A revista oficial do 1.º Fórum Mulher e os Desafios do Desenvolvimento — evento coorganizado por este jornal em maio do ano passado — já está disponível. Suzana Abreu, governadora de Cabinda, que esteve em Cabo Verde para participar na iniciativa, concedeu na ocasião uma entrevista ao nosso diário. Hoje, publicamos essa conversa que se mantém аtual, em que a governadora de Cabinda aborda os progressos de Angola e de Cabo Verde na equidade de género e reflete sobre os desafios que as mulheres enfrentam para conciliar a carreira profissional com a vida familiar.
Voz do Archipelago (VA) ─ Por que quis vir participar no 1º Fórum Mulher e os Desafios do Desenvolvimento?
Suzana Abreu (SA) ─ Primeiro, deixa-me dizer que é a primeira vez que venho a Cabo Verde e estou a gostar muito. A maior parte das minhas amigas de infância são cabo-verdianas. Eu, desde pequena, oiço falar a vossa língua e como cachupa. O convite para vir a Cabo Verde participar neste fórum partiu do presidente da Assembleia Nacional de Cabo Verde durante a sua visita a Cabinda. Como o tema mulher é para mim muito interessante, por ser mulher também, e também porque a minha dissertação de doutoramento é sobre liderança feminina no domínio da gestão organizacional (Organizational Development and Change, ODC), tema que escolhi para perceber porque não há muitas mulheres nos escalões mais altos de liderança, surgiu um interesse para mim muito grande de vir a este fórum e encontrar outras mulheres, aprender e partilhar conhecimento.
VA ─ Angola, assim como Cabo Verde, tem dado passos muito significativos para a participação da mulher no desenvolvimento. Quais os mais significativos?
SA ─ Em Angola, o nosso Presidente da República, João Lourenço, é uma pessoa que no seu mandato apostou nas mulheres porque percebe muito bem qual é o contributo que a mulher pode dar para a elaboração das políticas públicas, bem como a sua execução, tanto que a Assembleia Nacional é dirigida por uma mulher, a Dra. Carolina Serqueira. E não só. No legislativo, 38% dos deputados são mulheres e no executivo temos sete mulheres, que são ministras dos 24 departamentos que nós temos. Também temos uma boa parte de mulheres vice-governadoras. Quanto a governadoras, somos cinco. Além disso, a vice-presidência do partido que governa Angola é ocupada por uma mulher, assim como a vice-presidente da República é uma mulher. Portanto, nós em Angola já demos o passo de colocarmos as mulheres nos lugares decisivos.
VA ─ Que frutos nasceram já desta presença feminina nos cargos decisivos?
SA ─ Nós estamos a dar os passos. Primeiro, foi colocar estas mulheres, por mérito, em lugares de decisão, depois colocar outras mulheres nas estruturas intermédias para, a seguir, poderem ascender às altas estruturas. E nós termos um número de mulheres no pipeline para que nós possamos ter uma estrutura estável nas três áreas com a presença feminina. E isto porquê? Estudos já foram feitos na Europa, na América, em todos os lados, que mostram que a contribuição das mulheres é muito valiosa. Não é possível um país desenvolver-se sem que tenha a contribuição da mulher nos lugares de decisão, dentro daquilo que são as políticas públicas para o desenvolvimento porque a questão social é muito importante na estrutura de uma nação. Nós temos a questão social, a questão económica, a questão legislativa, mas é a questão social que pesa muito em situações que afetam diretamente a mulher. Por exemplo, a saúde materno-infantil, a educação, a agricultura de subsistência familiar, o comércio informal. Ou seja, há uma série de domínios em que são as mulheres que intervêm. Assim, nós temos que ter mulheres não só nesses lugares, mas, também, com formação, educação, e experiência, para que, depois, no futuro, vermos os resultados.
VA ─ De entre estes vários desafios que acabou de citar, qual deles precisa ser resolvido com urgência?
