Domingo, 25 Outubro 2026

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Especialistas alertam para desinformação e desafios do jornalismo na diáspora

O professor universitário e jornalista português Jacinto Godinho alertou hoje para os riscos da desinformação amplificada pela inteligência artificial (IA), enquanto o jornalista luso-cabo-verdiano João do Rosário destacou os desafios do jornalismo na aproximação entre Cabo Verde e as comunidades emigradas. As duas reflexões foram apresentadas na conferência “Jornalismo, Cultura e Diáspora: Cabo Verde no Espaço Digital Global”, promovida pelo Voz do Arquipélago, em Lisboa.

Durante o encontro, realizado este sábado, 24 de Outubro, no Centro Cultural de Cabo Verde, Jacinto Godinho defendeu que o jornalismo enfrenta sobretudo um problema de sustentabilidade, num contexto em que as pessoas continuam a consumir informação, mas não estão dispostas a pagar pelas notícias.

“O jornalismo não está em crise”, afirmou o jornalista da Rádio e Televisão Portuguesa (RTP), explicando que “as pessoas precisam e vão a todas as fontes de informação e informam-se através do jornalismo”. Para o especialista, “o problema do jornalismo é um problema de sustentabilidade”, porque os públicos não pagam pelas notícias, o que dificulta a manutenção dos órgãos de comunicação social.

Professor associado na Universidade de Lisboa e jornalista da RTP desde 1988, Jacinto Godinho considerou que a expansão do mundo digital e o desenvolvimento da inteligência artificial agravaram os desafios do sector, sobretudo pela facilidade de produzir e disseminar conteúdos falsos.

Na sua intervenção, alertou que “a desinformação deixou de ser marginal” e passou a estar estruturada, ameaçando a capacidade das sociedades de partilhar uma realidade comum e de tomar decisões com base em factos verificáveis.

O especialista chamou ainda a atenção para a produção de vídeos, imagens e notícias falsas através da inteligência artificial, salientando os riscos de conteúdos aparentemente credíveis serem difundidos como verdadeiros e posteriormente reproduzidos por plataformas digitais e sistemas de IA.

Jacinto Godinho apontou igualmente a perda de confiança nos órgãos de comunicação social como uma preocupação central, defendendo uma reflexão sobre a responsabilidade dos jornalistas e as práticas profissionais. Na sua perspectiva, a dificuldade em compreender o trabalho jornalístico, sobretudo entre os jovens, contribui para o afastamento dos públicos em relação aos media.

Por sua vez, João do Rosário centrou a sua intervenção no papel do jornalismo na ligação entre Cabo Verde e a diáspora, questionando a capacidade dos meios de comunicação social de acompanhar a evolução do país e manter as comunidades emigradas informadas sobre a realidade nacional.

“Até que ponto é que quem está fora, como produtor de informação, de notícias, também como consumidor de notícias, tem de facto essa visão, a visão que consegue acompanhar o desenvolvimento do país, o pulsar do coração do país?”, questionou o jornalista luso-cabo-verdiano, ao apresentar as suas reflexões sobre a comunicação social na diáspora.

Na sua análise, a circulação de informação entre Cabo Verde e as comunidades emigradas continua marcada por fluxos predominantemente unidireccionais, com os órgãos nacionais a difundirem notícias para o exterior e os meios da diáspora a servirem sobretudo os respectivos núcleos comunitários.

João do Rosário observou também que as redes sociais ampliaram a rapidez da circulação de notícias e podem reforçar os laços identitários, mas contribuem igualmente para a dispersão das comunidades. “Mais que potenciarem a difusão de notícias e a criação de um elo identitário, estas redes promovem ainda mais a dispersão nas comunidades”, afirmou, ressalvando que essa dinâmica também pode ser positiva, na medida em que representa uma maior proximidade e integração das comunidades nos países de acolhimento.

O jornalista considerou que a produção e a partilha de conteúdos em torno de interesses comunitários, regionais e locais poderão assumir um papel crescente no futuro da comunicação social dirigida à diáspora cabo-verdiana.

Ao concluir, manifestou preocupação com o eventual enfraquecimento dos laços identitários entre as novas gerações nascidas no estrangeiro, defendendo, contudo, a necessidade de encontrar novas abordagens para manter a participação dos cidadãos na vida colectiva cabo-verdiana. “Desejo que novas ferramentas ou novas abordagens sejam inventadas pelas gerações mais jovens e que estas possam ser postas ao serviço do jornalismo”, afirmou, defendendo a continuidade da curiosidade e da participação cívica dentro e fora das fronteiras nacionais.

A conferência “Jornalismo, Cultura e Diáspora: Cabo Verde no Espaço Digital Global” enquadra-se nas actividades de celebração do Dia Nacional da Cultura e das Comunidades, assinalado a 18 de Outubro, e pretende promover a reflexão sobre os desafios do jornalismo na era digital, a valorização da cultura cabo-verdiana e o reforço dos laços entre o arquipélago e a diáspora.

A iniciativa contou com a colaboração do Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa, e a parceria operacional da EME – Marketing e Eventos e do Prémio Nacional de Publicidade.

Risco e Riso
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