Sexta-feira, 21 Agosto 2026

Freskinhe Freskinhe

Editorial desta Semana: Liberdade de escolha, Feminismo e o Regresso dos Papéis Tradicionais

Um debate esta semana na televisão portuguesa, SIC Notícias, voltou a colocar no centro da discussão pública uma questão que eu julgava, talvez precipitadamente, ultrapassada: deve ainda a sociedade definir qual é o lugar da mulher? Frente a frente estavam duas visões sobre o feminismo. De um lado, a defesa de que permanecem desigualdades que justificam a continuidade da luta feminista. Do outro, uma perspetiva conservadora que reivindica para a mulher o direito de escolher a maternidade, a família, o cuidado da casa e um modelo de vida assente em papéis tradicionalmente femininos.

É-me difícil imaginar que, depois de décadas de luta pela emancipação feminina, de incontáveis debates, seminários, fóruns e reflexões, e de tantos direitos consagrados em acordos e leis, estejamos novamente a discutir se o lugar da mulher é em casa. Mais surpreendente ainda é verificar que algumas das vozes que hoje recuperam esse debate são de mulheres jovens, escolarizadas, profissionalmente ativas e plenamente beneficiárias dos direitos conquistados pelas gerações que as antecederam.

A polémica que se seguiu nas redes sociais talvez seja menos importante do que a pergunta que o debate deixou: pode uma mulher, em nome da liberdade conquistada pelo feminismo, escolher um modelo de vida semelhante àquele do qual outras mulheres lutaram para se libertar?

Eu diria que naturalmente pode. Se defendemos verdadeiramente a liberdade das mulheres, teremos de aceitar também escolhas que não correspondem à nossa própria conceção de emancipação. Uma mulher é tão livre para dirigir uma empresa, entrar na política, seguir uma carreira científica ou decidir não ter filhos como é para interromper a carreira, dedicar-se à maternidade ou assumir como principal responsabilidade o cuidado da família.

A liberdade que apenas reconhece como legítimas as escolhas com as quais concordamos deixa de ser liberdade. Mas a questão torna-se mais complexa quando saímos da esfera da escolha individual e entramos no domínio da construção de um modelo de sociedade.

Uma coisa é uma mulher escolher ficar em casa, dedicar-se à família, confiar determinadas decisões ao marido ou até decidir, por vontade própria, não exercer o seu direito de voto, afirmando: “eu escolho que o meu marido fale e decida por mim” Outra, profundamente diferente, é defender uma ordem política em que o marido fale por todas nós, transformando, assim, a escolha individual numa proposta de limitação da liberdade coletiva.

Nos Estados Unidos, setores ultraconservadores e religiosos vêm defendendo o chamado household voting, o voto por agregado familiar, segundo o qual a família passaria a constituir a unidade política e um único voto seria exercido, em regra, pelo marido enquanto chefe do agregado. Há mesmo mulheres que defendem a revogação da 19.ª Emenda da Constituição norte-americana, que há mais de um século impede que o direito de voto seja negado em razão do sexo.

Os números merecem atenção, embora devam ser lidos no contexto da sondagem de onde provêm. Num levantamento realizado em 2025, 16,9% das mulheres inquiridas manifestaram concordância com o chamado household voting e 18% concordaram com a revogação da 19.ª Emenda. Entre as mulheres que subscreviam uma conceção religiosa segundo a qual homens e mulheres têm papéis distintos e o homem exerce a liderança familiar, o apoio ao voto por agregado ultrapassava os 30%.

Podemos considerar estes números minoritários e são. Podemos também considerar remota a possibilidade de uma democracia como a norte-americana retirar às mulheres o direito de voto. Contudo, o mais inquietante e perturbador não é saber se uma proposta desta natureza tem hoje condições políticas para triunfar, mas perceber que, mais de cem anos depois da conquista do sufrágio feminino, há mulheres dispostas a defender que outras mulheres deixem de possuir uma voz política autónoma.

