Quase 300 milhões de pessoas falam a língua portuguesa em todos os continentes, mas o idioma é ainda tratado como secundário no palco global. Para mudar isso nasceu o CILPEM — Congresso Internacional de Língua Portuguesa e Migrações —, que se realiza nos dias 29 e 30 deste mês, na cidade de São Paulo, Brasil. À frente deste projeto inédito estão Igor Oliveira e Francisca Rodrigues, que, numa conversa a duas vozes com o Voz do Archipelago, falam do “soft power” lusófono que ainda não existe, das políticas públicas que faltam, e de um Brasil que acolhe o mundo, mas ainda não sabe muito bem como.
Voz do Archipelago (VA) – O que é este congresso e que importância tem a realização desta 1ª edição no momento que vivemos?
Igor Oliveira (IO) ─ Em 2008, na Faculdade Zumbi dos Palmares, eu, professor, e a professora Francisca, pró-Reitora, participamos de um projeto de acolhimento no idioma português de pessoas oriundas de outros países, ou seja, estrangeiros. A Faculdade Zumbi dos Palmares foi, por isso, uma das faculdades pioneiras nessas conexões internacionais e recebimento de pessoas de outros países. Esse trabalho se intensificou, em 2010, aquando do maremoto que afetou Port au Príncipe, no Haiti. Mas ao longo do período, ela foi perdendo força dentro da instituição, mas eu continuei fazendo um trabalho de língua portuguesa para além dos bastidores da faculdade, de forma muito pessoal.
De modo que, em 2019, passou de ser apenas um trabalho social para uma empresa, neste caso, uma escola de atendimento a estrangeiros. Já atendemos quase 10 mil estrangeiros no atendimento do idioma português brasileiro, obviamente, acerca da escrita e da oralidade, como língua de acolhimento, a gente está tendo muitos retornos positivos. Mas, a gente sempre foi incomodada com o quesito de que estamos fazendo algo, mas podemos fazer mais. E a forma de fazer mais é conectando pessoas, conectando grupos, conectando amigos ─ primeiro, segundo e terceiro setor ─ para dialogar de uma forma não única, mas de forma “gerencial”, vamos dizer assim.
Então, a ideia do Congresso vem ao encontro desse anseio de incômodo e essa situação de acharmos que podemos fazer mais, não só para o Brasil, mas toda a cadeia que hoje consome o idioma português, colocando isso como uma pauta de reflexão, e não apenas como um objeto de ensino de idioma. Associado a isso, a gente entende que o Brasil passou a ser uma referência mundial ainda maior nessa área, levando em consideração os acontecimentos políticos e económicos internacionais, e é o maior parceiro em fornecimento de insumos, mas também no acolhimento de pessoas. Nós nunca fomos tão buscados, seja para casa, seja para turismo, como hoje, no século XXI. E aí, nós não poderíamos deixar isso passar sem que refletíssemos sobre uma vez que o Brasil, como um país de língua portuguesa, está acolhendo o mundo, de que forma que esse acolhimento está sendo feito, de que forma que essas pessoas chegam até o Brasil. Esse é o primeiro ponto.
Segundo, a gente precisa já pensar em condições para esse acolhimento. Então, estamos partindo deste objeto, levando em consideração que o fator idioma, ou o fator comunicação, é o principal fator que conecta grupos e pessoas. Além disso, a gente entende que uma vez que nós passamos a ser essa referência mundial, e o principal player mundial, nós também precisamos falar do Brasil como o “capitaneador” de insumos, conhecimentos, estruturas, e que, talvez, se utopicamente a gente puder chamar todos os países da CPLP, para que a gente possa fazer uma revolução e colocar o idioma português também como principal idioma mundial, apesar de, nos bastidores, já ser a quinta língua mais falada no mundo, por quase 300 milhões de pessoas, mas a gente entende que o português ainda é uma língua coadjuvante.
A gente não quer brigar com ninguém, a gente não quer falar aos falantes dos outros idiomas que eles não têm serventia ou que eles não têm importância. Entendemos que qualquer tipo de representação idiomática, de comunicação, é extremamente importante, mas a gente quer falar de nós, pois, junto com a gramática latina, a gramática da língua portuguesa é, talvez, uma das gramáticas mais belíssimas do mundo, e mais diversa.
Francisca Rodrigues (FR) ─ É a primeira vez que se está unindo acadêmicos, decisores de políticas públicas e migrantes, para debater sobre o português como uma ponte de integração global. Então, nesse mundo de fluxo migratório recorde em que estamos atualmente, o tema é super atual mesmo. A gente não imaginava que estaria neste rebuliço todo. Eu acho que é urgente a gente posicionar o Brasil como um rubro lusófono mesmo, impulsionando as políticas inclusivas.
VA ─ Qual é o simbolismo de o congresso ir acontecer num espaço que leva o nome de uns grandes autores da língua portuguesa, a Biblioteca Amaro de Andrade?
FR – É verdade. A Biblioteca Mário de Andrade é um ícone paulistano, de preservação cultura e de acesso democrático ao saber, à literatura, ao livro, e esta é a essência também do congresso, que é acolhimento, diversidade. Então, eu acho que é o local ideal para a gente começar a discutindo esses assuntos.
VA ─ O congresso acontece em alusão ao Dia Internacional da Língua Portuguesa, celebrado a 5 de maio. Qual é o simbolismo de associar o congresso a esta data?
