
A antiga inspetora da educação Clara Marques transformou uma preocupação profissional num projeto de preservação do património nacional ao criar o Museu da Educação de Cabo Verde, instituição dedicada à salvaguarda da memória do ensino no país.
Instalado no histórico edifício da Escola Grande, na cidade da Praia, o museu reúne atualmente mais de 1.200 peças que documentam diferentes períodos da educação cabo-verdiana, desde o período colonial até à fase pós-independência.
O edifício, datado de 1777 e construído para acolher as primeiras escolas oficiais do arquipélago, alberga um acervo que inclui materiais didáticos, mobiliário escolar e objetos utilizados nas práticas educativas de outras épocas, incluindo instrumentos associados aos castigos corporais, como a palmatória e a vara de marmeleiro.
A criação do museu surgiu durante as missões de inspeção escolar realizadas por Clara Marques, quando a antiga inspetora constatou que materiais históricos estavam a ser descartados nas escolas devido a obras, reformas e substituição de mobiliário.
“Nas minhas visitas, verificava que materiais riquíssimos estavam a desaparecer devido a reformas ou mudanças de mobiliário. Questionei-me sobre o que devia fazer para resgatar e valorizar esse património e percebi que o caminho era um museu”, recorda.
Entre as peças consideradas de maior valor histórico estão dois volumes do Registo Biográfico de Professores, que reúnem informações sobre docentes cabo-verdianos entre 1936 e 1956, incluindo registos profissionais, louvores e sanções disciplinares.
O museu permite ainda aos visitantes conhecer uma reconstituição de uma sala de aula da década de 1960, com mobiliário escolar da época, mapas antigos e outros elementos que ajudam a retratar o ambiente educativo durante o período colonial.
Apesar da importância do acervo, a instituição enfrenta dificuldades financeiras e logísticas. O funcionamento do museu tem sido assegurado em grande parte com recursos próprios da fundadora, que defende a necessidade de maior envolvimento das instituições públicas e do setor privado.
“É um museu gratuito porque queremos criar nas pessoas o hábito de visitar museus. Mas é suportado por mim mesma. Em Cabo Verde ainda não temos a tradição de patronato ou apoio sistemático do setor privado ou estatal aos museus independentes”, afirma Clara Marques.
A responsável apela ao Governo, à Câmara Municipal da Praia e a outras entidades para a criação de um quadro permanente de apoio técnico e financeiro que permita garantir a sustentabilidade do projeto. Entre as prioridades estão a criação de uma equipa executiva estável, a digitalização do acervo, a elaboração de um catálogo técnico das peças e a modernização do espaço através da introdução de tecnologias multimédia e interactiva.
Aberto ao público de segunda a sexta-feira, na Escola Grande da Praia, o Museu da Educação procura preservar não apenas objetos antigos, mas também a memória de professores, alunos e práticas que marcaram a evolução do sistema educativo cabo-verdiano.

















