Durante séculos, milhões de mulheres não ficaram em casa porque escolheram fazê-lo. Ficaram porque não podiam escolher outra coisa. Não tinham (e muitas continuam ainda hoje a não ter) igual acesso à educação, ao mercado de trabalho, à propriedade ou ao crédito. Em muitos países, não podiam (e, em alguns, ainda não podem) administrar livremente os próprios bens, decidir sobre a maternidade, divorciar-se em condições de igualdade ou participar plenamente na vida política.

As conquistas feministas não nasceram de uma rejeição da família ou da maternidade. Nasceram, fundamentalmente, da recusa de que a condição de mulher limitasse as aspirações e o destino de uma pessoa.

E hoje surgem mulheres que não apenas têm o direito de estudar e trabalhar, como estudam e trabalham; que podem expressar publicamente as suas opiniões, participar em movimentos políticos, criar conteúdos nas redes sociais e subir a um palco para defender livremente as suas convicções (direitos conquistados pelas mulheres que as antecederam), e que, paradoxalmente, utilizam essa mesma liberdade para questionar a permanência de alguns deles.

É crucial que observemos com atenção o crescimento de movimentos femininos conservadores que hoje questionam algumas ideias e conquistas do feminismo contemporâneo. Não devemos ridicularizá-los, muito menos silenciá-los. Devemos ouvi-los e debatê-los, procurando perceber também o que o seu crescimento nos diz sobre as inquietações de algumas mulheres relativamente ao modelo de emancipação que construímos.

O verdadeiro progresso não deve consistir em obrigar a mulher a sair de casa, da mesma maneira que, durante tanto tempo, a sociedade a obrigou a permanecer nela. Este é o momento de iniciarmos uma nova conversa sobre o feminismo e sobre o próprio significado da emancipação feminina, não esquecendo que gerir uma casa, cuidar de uma família, criar e educar os filhos é uma tarefa de enorme responsabilidade, exigência e valor social. Formar seres humanos, transmitir valores, acompanhar o seu crescimento e assegurar o equilíbrio quotidiano de uma família constitui uma missão nobre e muito exigente, principalmente nos dias turbulentos em que vivemos.

Uma mulher não é menos emancipada porque decide dedicar-se à família, assim como não deve ser considerada menos mulher porque escolhe uma carreira, a independência profissional ou uma vida sem filhos. Reconhecer a grandeza dessa tarefa também não significa considerá-la uma responsabilidade exclusivamente feminina; significa recusar a ideia de que uma atividade perde valor ou dignidade por ser exercida dentro de casa e não no mercado de trabalho.

O debate na SIC Notícias evidencia que precisamos elevar a conversa sobre feminismo a um novo patamar: não apenas continuar a garantir às mulheres o acesso aos espaços que durante séculos lhes estiveram vedados, mas assegurar-lhes condições para fazer escolhas diferentes sem perder autonomia, dignidade ou proteção.

Aqui impõe-se uma distinção fundamental: a que separa os direitos conquistados coletivamente das escolhas que cada mulher faz individualmente no exercício desses mesmos direitos. Uma mulher pode defender um modelo tradicional de família e, simultaneamente, beneficiar do direito ao voto, à educação, ao trabalho, à propriedade, à igualdade perante a lei e à participação política. Pode escolher ficar em casa sem defender que as outras mulheres regressem a ela; considerar que o seu casamento funciona melhor segundo uma divisão tradicional de papéis sem pretender transformar essa opção numa regra para todas; ou simplesmente decidir não exercer determinados direitos sem, por isso, defender que sejam retirados às outras mulheres.

Ora, o feminismo não terá cumprido plenamente a sua missão se substituir uma imposição por outra. Se ontem se dizia à mulher que o seu lugar era em casa, não devemos hoje dizer-lhe que a sua realização só é possível fora dela. A emancipação deve significar precisamente o contrário: que nenhuma mulher tenha o seu destino determinado antecipadamente pelo facto de ter nascido mulher.

Uma sociedade verdadeiramente livre, igualitária e equitativa deve reconhecer a mesma dignidade à mulher que escolhe dedicar-se à casa, à maternidade e à família e àquela que escolhe uma carreira, a política, a ciência ou uma vida sem filhos.

Risco e Riso
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