FR ─ O 5 de maio é um catalisador simbólico. Como o professor Igor falou, são quase 300 milhões de pessoas falando português.
IO ─ O Português, que é o português falado pela Teresa, é o português que chegou ao Brasil e que, depois se difundiu, se ramificou, juntando novos conceitos e adjetivos. No Brasil, a gente tem um português, mas a gente tem vários portugueses também, dependendo da região em que você está. Acho que Cabo Verde não é diferente, acho que Portugal não é diferente. Então, a gente não tem um único português, mas diversas formas de falá-lo.
Hoje, a gente está sendo suprimido, talvez, pelo digital. Tudo que o digital demonstra é o que esse grupo que está vindo hoje, que a gente pode chamar de alfabeta, consome. Mas eu vejo que, ao longo do tempo, e isso de uma forma muito rápida, o idioma, de fato, linguístico, estudado, analisado, está se perdendo um pouco pelo caminho, inclusive, nas nossas salas de aula, hoje, o ensino da língua portuguesa é abordado de uma forma muito mais coloquial do que estrutural. Então, o Congresso também surge para colocar um ponto de reflexão acerca disso. É importante dizer que a gente tinha em mente dois locais para realizar o congresso, sendo um deles o Museu da Língua Portuguesa, mas acabamos por escolher a Biblioteca Mário de Andrade, o principal ou mais antigo acervo de livros do Brasil, que fica em São Paulo.
VA ─ O que falta para a língua portuguesa consolidar o seu protagonismo como idioma mundial? A solução passará por uma estratégia baseada em soft power, como estão a fazer os sul-coreanos através dos K-dramas, da música e de outros elementos da sua cultura? Ou tem que se pensar em outras estratégias?
FR ─ A estratégia não deve passar só pela cultura. Precisamos de políticas, não só públicas, de inclusão em todos os países que falam a língua portuguesa, não só no Brasil. Lógico, o Brasil é o maior, é o carro-chefe, mas precisaria se unir com esses outros países. Também falta investimento, por exemplo em IA de tradução para português.
IO ─ Eu tenho duas filhas, que estão sempre a falar da banda sul-coreana BTS, que estará no Brasil em outubro. A cultura K-pop, como a Teresa mesma disse, com os seus doramas, que são as novelas coreanas, invadiu o mundo de uma forma até que surpreendente. Isso é absurdamente valorável, e a gente precisa estudar profundamente como os sul-coreanos fizeram isso. É uma transformação que também aconteceu com os latinos, na época do grupo Menudo, na época da Shakira, que invadiram o Brasill e muitos cantores brasileiros ainda hoje utilizam o idioma latino, o espanhol, assim as mesmas músicas são feitas em português e em espanhol. Mas, obviamente, eu acredito que o conceito soft power global é o nosso grande sub-tema e objetivo do CILPEM.
Hoje, nem pelos brasileiros o português é visto da forma que a gente quer ver, como uma língua de conhecimento, e de estudo, e de análise, uma língua importante, cultural. A gente tem no Brasil escolas de diversos idiomas, mas eu não conheço nenhuma escola de análise linguística do português. Nós temos a oportunidade de nos unir para empoderar de forma social, acadêmica, estratégica o português falado não apenas no Brasil, mas no mundo. Mas o Brasil, como a professora Francisca disse, talvez por ser o maior país de língua portuguesa, pode capitanear essa discussão e propor, obviamente, e esse é o nosso desejo, propor à CPLP essa possível mudança e, por que não, um possível grupo de estudo embrionário, que depois possa se disseminar para os demais países. A língua portuguesa é falada em todos os continentes, mas a gente não fala dela de forma estratégica, apenas utiliza ela como uma língua mundial, quase 300 milhões de pessoas falam esta língua.
VA ─ No Brasil, o português é usado como língua de acolhimento e há políticas específicas estruturadas dirigidas aos migrantes ou ainda falta instituir esse ensino?
IO- Sim, ainda falta-se instituir esse ensino. Desde 2022, no período pós-pandemia, ou ao longo da pandemia de Covid, o Brasil passou a ser um dos países mais procurados para acolhimento porque, por exemplo, em São Paulo, por um valor muito simbólico, você consegue se alimentar minimamente bem. E, além disso, o brasileiro auxilia muito. Mas eu desconheço uma política pública estruturada para as pessoas que aqui chegam.
FR – Eu vejo o português como língua de acolhimento, mas falta coordenação do Governo, e não metas de impacto, nem financiamento. Por exemplo, a CPLP poderia ter uma linha de financiamento em relação a isso, e o Brasil realmente ignora esta questão da língua. Ontem, estava a ler uma matéria que diz o ministério nosso abriu cursos de inglês gratuitamente para o país inteiro. Ou seja, muita gente não consegue estudar o português, mas o inglês, o próprio governo incentiva, ignorando os migrantes lusófonos e a gente mesmo.
IO – Por isso a discussão que vamos ter no congresso é extremamente importante, e estamos disponíveis para dialogar com os três poderes.
FR – Dentro do congresso, nós vamos reunir não só os académicos com o objetivo de se produzir algum estudo, mas estará também trazendo o Ministério da Justiça, advogados, Polícia Federal, para que possam também dar uma luz sobre a questão da emigração e contribuir para a implementação de políticas públicas de inclusão e acolhimento.
VA – Francisca Carvalho e Igor Oliveira, muito obrigada por esta conversa. Para quem quiser fazer parte desta reflexão, as inscrições para o CILPEM estão abertas em https://www.cilpem.com/