
A escassez de habitação na ilha da Boa Vista está a agravar-se com a chegada constante de trabalhadores para o setor hoteleiro, o crescimento do turismo e a abertura de novas rotas aéreas, deixando residentes, professores deslocados e comunidades imigrantes confrontados com rendas cada vez mais elevadas e dificuldades para encontrar alojamento de longa duração.
A transformação do mercado imobiliário tem sido particularmente sentida com a conversão de habitações destinadas ao arrendamento de longa duração em alojamentos turísticos, situação que, segundo moradores e trabalhadores ouvidos, tem reduzido ainda mais a oferta disponível para quem vive e trabalha permanentemente na ilha.
Patrícia del Peso, espanhola residente na Boa Vista há mais de um ano, é um dos exemplos. O senhorio pediu-lhe a casa onde vivia para a transformar num alojamento destinado a turistas, obrigando-a a iniciar uma longa procura por uma nova habitação. “Tudo o que antigamente era para larga duração, agora é para férias”, contou, relatando que, durante a procura, recebeu repetidamente a mesma resposta: “não há para longa estadia”.
Segundo Patrícia del Peso, o aumento da procura, associado às grandes obras hoteleiras, contribuiu para a subida dos preços. As casas mobiladas, explicou, podem custar entre 25 e 45 mil escudos, chegando, em alguns casos, aos mil euros.
A residente considera que a situação penaliza sobretudo quem vive e trabalha na ilha, uma vez que “quem pode paga”, enquanto para muitos residentes mais de metade do rendimento mensal acaba por ser destinado ao pagamento da renda.
Professores entre os mais afetados
O problema também atinge diretamente o setor da educação. Professores deslocados de outras ilhas chegam à Boa Vista e deparam-se com dificuldades para encontrar alojamento compatível com os seus rendimentos. Sob anonimato, alguns docentes relataram que conseguir uma casa depende muitas vezes de sorte, levando-os a recorrer temporariamente a familiares, conhecidos ou a partilhar espaços com pessoas que não conhecem.
A insegurança habitacional é de tal dimensão que alguns professores optam por continuar a pagar a renda durante as férias escolares, mesmo quando regressam às suas ilhas de origem, por receio de não encontrarem casa quando retomarem as aulas.
Os docentes consideram que os preços praticados estão muito acima da sua capacidade financeira. Um T0 com condições mínimas pode custar entre 18 e 20 mil escudos, enquanto os T1 variam entre 22 e 25 mil escudos. Já os chamados “quartinhos” raramente são encontrados por menos de 15 mil escudos. A pressão sobre o orçamento familiar aumenta ainda com os custos de alimentação e de outros bens e serviços numa ilha onde o custo de vida é considerado elevado.
Imigrantes enfrentam sobrelotação e falta de condições
Entre os grupos mais afetados estão também trabalhadores imigrantes ligados à construção civil, limpeza e segurança, que encontram dificuldades não apenas para pagar as rendas, mas também para encontrar habitações com condições mínimas.
Sadju Masani, pedreiro e pai de dois filhos, vive atualmente com mais cinco pessoas numa casa de dois quartos, sem condições básicas de saneamento, pela qual paga 15 mil escudos mensais. “O que ganhamos é muito pouco, cerca de 25.000 a 28.000 escudos, pagamos a renda e não resta quase nada”, afirmou.
O trabalhador relatou ainda os esforços para reduzir as despesas de eletricidade, evitando, por exemplo, ligar a ventoinha, e explicou que a família precisa comprar diariamente cerca de quatro garrafões de água. A situação, disse, mantém-se há cerca de um ano, enquanto procura, sem sucesso, uma alternativa de habitação.
Também o guineense Serifu Baldé, segurança e residente na Boa Vista há mais de 20 anos, considera que o problema deixou de ser apenas uma questão de preço. “Mesmo tendo dinheiro, não se encontra casa”, afirmou, explicando que quatro pessoas partilham atualmente um espaço pelo qual pagam 17 mil escudos.
A falta de habitação, acrescentou, impede-o inclusive de trazer a esposa para viver consigo na Boa Vista. Entre renda, alimentação, eletricidade, água, despesas de saúde e apoio à família na Guiné-Bissau, o trabalhador afirma que quase nunca consegue reservar dinheiro no final do mês.
Turismo cresce, pressão social aumenta
A expansão turística, a construção de novas unidades hoteleiras e a entrada de companhias aéreas de baixo custo têm contribuído para aumentar a circulação de pessoas na ilha e diversificar o perfil dos visitantes. Contudo, para os residentes, o crescimento económico não tem sido acompanhado por uma resposta proporcional às necessidades habitacionais da população e dos trabalhadores que asseguram o funcionamento diário da economia local.
A substituição do arrendamento de longa duração pelo alojamento turístico é apontada como uma das principais causas da redução da oferta para residentes, num contexto em que a procura continua a aumentar. Entre o crescimento do turismo e a chegada de novos trabalhadores, a Boa Vista enfrenta assim um desequilíbrio crescente entre a dinâmica económica e a capacidade de garantir habitação acessível para quem vive e trabalha na ilha.
Para os afetados, a situação exige respostas urgentes, incluindo maior regulação do mercado de arrendamento e medidas capazes de garantir habitação de longa duração a residentes, trabalhadores deslocados e comunidades imigrantes.






















































