O jornalista e escritor sueco Henrik Brandão Jönsson percorreu arquipélagos atlânticos para tentar compreender um dos sentimentos mais difíceis de definir ─ a saudade ─ e escreveu um livro sobre o tema em que Cabo Verde ocupa um lugar central. Nesta entrevista ao Voz do Archipelago, no dia em que apresenta a obra na cidade da Praia, Henrik Brandão Jönsson fala da descoberta de São Nicolau e de Mindelo, da saudade vivida nas comunidades cabo-verdianas da Nova Inglaterra (Estados Unidos da América), do impacto histórico da seleção nacional no Mundial de 2026 e de como o futebol ajudou a colocar Cabo Verde definitivamente no mapa do mundo.
Voz do Archipelago (VA) ─ O Capítulo 6 do seu livro “Saudade”, tem como título «O que é que realmente procuro nesta ilha?». Este título é uma pergunta que se faz a si mesmo? O que o levou a Cabo Verde — foi uma escolha planeada desde o início do livro, ou impôs-se a meio do processo?
Henrik Brandão Jönsson (HBJ) ─ O título não é uma pergunta que faço a mim mesmo, mas uma citação de Carlos Medina, que entrevisto no livro. Ele nasceu em Mindelo, emigrou para New Bedford e passou toda a vida com saudades da sua terra. No entanto, quando finalmente regressou a Mindelo, perguntou-se do que realmente sentia falta naquela ilha seca e fustigada pelo vento. A decisão de incluir Cabo Verde no livro foi planeada desde o início. Desde a primeira vez que visitei o país, em 1999, fiquei fascinado pela diáspora cabo-verdiana, sobretudo pela que se estabeleceu em Massachusetts e Rhode Island. Quando decidi escrever um livro sobre o conceito de saudade, sabia que Cabo Verde tinha de estar presente, porque considero que os cabo-verdianos são o povo que mais sente saudade no mundo. A saudade faz parte do vosso ADN.
VA ─ O título do seu livro é “Saudade – Cartografia de um Sentimento”. Qual foi a ilha (ou ilhas) que visitou em Cabo Verde, e por que essa escolha, entre as dez do arquipélago?
HBJ ─ Escolhi viajar para São Nicolau porque queria conhecer a localidade de Praia Branca, onde foi composta a morna mais famosa de Cabo Verde. Depois visitei também Mindelo, onde entrevistei os herdeiros de Armando Soares, autor de “Sodade”. Ainda tive tempo de passar pela Praia e jantar no meu restaurante favorito, “O Poeta”.
VA ─ Encontrou no género musical morna uma expressão da saudade diferente da que é expressa pelo Português europeu ou Brasileiro?
HBJ ─ Para mim, a morna cabo-verdiana é uma mistura do fado português com o samba brasileiro. É triste, mas também tem alegria. Por vezes sinto que nela existe mais da alegria de viver do Brasil do que da melancolia de Portugal.
VA ─ Cesária Évora é muitas vezes associada internacionalmente à “saudade” cabo-verdiana através da música. Esse imaginário correspondeu ao que encontrou no terreno, ou foi confrontado com uma realidade mais complexa?
HNJ ─ Cabo Verde é muito mais complexo do que muitos imaginam. No livro escrevo: “Cabo Verde é como nove crianças órfãs deixadas ao seu destino. As ilhas lutam pela sobrevivência no Atlântico. Cada ilha é diferente das outras. Lutam entre si como irmãos, mas permanecem unidas como uma família.” A saudade mais intensa encontrei-a em São Nicolau, no interior da ilha. Em Mindelo, infelizmente, ela já não é tão evidente. Mas a saudade cabo-verdiana mais forte que alguma vez senti foi em Brockton, Massachusetts. Era tão intensa que quase se podia tocar.
VA ─ O subtítulo da Parte III é “Cabo Verde — Nova Inglaterra”, traçando a rota migratória mais antiga e mais conhecida da diáspora cabo-verdiana, ligada à indústria baleeira do século XIX. Como reconstituiu essa ligação histórica enquanto viajava?
HBJ ─ A diáspora cabo-verdiana tem muito em comum com a açoriana. Ambas nasceram da caça à baleia. Nos Açores entrevistei antigos baleeiros que hoje trabalham como vigias de baleias. A história cabo-verdiana reconstruí-a visitando o famoso Museu da Baleia, em New Bedford.
