
O Presidente da República, José Maria Neves, afirmou hoje, 24, no antigo Campo de Concentração do Tarrafal, que a candidatura deste espaço à lista do Património Mundial da UNESCO representa “um gesto de reparação histórica” para todos os que ali sofreram.
A afirmação foi feita durante a sessão de abertura do Simpósio Internacional dedicado à memória histórica, aos direitos humanos e à análise dos sistemas de repressão e encarceramento, organizado pelo Instituto do Património Cultural (IPC). Para o chefe de Estado, “salvaguardar esta memória não é uma opção, mas um imperativo ético na marcha coletiva da humanidade rumo à paz”.
Logo no início alocução, José Maria Neves vincou o peso simbólico do momento e do lugar, classificando o antigo campo, outrora apelidado de campo da morte lenta, como “um solo sagrado da dignidade humana” e um espaço cuja reflexão transcende as fronteiras geográficas e temporais de Cabo Verde. O Presidente defende que estes lugares de memória possuem um valor pedagógico, em paralelo, rejeita a ideia de que possam servir como monumentos ao rancor.
Argumento a sua posição, citando o preâmbulo da Constituição da UNESCO “As guerras nascem na mente dos homens, e é na mente dos homens que devem ser erguidas as defesas da paz”. O representante maior da República, sublinha que é precisamente esse princípio que justifica a preservação e o estudo destes espaços.
Da mesma forma, José Maria Neves recordou que o campo foi criado pelo regime salazarista em abril de 1936 para neutralizar e apagar a dissidência política, tendo albergado combatentes antifascistas portugueses numa primeira fase, e depois nacionalistas e combatentes da liberdade de Angola, da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, após a sua reabertura em 1961. Para o chefe de Estado, a queda do fascismo a 25 de Abril de 1974 e as independências que se seguiram provam que Tarrafal “não foi apenas um lugar de cativeiro, mas um berço onde também se forjou a liberdade”.
Quanto à candidatura à UNESCO, o Presidente afastou qualquer leitura redutora do processo. Outrossim, defende que Cabo Verde não procura apenas um galardão”, que o objetivo é “preencher uma lacuna histórica” e garantir a presença da memória coletiva africana na narrativa global.
“A África tem o direito e o dever de inscrever na narrativa global os seus lugares de dor, de libertação e de reconciliação”, declarou, o Presidente, falando também na qualidade de Champion da União Africana para a preservação do património natural e cultural de África. Na oportunidade, Neves apelou a que o Campo de Concentração do Tarrafal seja encarado “não como um fóssil do passado, mas como uma sentinela do futuro”. Ademais, expressou a esperança de que as conclusões do simpósio aproximem o espaço do reconhecimento global.
“Que a memória dos que aqui sofreram continue a semear nos espíritos dos homens os reflexos inabaláveis de uma paz duradoura”, concluiu o chefe de Estado. O simpósio, que decorre hoje e amanhã no auditório do Campo de Concentração do Tarrafal, reúne peritos do património mundial, académicos nacionais e internacionais, decisores políticos, comunidades locais e antigos presos políticos do campo.
Os trabalhos centram-se na definição do valor universal excecional do sítio, nos critérios de integridade e autenticidade exigidos pela UNESCO e na consolidação do conhecimento científico que sustentará a candidatura perante o Comité do Património Mundial.












































