Todos os anos, nas proximidades da gala do Cabo Verde Music Awards, surgem críticas de músicos que devem ser vistas como um sintoma e não como um ruído passageiro. Quando artistas reconhecidos e credíveis questionam a transparência do júri e chegam a afirmar que o prémio “não acrescenta nada à carreira de um artista”, a questão deixa de ser apenas de perceção e assume contornos mais profundos e estruturais, isto porque qualquer estrutura que não comunica claramente os seus critérios, nem consolida a sua legitimidade pública, acabará inevitavelmente por perder autoridade.
O CVMA, que poderia ser uma plataforma estratégica de exportação cultural, corre o risco de se limitar a um circuito interno de validação. E isso, para um país cuja música já atravessou fronteiras há décadas, é um contrassenso difícil de justificar. Todos sabemos que Cabo Verde não tem um problema de talento, mas sim de projeção dos seus talentos.
A música cabo-verdiana já provou ao mundo a sua força. Da morna ao funaná, da coladeira às fusões contemporâneas, construiu-se uma identidade sonora singular, respeitada em festivais internacionais, estudada em contextos académicos e reconhecida por públicos que, muitas vezes, nem compreendem o crioulo, mas compreendem a emoção. Portanto, não estamos perante uma questão artística. Estamos sim, perante uma força de grande talento que não tem sido acompanhada por uma estratégia consistente de internacionalização, assim como acontece em vários outros sectores. Querendo ou não, o CVMA acaba por expor um ponto crítico: reconhecer e premiar a música em Cabo Verde deve também significar projetá-la para além das fronteiras nacionais.
Hoje, os prémios nacionais pouco dialogam com o ecossistema internacional da indústria musical. Falta ligação estruturada com programadores de festivais globais, integração com redes profissionais de distribuição, posicionamento estratégico em mercados-chave como França, EUA e plataformas digitais globais. Em muitos casos, o reconhecimento termina no palco da gala, quando devia ser apenas o início de um percurso internacional.
Mais grave ainda é a normalização de processos pouco transparentes num setor que depende inteiramente de credibilidade artística. Não podemos nos contentar em saber apenas quem vence. É fulcral sabermos quem decide, com que critérios e com que visão cultural para o futuro da música cabo-verdiana. Sem isso, qualquer prémio perde capacidade de influência real, tanto dentro como fora do país.
É verdade que Cabo Verde criou instrumentos importantes de internacionalização, como o Atlantic Music Expo (AME), pensado precisamente para transformar o arquipélago numa plataforma atlântica da música africana. A ideia era, e continua a ser estratégica: trazer ao país programadores, agentes, produtores e festivais do mundo inteiro. Mas a realidade é que, apesar da visibilidade conquistada, os resultados estruturais continuam abaixo do potencial.
O AME poderia até abrir portas, mas Cabo Verde ainda não construiu as condições necessárias para atravessá-las plenamente. Um showcase internacional, por si só, não cria carreiras globais sustentáveis. É preciso management profissional, seguimento estratégico, agenciamento internacional, distribuição forte, marketing digital, campanhas de posicionamento e redes permanentes de circulação artística. E é precisamente aqui que a estrutura ainda falha.
Durante anos, acreditou-se que o talento cabo-verdiano seria naturalmente descoberto pelo mundo. Mas o mercado musical global já não funciona assim. Hoje, a internacionalização é altamente competitiva, profissionalizada e financiada. Países que conseguiram transformar a música em poder global, como a Nigéria com o Afrobeats, venceram porque trataram a música como indústria estratégica, investiram em exportação cultural agressiva, criaram redes internacionais e profissionalizaram toda a cadeia de produção e promoção.
Cabo Verde, pelo contrário, continua demasiado dependente da diáspora, do circuito europeu de world music, dos festivais culturais, e muito de esforços individuais dos próprios artistas. Tudo isso garante uma precária sobrevivência cultural e não consolida presença global massiva. O resultado é um paradoxo desconfortável: Cabo Verde possui uma das identidades musicais mais fortes do Atlântico, mas continua a apresentar uma das estruturas mais frágeis de projeção internacional. Esta realidade, quanto a mim, resulta, sobretudo, de fragilidades estratégicas e organizacionais, associadas a uma ainda insuficiente ambição institucional, um défice que, infelizmente, continua presente em vários setores da vida nacional.
O CVMA poderia ser um instrumento central de mudança. Mas para isso teria de deixar de ser apenas um evento anual de consagração e tornar-se uma plataforma ativa de exportação cultural. Naturalmente que tal exige mais do que um tapete vermelho e roupa chique. Exige visão internacional, exigência técnica, transparência absoluta e uma ligação real aos circuitos globais da música.
Sem essa viragem, continuará a repetir-se o mesmo cenário: artistas cabo-verdianos conquistando reconhecimento e prestígio internacional muitas vezes pelos seus próprios meios, enquanto o sistema interno se limita, sobretudo, a celebrar sucessos já validados pelo exterior, sem conseguir transformar esse reconhecimento em novas oportunidades de projeção global.
Finalmente, deixo aqui uma pergunta para uma reflexão nacional: Cabo Verde quer continuar a celebrar a sua música apenas dentro de casa, ou quer finalmente tratá-la como aquilo que ela já é: um património cultural com vocação global?