
A investigadora Roselma Évora afirmou na sexta-feira, 10, na cidade da Praia, que a crescente abstenção eleitoral em Cabo Verde resulta, sobretudo, da insatisfação dos cidadãos com o funcionamento da democracia, do afastamento entre eleitores e eleitos e da fraca cultura cívica. A especialista defende ainda uma reforma política e o reforço da educação para a cidadania como medidas para inverter a tendência de queda da participação nas eleições.
A docente fez estas declarações durante a conversa aberta subordinada aos temas “A abstenção em Cabo Verde: um problema ou uma oportunidade de aperfeiçoar a democracia?” e “Participação política, crise de representação e qualidade da democracia em Cabo Verde – desafios da consolidação democrática no arquipélago da alternância”, realizada na sede da Uni-Sénior, juntamente com o antigo presidente da Assembleia Nacional, Aristides Lima.
Ao analisar as causas da abstenção, Roselma Évora identifica a insatisfação com o funcionamento da democracia como um dos principais fatores. Com base em dados do Afrobarómetro, afirma que a maioria dos cabo-verdianos continua a preferir a democracia como regime político, mas apenas cerca de 20% manifesta satisfação com a forma como ela funciona no país.
A investigadora associa essa insatisfação ao desempenho económico e à capacidade das instituições responderem às necessidades da população. Aponta o desemprego, a situação económica, a segurança e, mais recentemente, a saúde como algumas das principais preocupações dos cidadãos. Ademais, sublinha que essas questões influenciam diretamente a confiança dos eleitores no sistema político.
Roselma Évora identifica igualmente uma crise de representação. Na sua perspetiva, aumenta o distanciamento entre os eleitos e os cidadãos, situação que reduz a confiança nas instituições democráticas e enfraquece a participação política.
Outro fator destacado pela especialista é a reduzida cultura cívica. Defende que as campanhas de sensibilização para o voto não devem limitar-se aos períodos eleitorais, mas sim decorrer de forma permanente, sobretudo nas escolas, através de iniciativas que promovam a educação para a cidadania e estimulem os jovens a participar na vida democrática.
A investigadora refere ainda que fatores individuais também condicionam a participação eleitoral. Um estudo realizado em sete círculos eleitorais mostra que muitas pessoas, sobretudo mulheres, deixam de votar porque o dia das eleições coincide com compromissos familiares, religiosos ou domésticos, realidade que, segundo defende, reforça a necessidade de intensificar a sensibilização para a importância do voto.
Como resposta a estes desafios, Roselma Évora propõe uma reforma política que substitua o atual sistema de listas fechadas por listas abertas, permitindo aos eleitores escolher diretamente os candidatos dentro de cada partido. Defende igualmente a discussão sobre o voto obrigatório e a adoção de formas de votação mais modernas para aumentar a participação da diáspora cabo-verdiana nas eleições nacionais.
Na sua intervenção, Roselma Évora recordou que Cabo Verde realiza eleições multipartidárias desde 1991 e destaca a consolidação do sistema democrático ao longo de 35 anos. Salienta que o país figura entre as principais referências democráticas em África e cumpre os requisitos fundamentais de uma democracia pluralista.
A docente considera que o país oferece condições favoráveis ao exercício do voto. Explica que o recenseamento eleitoral permanente e contínuo facilita a inscrição dos eleitores e permite que mais de 94% dos cidadãos com capacidade eleitoral estejam registados e aptos a votar e que o processo eleitoral melhora a cada eleição.
Apesar desses avanços, Roselma alerta para a diminuição da participação eleitoral. Refere que o número de eleitores inscritos cresce de forma contínua, mas a afluência às urnas segue a tendência inversa. Segundo a especialista, as eleições legislativas de maio registam uma quebra de cerca de dez pontos percentuais, reduzindo a participação para aproximadamente 46,5%, um resultado que considera preocupante.
A docente explica ainda que os cabo-verdianos adotam um comportamento eleitoral seletivo. Na sua análise, os eleitores atribuem maior importância às eleições legislativas, porque delas resulta a formação do Governo. Já as presidenciais apresentam, de forma recorrente, os níveis mais baixos de participação.
Redação Voz do Archipelago
















































