
A receita da cachupa, um dos pratos mais emblemáticos da gastronomia cabo-verdiana, foi inscrita, a 14 de outubro, no Museu da Alimentação e Agricultura da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma, Itália, num reconhecimento internacional da cultura e das tradições culinárias de Cabo Verde.
A apresentação da receita foi conduzida pelo chef Lamine Medina, cozinheiro oficial da selecção nacional de futebol, os Tubarões Azuis, durante uma cerimónia realizada no âmbito das actividades do Dia Mundial da Alimentação, assinalado a 16 de Outubro. O evento contou com a presença de várias personalidades, entre as quais o ministro do Mar, João do Carmo.
Em declarações à comunicação social, após regressar a São Vicente, na sexta-feira, 16, Lamine Medina afirmou sentir-se orgulhoso por ter levado a cachupa ao museu da FAO, considerando que esta conquista representa um marco para a gastronomia nacional.
“Não é pessoalmente por mim, mas por sentir que vou trazer a cachupa para o Museu da FAO, em Roma. Senti-me um guardião da nossa gastronomia, mas podia ser outra pessoa qualquer”, afirmou o chef, sublinhando a importância de valorizar os produtos e os pratos tradicionais do país.
Lamine Medina reconheceu que sentiu algum nervosismo durante a apresentação, devido à responsabilidade de representar um prato que faz parte da identidade de todos os cabo-verdianos e cuja confecção varia de ilha para ilha, de acordo com os ingredientes, os costumes e as preferências de cada comunidade.
Segundo o chef, a participação superou as suas expectativas, sobretudo pela adesão das pessoas de diferentes nacionalidades que tiveram a oportunidade de provar a cachupa. A quantidade inicialmente preparada para cerca de 100 pessoas revelou-se insuficiente perante a procura, levando-o a gerir as porções para permitir que mais participantes pudessem degustar o prato. “Foi excelente, melhor do que estava a imaginar”, contou, acrescentando que o interesse demonstrado pelos visitantes lhe deixou a sensação de dever cumprido.
Para Lamine Medina, a inscrição da cachupa no museu constitui um momento histórico para o sector gastronómico cabo-verdiano, sobretudo por permitir que um prato tradicional do arquipélago seja apresentado num espaço internacional dedicado à alimentação, à cultura e às tradições dos povos. Cabo Verde foi um dos três países seleccionados para esta iniciativa, juntamente com Samoa e Haiti.
O Museu da Alimentação e Agricultura da FAO procura promover a diversidade cultural e alimentar, evidenciando a ligação entre a história, a identidade e as tradições dos povos e os alimentos que consomem. A iniciativa valoriza igualmente os ingredientes locais, a agrobiodiversidade e os sistemas agrícolas que contribuem para a preservação do ambiente e da biodiversidade.
A relação de Lamine Medina com a divulgação da cachupa ganhou maior visibilidade durante a participação da selecção cabo-verdiana no Campeonato do Mundo de Futebol, quando o prato era incluído semanalmente no menu dos jogadores. Segundo o cozinheiro, a cachupa ajudava os atletas a manterem-se ligados às suas raízes, mesmo estando longe de Cabo Verde.
“Cada vez que estava a cozinhar cachupa na selecção, sentia que toda a gente ficava mais próxima de casa”, recordou, explicando que o prato despertava memórias, emoções e momentos de convívio entre os jogadores e a equipa técnica.
O chef destacou ainda a versatilidade da cachupa, cuja preparação assume características distintas conforme a ilha e a disponibilidade dos produtos. Embora tenha uma base tradicional, o prato pode incluir diferentes tipos de carne, peixe e outros ingredientes, reflectindo a diversidade gastronómica do arquipélago.
Entre as receitas que pretende ajudar a recuperar está a cachupa de peixe com leite de coco, caril e açafrão, uma preparação antiga, recordada sobretudo pelas gerações mais velhas e que, segundo o cozinheiro, merece voltar a ganhar espaço na gastronomia nacional.
Lamine Medina defendeu, por outro lado, a realização de eventos gastronómicos em Cabo Verde, mas considerou que estes devem apostar na qualidade, na escolha dos participantes e numa estratégia eficaz de promoção dos produtos nacionais.
Na sua perspectiva, a divulgação da gastronomia cabo-verdiana deve envolver jornalistas, críticos gastronómicos e chefes de cozinha reconhecidos, capazes de dar maior visibilidade aos pratos tradicionais e atrair novos públicos. “Não é só fazer mais eventos, é fazer eventos de qualidade, bem feitos”, defendeu, apelando a uma aposta consistente na valorização da gastronomia cabo-verdiana.






















































