Terça-feira, 21 Julho 2026

Freskinhe Freskinhe

Literacia hídrica: estudo avalia o que sabemos sobre gestão da água

A estudante de mestrado da Universidade do Porto, Joana Barros, está a desenvolver uma investigação sobre a literacia hídrica em Cabo Verde, com o objectivo de avaliar o nível de conhecimento, as percepções e os comportamentos da população relativamente à gestão sustentável da água e contribuir para a criação de programas de formação adaptados à realidade do país.

Intitulado “Literacia Hídrica em Cabo Verde: Da diagnose à proposta formativa”, o estudo integra o Mestrado em Ensino e Divulgação das Ciências e procura compreender de que forma os cabo-verdianos percepcionam e utilizam um dos recursos mais escassos do arquipélago.

Em entrevista ao Voz do Archipelago, a investigadora explicou que a escolha do tema resulta da conjugação entre a sua formação em Biologia e a experiência adquirida durante missões do projeto Semear Futuro em Cabo Verde. “Percebi no terreno que existia uma distância entre a informação técnica disponível e a realidade vivida pelas famílias. Quis desenvolver um trabalho que unisse esses dois mundos: o conhecimento científico e a experiência quotidiana das pessoas”, afirma. 

Segundo Joana Barros, Cabo Verde constitui um caso paradigmático de escassez hídrica, uma vez que enfrenta uma situação de “escassez absoluta”, agravada pelas alterações climáticas e pela forte dependência dos recursos subterrâneos e da dessalinização. A investigadora ainda explicou ao nosso diário que cerca de 87% do abastecimento de água provém dos aquíferos subterrâneos e que a agricultura consome entre 91% e 93% da água extraída, realidade que reforça a necessidade de uma gestão mais eficiente dos recursos.

O estudo pretende diagnosticar a literacia hídrica da população adulta nas dimensões do conhecimento, das atitudes e dos comportamentos, analisando não apenas o que os cidadãos sabem sobre a água, mas também aquilo que fazem no dia-a-dia e o grau de confiança que depositam nas instituições responsáveis pela gestão do sector. Para esse efeito, está disponível um questionário online dirigido a pessoas com mais de 18 anos residentes em Cabo Verde. A participação é voluntária, anónima e demora cerca de dez minutos.

Joana Barros considera essencial envolver trabalhadores e cidadãos de diferentes sectores da sociedade, uma vez que as experiências relacionadas com a água variam significativamente entre as diferentes ilhas, profissões e contextos sociais. “Mais importante do que saber o que as pessoas conhecem é perceber a distância entre aquilo que sabem, aquilo que sentem e aquilo que fazem”, sublinhou.

Os primeiros resultados já revelam alguns desafios importantes. A investigadora destaca, por exemplo, que muitos inquiridos reconhecem a escassez de água no país, mas identificam incorretamente a dessalinização como principal fonte de abastecimento, quando a maior parte da água provém dos aquíferos subterrâneos. Outro dado que considera preocupante é a diferença entre a consciência cívica e os comportamentos efetivos. “Quase 90% dos participantes dizem que denunciar uma fuga de água é um dever cívico, mas apenas cerca de metade afirma fazê-lo quando presencia uma situação dessas”, revelou.

O estudo evidencia ainda que mais de seis em cada dez inquiridos consideram a água engarrafada mais segura do que a água da rede pública, situação que, na opinião da investigadora, demonstra que o principal desafio não é apenas técnico, mas também de confiança nas entidades gestoras. Além do diagnóstico nacional, a investigação prevê o desenvolvimento do curso “Água Nossa”, uma formação gratuita e online que poderá ser utilizada por câmaras municipais, organizações não-governamentais, escolas e outras instituições para promover a educação ambiental e o uso sustentável da água.

Segundo Joana Barros, os resultados poderão contribuir para orientar futuras políticas públicas, melhorar as estratégias de sensibilização e reforçar a transparência na gestão dos recursos hídricos. “Gostaria de ver um Cabo Verde onde os cidadãos conheçam a origem da água que consomem, confiem no sistema que a distribui e se sintam parte da solução. A gestão sustentável da água deve ser uma responsabilidade partilhada entre instituições e cidadãos”, concluiu.

Tags

Partilhar esta notícia

Risco e Riso
×