Domingo, 25 Outubro 2026

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Ana Martinho recomenda formação contínua para jornalistas

“A formação contínua é essencial para preparar os jornalistas para a inteligência artificial, a desinformação e as novas formas de consumo de notícias”, defende a editora do Observatório de Jornalismo em Português, Ana Martinho, na conferência “Jornalismo, Cultura e Diáspora: Cabo Verde no Espaço Digital Global”, que decorreu no sábado, em Lisboa.

Segundo um relatório do OberCom (Observatório da Comunicação) elaborado em cooperação com a CENJOR e também com o sindicato dos jornalistas, sobre o uso da inteligência artificial no jornalismo em Portugal, 71% dos inquiridos que usaram inteligência artificial generativa aprenderam sozinhos e 56% afirmam que a sua organização nunca lhes deu formação. Nas respostas abertas, 83% apontam a falta de formação adequada como um problema.

Entre os inquiridos, 86% dizem que usariam mais a inteligência artificial se recebessem formação, 67% querem trabalhar com ferramentas específicas para o jornalismo e 60% desejam competências para verificar fatos e detetar desinformação com a ajuda da tecnologia.

Ana Martinho não rejeita a tecnologia, afirma que este pode melhorar a produção e a qualidade dos conteúdos nas mãos de quem sabe usá-la. Por isso considera importante que a entrada da inteligência artificial nas redações venha acompanhada de formação específica, que explique as potencialidades e os limites das ferramentas. Defende que a máquina apoia o trabalho, mas a decisão editorial sobre o que é notícia pertence ao jornalista.

A pressão do dia a dia reforça a necessidade, conforme Ana Martinho, as redações são cada vez mais pequenas e produzem informação em pouco tempo, e a corrida a publicar primeiro pode chocar com o rigor. Nessa ótica, a editora defende que a verificação faça parte dos hábitos de trabalho, que seja rápida e cumpra os critérios de rigor. A formação, acrescenta, não se destina só a quem começa a carreira, porque a tecnologia e o mercado obrigam todos a atualizar os conhecimentos, reitera que a formação também ajuda a recuperar a confiança do público.

Ana Martinho cita o Digital News Report, segundo o qual a confiança nas notícias em Portugal caiu mais de dez pontos percentuais desde 2015, embora o país continue bem posicionado. A tendência repete-se noutros países, para a responsável, as redações devem explicar como trabalham e reforçar a literacia mediática, para que os cidadãos avaliem melhor as notícias que consomem.

Ana Martinho alerta para o crescimento dos “desertos de notícias”, zonas sem qualquer órgão de comunicação social que acompanhe com regularidade o que acontece. Em Cabo Verde, a dispersão das ilhas torna ainda mais importante informar sobre cada comunidade, e as plataformas digitais permitem que o jornalismo local chegue à diáspora.

A editora propõe, por isso, reforçar a cooperação entre jornalistas e instituições de formação de Cabo Verde e de Portugal. Sugere estágios cruzados, ações conjuntas de formação contínua e mecanismos de verificação de fatos em língua portuguesa, que podem melhorar as competências dos profissionais dos dois países e responder a desafios comuns do jornalismo digital.

Na sua perspetiva, a preparação dos jornalistas deve juntar uma base ética e humanista às competências técnicas, como o trabalho com dados, a verificação digital e a produção multimédia. Considera igualmente essencial que a formação envolva as instituições académicas, as redações e a comunidade.

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