SA ─ Nós, em Angola, já estamos muito bem avançados, mas temos que continuar a fazer um trabalho de mudança da mentalidade, de se aceitar a mulher exercer função que outrora só o homem poderia exercer, mas esta é também uma questão interessante. Enquanto estive a fazer investigação para a minha dissertação, percebi, também por experiência própria, porque antes de ser governadora fui administradora municipal numa área rural, que muitas das vezes nós, as mulheres, pensamos que provavelmente ainda não estamos preparadas. Temos algum receio, e rejeitamos a ideia.
VA ─ Por que motivo?
SA ─ Mesmo quando a mulher é recomendada por alguém para um determinado, muitas vezes ela nega, provavelmente por um motivo cultural, ou devido a baixa autoestima. Talvez se questionam, dizendo, “mas eu sou mulher, será que eu posso fazer isso? Isto é trabalho dos homens”. Desde os tempos primórdios, houve esta separação de papéis. O papel da mulher, antigamente, era tomar conta dos filhos, do marido e da casa, enquanto o homem ia buscar os mantimentos. Há mulheres que não querem deixar este papel, mas há também mulheres que querem fazer as duas coisas, ou seja, ser dona de casa e ter uma carreira profissional fora de casa. Nos países mais industrializados, as mulheres tomam esta decisão, dizendo, “eu não vou ter filhos, nem me casar agora, porque primeiro tenho que progredir na minha carreira”. Em outras sociedades, as mulheres não sabem que é possível fazer estas escolhas, que podem fazer muito mais, contribuir mais. Mas nessas mesmas sociedades há aquelas que conseguem fazer um pouco de tudo e é de se tirar o chapéu a essas “supermulheres”, que conseguem desempenhar estes dois papéis e até fazer mais. Voltando à questão que me coloca, respondo que é uma questão de tempo, um processo. Já percebemos que é necessário o equilíbrio de género em todos os setores da sociedade. Agora, vamos esperar a consolidação para ver os resultados desta inclusão de género nas nossas comunidades também.
VA ─ Para uma mulher conseguir fazer carreira profissional e ainda cuidar da casa e família, não é fundamental ter uma rede de apoio, a começar pelo próprio marido/companheiro?
SA ─ Exatamente, ajuda bastante ter o apoio da família.
VA ─ Disse há pouco que convive com cabo-verdianos desde criança, mas é a sua primeira vez em Cabo Verde. O que sabe, de facto, sobre a realidade cabo-verdiana no que diz respeito aos direitos das mulheres, à equidade de género?
SA ─ Vejo nas notícias as mulheres parlamentares cabo-verdianas, elas servem de inspiração também para as outras. Estando agora no país, vejo indícios de desenvolvimento. Chamaram a minha atenção o saneamento básico, o comércio organizado, o esforço muito grande de desenvolvimento local, de políticas sociais e presumo que é resultado também do facto de existir no país equilíbrio de género nos órgãos decisivos e de algumas mulheres também executarem as políticas de acordo com os objetivos do próprio país.
VA ─ É por causa do 1º Fórum Mulher que está em Cabo Verde e esta nossa conversa está a acontecer na véspera (29 de maio). O que espera deste megaencontro de mulheres?
SA ─ Espero muita partilha de informação, sobretudo das mulheres mais experientes, que já passaram por vários cargos políticos, no governo, na religião, no desporto, seja onde for que elas tenham exercido a sua função. Espero também aumentar a minha network, conhecendo mais mulheres e as suas histórias e, sobretudo, aprender com as mais experientes, isso é muito importante.
VA ─ Que mensagem deixaria às suas “manas” cabo-verdianas?
SA ─ Eu mando um abraço e um beijo muito grande no coração de cada uma delas. Cabo Verde está a dar passos para o desenvolvimento e o notável é que as minhas manas cabo-verdianas – juristas, médicas, as que estão no aparelho judicial ou que estão na magistratura, todas elas que estão a exercer alguma função, sobretudo cargos de destaque – estão a participar e bem nesse processo. Os sinais são visíveis e espero que continuem assim a inspirar também mais outras mulheres. Cabo Verde começou há algum tempo, e agora está a colher os louros. Acredito também que em Angola daqui a mais um tempo, vamos começar a sentir o resultado desta política de equidade de género que começou há algum tempo e que está a dar os seus passos. Porque foi assim também na Suécia, na Finlândia, nos Estados Unidos da América.