Quarta-feira, 13 Maio 2026

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“A dança tradicional representa as raízes e identidade de Cabo Verde” – Bety Fernandes

A dançarina e coreógrafa Bety Fernandes afirmou na terça-feira, 12, que as danças tradicionais representam as raízes, a memória e a identidade cultural do povo cabo-verdiano, e defende maior valorização, pesquisa e preservação destas manifestações artísticas nacionais.

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As declarações foram feitas durante uma masterclass sobre danças tradicionais de Cabo Verde, realizada no âmbito da quarta edição do Festival Kontornu, evento internacional de dança e artes performativas que decorre na cidade da Praia até ao próximo dia 16 de Maio.

Durante a formação, Bety Fernandes partilhou com os bailarinos nacionais e estrangeiros elementos ligados ao batuque, funaná, coladeira, mazurca, lundu e outras expressões culturais cabo-verdianas. A intenção é promover um espaço de troca artística e reflexão sobre a importância da dança tradicional na construção da identidade nacional.

“A dança tradicional é uma forma de mostrar quem nós somos. É através dela que contamos a nossa história, falamos da nossa cultura e mostramos as nossas raízes”, afirmou.

Segundo a coreógrafa, as manifestações tradicionais vão muito além dos movimentos corporais, estão ligadas à espiritualidade, aos rituais, à resistência cultural e às formas de comunicação utilizadas historicamente pelo povo cabo-verdiano. “Antes mesmo de termos espaço para falar livremente, o nosso corpo já falava por nós. O batuque, o funaná e outras danças tradicionais sempre foram formas de expressão, resistência e reivindicação”, sublinhou.

A artista explicou ainda que um dos objetivos da masterclass foi permitir que os participantes estrangeiros conhecessem a riqueza cultural cabo-verdiana através da dança, criando pontes entre diferentes estilos e linguagens artísticas.

Após a apresentação das bases das danças tradicionais, os bailarinos foram convidados a reinterpretar os movimentos de forma livre, misturando-os com técnicas de dança contemporânea, hip-hop, dança clássica e outras abordagens performativas. “Foi uma partilha. Mostrar a nossa dança tradicional e depois deixar cada corpo sentir e interpretar essa energia à sua maneira”, explicou.

Importância da investigação e documentação das danças tradicionais

Bety Fernandes destacou também a importância da investigação e documentação das danças tradicionais cabo-verdianas, alertando para a escassez de estudos escritos sobre vários ritmos e práticas culturais do país. “Durante muito tempo, muito do conhecimento foi transmitido oralmente. Ainda existem poucas referências concretas sobre algumas danças tradicionais, e por isso é fundamental pesquisar mais”, afirmou.

A coreógrafa defende que os bailarinos e investigadores culturais têm a responsabilidade de aprofundar o conhecimento sobre as origens, os significados e os rituais ligados às danças tradicionais, para garantir a sua preservação e correta transmissão às novas gerações.

Segundo explicou, compreender os elementos culturais presentes no batuque, na tabanca ou no funaná é essencial para que essas manifestações possam ser trabalhadas de forma consciente em palco e nos processos criativos contemporâneos. “Não basta reproduzir os movimentos. É preciso compreender a energia, o ritual e o significado que existem por trás da dança”, referiu.

A artista destacou ainda o poder universal da dança, considerando que o corpo consegue comunicar emoções e mensagens mesmo entre pessoas que não falam a mesma língua. “A dança quebra barreiras. O corpo comunica naturalmente e cria ligação entre as pessoas”, afirmou. Além de orientar a masterclass, Bety Fernandes integra também a equipa de produção do Festival Kontornu, iniciativa que considera fundamental para o crescimento da dança contemporânea e tradicional em Cabo Verde.

A coreógrafa apelou a um maior envolvimento da população, instituições públicas e parceiros privados no apoio ao festival, defendendo que Cabo Verde deve valorizar cada vez mais os eventos dedicados às artes performativas. “Precisamos abraçar o nosso festival de dança da mesma forma que abraçamos os grandes festivais de música e outras manifestações culturais. O Kontornu é um festival de Cabo Verde e merece crescer cada vez mais”, declarou.

A quarta edição do Festival Kontornu reúne cerca de 80 participantes provenientes de Portugal, Brasil, Grécia, Suíça, República Dominicana, Espanha, Senegal, França e Itália, transformando a ilha de Santiago num espaço de intercâmbio artístico e cultural.

A programação decorre em vários espaços culturais da capital cabo-verdiana, entre eles o Palácio da Cultura Ildo Lobo, o Centro Cultural Português, a Cidade Velha e a Rua Pedonal do Plateau. Além das masterclasses, o festival inclui espectáculos, performances urbanas, sessões de pitching e o tradicional Kontornu Dance Battle, atividade que encerra o evento no sábado, dia 16, em Tarrafal de Santiago.

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