável adicional. Diferentemente dos governos minoritários ou dependentes de alianças parlamentares, o novo executivo dispõe de condições políticas particularmente favoráveis para implementar o seu programa. Com essa vantagem vem uma responsabilidade acrescida.

Os cidadãos tendem a ser mais compreensivos durante os primeiros meses de uma governação. É de praxe existir um período de adaptação, de organização interna e de definição de prioridades, mas essa compreensão tem um limite. À medida que o tempo avança, as perguntas mudam. Em vez de se perguntar o que foi encontrado, começa-se a perguntar o que está a ser feito.

Já não se perguntará quais eram os problemas herdados. Perguntar-se-á quais foram as soluções implementadas. Já não se avaliará o diagnóstico. Avaliar-se-ão os resultados. E o discurso que estamos cansados de ouvir no Parlamento: “vocês deixaram assim” ou “esquecem-se como fizeram “, está cada vez mais desgastado. O passado pertence à História e o eleitorado já se pronunciou sobre ele. Quem perdeu as eleições foi penalizado pelo voto popular. Cabo Verde precisa agora de respostas para o presente e de uma visão para o futuro. Os cidadãos esperam menos tempo gasto na procura de culpados e mais energia dedicada à resolução dos problemas que enfrentam todos os dias.

Francisco Carvalho construiu grande parte da sua imagem pública como gestor e homem de ação. Foi precisamente essa perceção que contribuiu para a sua vitória eleitoral. Os cabo-verdianos votaram em um partido, é certo, mas, acreditamos, que votaram também numa expectativa de execução, proximidade e capacidade de concretização. Por essa razão, o verdadeiro desafio do novo Governo não será explicar as dificuldades do país. Todos nós conhecemo-las amplamente pelo que o verdadeiro desafio será demonstrar que consegue enfrentá-las com eficácia e eficiência.

A democracia vive de alternâncias e prospera através dos resultados. E é nesse terreno, o da execução e da entrega, que o novo ciclo político será inevitavelmente julgado. Os próximos meses dirão se Cabo Verde entrou numa era de transformação efetiva ou apenas numa nova fase da sua permanente disputa de narrativas políticas.

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