
Os casos de esquistossomose identificados no concelho de São Miguel e noutras localidades relacionadas com o atual surto já ultrapassam uma centena, revelou este domingo o cientista Maximiano Fernandes, que defendeu o reforço urgente das medidas de vigilância, rastreio e sensibilização para conter a propagação da doença.
Em declarações à imprensa, o investigador explicou que os dados mais recentes apontam para um aumento significativo do número de pessoas infectadas, sobretudo após a intensificação dos rastreios promovidos pela Delegacia de Saúde de São Miguel em escolas e comunidades consideradas de maior risco.
Segundo Maximiano Fernandes, os primeiros estudos realizados na localidade de Ribeira de Principal permitiram confirmar apenas nove casos através de análises laboratoriais. No entanto, a continuação das investigações e a expansão dos exames à população revelaram uma dimensão muito superior do problema.
“Quando iniciámos os estudos, foram confirmados nove casos no laboratório. Com os exames realizados posteriormente, sobretudo entre crianças em idade escolar, os números aumentaram rapidamente e hoje ultrapassam cinquenta apenas naquela localidade”, afirmou.
O cientista destacou que uma parte significativa dos infectados não apresentava sintomas, o que dificultou a identificação precoce da doença e contribuiu para a sua circulação silenciosa na comunidade. “O trabalho de campo permitiu detectar muitos casos assintomáticos que estavam ocultos. Isso mostra que a doença já circulava na comunidade antes de ser identificada”, explicou.
De acordo com o investigador, os casos detectados em Ribeira de Principal, noutras localidades do concelho de São Miguel e em pessoas provenientes da mesma zona diagnosticadas noutros concelhos da ilha de Santiago elevam actualmente o total para mais de uma centena.
“Os dados estatísticos que temos neste momento mostram claramente que os casos já passam dos cem. Há pessoas identificadas na Praia, noutras localidades da ilha e até casos confirmados no exterior, nomeadamente em França”, revelou.
Perante a evolução da situação epidemiológica, Maximiano Fernandes apelou ao reforço das campanhas de informação e sensibilização, recomendando que todas as pessoas que tenham tido contacto com águas potencialmente contaminadas procurem os serviços de saúde para realização de exames e eventual tratamento.
O investigador alertou ainda que o principal fator de risco continua a ser o contacto direto com águas contaminadas existentes em tanques, ribeiras e outras zonas de acumulação permanente de água. “A probabilidade de infecção é muito elevada. Se dez pessoas entrarem em contacto com uma água contaminada, cerca de nove poderão ser infectadas”, advertiu.
Segundo explicou, não são apenas os banhos recreativos que representam perigo, uma vez que qualquer contacto com a água contaminada pode permitir a entrada das larvas do parasita no organismo. “Temos casos de crianças que apenas lavaram os pés ou as mãos e acabaram infectadas. Qualquer contacto com a água contaminada pode ser suficiente para a transmissão”, sublinhou.
Na Ribeira de Principal, os estudos identificaram uma área considerada de risco que se estende desde a zona da cachoeira até Mato Dentro, abrangendo aproximadamente um quilómetro de potencial exposição ao parasita. O cientista manifestou igualmente preocupação com a frequência de pessoas em zonas como Pilon Cão e o tanque de Machado.
Apesar da aproximação da época das chuvas, Maximiano Fernandes considera que o principal factor para a manutenção da transmissão não é a estação do ano, mas sim a exposição contínua da população às águas contaminadas, associada à presença de numerosos caramujos hospedeiros do parasita.
Face ao aumento do número de casos, o investigador defendeu o reforço dos recursos humanos e técnicos colocados à disposição da Delegacia de Saúde de São Miguel. “É necessário reforçar as equipas no terreno durante vários meses. Precisamos de equipas multidisciplinares capazes de apoiar a investigação, vigilância e controlo da doença”, sustentou.
Ao mesmo tempo, elogiou a estratégia de tratamento em massa implementada pelas autoridades sanitárias, mas insistiu na necessidade de manter os rastreios para identificar novos casos, acompanhar os doentes e interromper eventuais cadeias de transmissão.
A esquistossomose, também conhecida por bilharzíase, é uma doença parasitária causada pelo verme Schistosoma haematobium, transmitido através do contacto com água doce contaminada por larvas libertadas por caramujos infectados. A doença pode provocar sangue na urina, dores abdominais, febre e fadiga, embora muitos doentes permaneçam sem sintomas durante longos períodos.
A doença foi identificada pela primeira vez em Cabo Verde em 2022, no concelho de São Miguel, após a confirmação da presença do parasita. Desde então, as autoridades sanitárias têm desenvolvido investigações e acções de controlo para compreender a dimensão da transmissão local e reduzir o risco de novos casos.
Entretanto, o Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP), em parceria com a Delegacia de Saúde de São Miguel, o Ministério da Agricultura, a Agência Nacional de Água e Saneamento e investigadores portugueses, tem intensificado as operações de vigilância epidemiológica, recolha de amostras, análises laboratoriais, rastreios comunitários e campanhas de sensibilização junto das populações.











































