Sexta-feira, 10 Julho 2026

Em tom de opinião

Pacto Nacional de Capitalização do Mundial 2026

Os nossos Tubarões Azuis regressaram a casa com a missão plenamente cumprida. Independentemente do resultado final da competição, deixaram uma marca que ficará para sempre na história do nosso desporto e elevaram o nome de Cabo Verde a uma dimensão sem precedentes. Durante semanas, o mundo inteiro falou (e continua a falar) do nosso País, descobriu a nossa bandeira, a nossa cultura, a nossa determinação e a capacidade de um pequeno arquipélago competir com as maiores nações do futebol mundial. Esse é um capital de notoriedade que não podemos desperdiçar.

Internamente, muito tem sido dito e escrito sobre os ganhos que esta participação representa para Cabo Verde. Economistas, empresários, responsáveis públicos, comentadores, agentes turísticos, influenciadores digitais e cidadãos no geral, têm sublinhado as oportunidades que se abrem para o turismo, para o investimento, para a afirmação da marca Cabo Verde e para o reforço do orgulho nacional. Há hoje um consenso alargado: esta participação colocou o País num patamar de visibilidade internacional sem precedentes.

Diz-se, e não pode ser considerado exagero, que Cabo Verde foi o grande vencedor deste Mundial. Alguém disse, e concordámos plenamente, que Cabo Verde não ganhou a Copa do Mundo, mas ganhou o Mundo na Copa. Não conquistámos um título desportivo, conquistámos visibilidade internacional, prestígio e uma nova perceção sobre quem somos enquanto povo. Esse é um património coletivo que deve ser transformado em desenvolvimento, pelo que começa agora um novo campeonato.

Este novo campeonato deve ser entendido como um desafio de liderança nacional: o de transformar este momento de emoção num ciclo duradouro de desenvolvimento económico. Isso exige planeamento, coordenação, qualidade dos serviços, políticas de preços equilibradas, investimento na promoção internacional e uma visão estratégica que vá muito além da euforia que temos estado a viver.

Ao Estado cabe assumir um papel estratégico de coordenação, mobilização e articulação, não para substituir a iniciativa privada, mas para definir uma visão comum, estabelecer prioridades, alinhar políticas públicas e criar as condições para que todos os intervenientes caminhem na mesma direção. As grandes oportunidades nacionais dificilmente produzem resultados estruturantes quando cada instituição atua isoladamente ou quando prevalecem iniciativas dispersas e sem ligação entre si.

Do setor privado espera-se um papel absolutamente determinante. São as empresas que transformam oportunidades em investimento, inovação, emprego, produtos e serviços de qualidade. Por isso, este momento exige uma verdadeira aliança entre o setor público e o setor privado, assente numa visão partilhada, em objetivos comuns e numa atuação coordenada.

É chegado o momento de o Governo convocar um Pacto Nacional de Capitalização do Mundial. Um compromisso estratégico que reúna Estado, municípios, setor privado, associações empresariais, universidades, operadores turísticos, transportadoras, instituições culturais, desportivas e a diáspora, em torno de um plano de ação com objetivos claros, metas mensuráveis e responsabilidades definidas. Não se trata de criar mais uma comissão ou mais um documento. Trata-se de construir uma agenda nacional que transforme a notoriedade conquistada pelos Tubarões Azuis num ativo permanente para o desenvolvimento de Cabo Verde isto porque a notoriedade conquistada pelos Tubarões Azuis pertence a todos e os seus benefícios só serão plenamente alcançados se todos assumirem igualmente a responsabilidade de a transformar em desenvolvimento

Esse pacto poderia definir prioridades concretas: reforçar a promoção internacional do destino Cabo Verde; melhorar a conectividade aérea e marítima; incentivar novos investimentos turísticos; qualificar ainda mais os serviços; valorizar a cultura e o desporto como instrumentos de projeção externa; envolver a diáspora na promoção do país; e consolidar uma marca nacional forte, coerente e reconhecida nos mercados internacionais.

Há igualmente um risco que deve ser acautelado. O aumento do interesse por Cabo Verde não pode conduzir a uma inflação artificial dos preços nem a uma resposta desorganizada da oferta turística. A história demonstra que momentos de grande procura, quando mal geridos, criam bolhas passageiras que rapidamente se desfazem, deixando frustração nos visitantes e desperdiçando oportunidades de crescimento sustentável.

Sabemos que este é um período de intensa atividade. Há muito para organizar, muitas homenagens para prestar e muito trabalho por fazer. Mas é precisamente nestes momentos que as grandes decisões devem ser tomadas. As oportunidades históricas raramente anunciam uma segunda passagem.

Os Tubarões Azuis mostraram-nos do que somos capazes quando trabalhamos unidos, acreditamos nas nossas capacidades e perseguimos um objetivo comum e esta é a maior lição que nos deixam. Agora, cabe-nos demonstrar que aprendemos, realmente, essa lição.

Se conseguirmos agir com a mesma união, disciplina e visão estratégica que a nossa seleção demonstrou dentro das quatro linhas, este Mundial será recordado, naturalmente, como um feito desportivo extraordinário que é, mas também como o momento em que Cabo Verde decidiu transformar reconhecimento internacional em progresso nacional.

É tempo de sermos todos um grande Tubarão Azul! 

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