VA ─ Visitou comunidades cabo-verdianas em estados como Massachusetts ou Rhode Island? Que diferenças encontrou entre gerações — entre quem emigrou e os seus descendentes nascidos já nos EUA?
HBJ ─ Quem nasceu em Cabo Verde e emigrou há muitos anos é quem sente mais saudades. Conserva as tradições e sente falta das ilhas. Já os filhos e os netos americanizaram-se. Muitos integraram-se muito bem nos Estados Unidos. Falam inglês na perfeição e já não dominam tão bem o crioulo nem o português.
VA ─ Como é que a saudade se transforma quando atravessa gerações e deixa de ser uma memória direta da ilha para se tornar uma herança contada por pais e avós?
HBJ ─ Curiosamente, pode tornar-se uma saudade ainda mais dolorosa, semelhante a uma dor fantasma. Nunca viveram nas ilhas, mas sentem falta delas na mesma. É uma saudade impossível de tocar. Talvez seja até a mais difícil de suportar, porque, na verdade, nem sequer se sabe exatamente do que se sente falta.
VA ─ Comparando Cabo Verde com os outros arquipélagos atlânticos que visitou para o livro — Açores e Madeira —, que especificidade encontrou na experiência cabo-verdiana da saudade?
HBJ ─ Acho que a saudade cabo-verdiana pesa mais. Sente-se mais. Ouve-se mais. Nos Açores, a saudade é silenciosa.
VA ─ Cobriu o Mundial como jornalista do Dagens Nyheter, da Suécia, na mesma altura em que o seu livro sobre a saudade está a chegar aos leitores. Sentiu alguma vez que estava a viver, ao vivo, exatamente aquilo que tinha escrito sobre a diáspora cabo-verdiana?
HBJ ─ Assisti, em Miami, ao histórico jogo da fase de grupos contra o Uruguai e senti a saudade ao vivo. Vi casais a chorar juntos. Era possível sentir a saudade no ar. E também a alegria quando uma das nações mais esquecidas do mundo surpreendeu toda a gente e terminou a fase de grupos invicta.
VA ─ Cabo Verde tem mais do triplo de pessoas na diáspora do que residentes no arquipélago. No Mundial, essa proporção tornou-se visível: jogadores nascidos ou criados fora das ilhas, com sete a jogar em clubes portugueses, vestiram a camisola nacional. Isto não é, de certa forma, a saudade a jogar à bola?
HBJ ─ Para esses jogadores, vestir a camisola de Cabo Verde foi uma forma de vencer a saudade. Cresceram e vivem noutros países, mas durante o Mundial representaram a terra dos seus pais e avós. Foi uma oportunidade de matar a saudade.
VA ─ No livro, fala da saudade como o sentimento que liga quem partiu a quem ficou. No Mundial, viu isso manifestar-se literalmente — torcida cabo-verdiana nos Estados Unidos, onde estão também as comunidades históricas que descreveu no capítulo sobre a rota até à Nova Inglaterra?
HBJ ─ Encontrei adeptos que cresceram em Boston e nunca tinham estado em Cabo Verde ao lado de pessoas que vivem nas ilhas. Foi bonito vê-los reunidos. E penso que também foi importante para os cabo-verdianos perceberem quantos compatriotas vivem no estrangeiro e são completamente apaixonados pela seleção nacional.
VA ─ Cabo Verde é apenas a segunda menor nação, depois da Islândia, a qualificar-se para um Mundial. Acha que esse “milagre”, como tem sido chamado na imprensa, reforça precisamente a tese central do livro — que a saudade nasce desta combinação de pequenez geográfica e grandeza emocional de um povo disperso pelo mundo?
HBJ ─ Os cabo-verdianos nos Estados Unidos sempre tiveram dificuldade em explicar de onde vêm. Muitos americanos pensavam que eram simplesmente afro-americanos. No livro entrevisto o proprietário do restaurante Cesária, em Dorchester, Boston. Antes, as pessoas achavam que ele era de Cape Cod. Agora entendem finalmente que vem de Cabo Verde. Este Mundial colocou esta orgulhosa nação insular no mapa.
“Saudade – Cartografia de um Sentimento” é apresentado hoje, 30 de junho, na livraria Nhô Eugénio, na Praia, numa conversa com a embaixadora da Suécia acreditado em Cabo Verde. No dia seguinte, 1 de julho, a apresentação do livro terá lugar em São Vicente, no Centro Cultural do Mindelo.