A secção literária do Voz do Archipelago “Entre o Real e o Sonho”estreou hoje ─ 5 de maio ─, data simbólica por ser o Dia da Língua Portuguesa, prometendo entreter os leitores com contos do escritor brasileiro Alex Sgreccia. Falámos com o autor, que nos conta porque aceitou o desafio de, quinzenalmente, partilhar estórias que o próprio classifica como um misto de realismo fantástico e histórias de personagens reais.
Voz do Archipelago (VA) – Como você avalia o desafio que lhe foi lançado de publicar contos no nosso jornal?
Alex Sgreccia (AS) – Fiquei muito contente com essa possibilidade. Tenho publicado no VA análises sobre temas políticos no cenário internacional, uma atividade que me agrada muito. A oportunidade que me foi dada de também publicar contos me entusiasmou. Acho que a ideia vem de encontro com o interesse do leitor, que quer ler algo além de notícias e que desperte sua imaginação.
VA – Como tem sido sua trajetória como escritor?
AS – Minha experiência começou quando tinha 17 anos. Escrevi um poema – Sonata ao bonzo suicida – que venceu o concurso literário da cidade onde eu frequentava o último ano do ensino médio. Continuei escrevendo poesias esporadicamente, mas nunca as publiquei. Estimulado por um amigo e fotógrafo, fiz a primeira incursão na literatura em 2011, ao publicar o livro Fotografia, o que será?
VA – E como evoluiu depois dessa primeira publicação?
AS – Passei sete anos escrevendo o primeiro romance, Escrevo porque te amo, lançado em 2020. Nos últimos anos, publiquei um pequeno romance, Diário inacabado do desejo (2023), e livros de contos: Lá onde vagam as estrelas (2021), Persona (2022) e Deserto Azul (2024). Estou terminando de escrever outro romance, O silêncio dos dias.
VA – O que distingue o conto do romance?
AS – O romance narra uma estória com enredo complexo, protagonizado por personagens bem construídos, cuja ação, sentimentos e reflexão prendem a atenção do leitor. O conto tem o desafio de contar uma estória interessante num texto curto, de poucas páginas. Há contos bem construídos de poucas linhas.
VA – Que tipo de conto será publicado na sua coluna?
AS – Nesta coluna do VA vamos publicar contos pequenos, próximos do realismo fantástico, que intriguem o leitor, e outros que narrem a estória de personagens que conheci ao longo da vida ou dos quais apenas ouvi falar. Através dessas estórias quero levar o leitor a uma viagem no tempo e a conhecer um pouco do meu país, o Brasil.
VA – Como é o seu processo de escrita? Escreve por disciplina, com horários fixos, ou apenas quando a inspiração surge?
AS – Não sigo uma disciplina para escrever com regularidade. Escrevo nas sobras de tempo, pois continuo trabalhando. Aproveito os momentos, o final do dia e os finais de semana. A partir de um fato concreto ou de um tema, vou burilando as ideias aos poucos, como um artesão das palavras. O objetivo do escritor é despertar a curiosidade do leitor, provocar sua reflexão sobre mundo em que vive e sobre si mesmo. Sigo esse caminho, sem pressa.
VA – Os seus contos e romances têm uma forte ligação com personagens reais e com a memória. De que forma a sua própria vida alimenta a sua ficção?
AS – Os romances e contos são sempre uma criação ficcional. Inspiram-se, na maioria das vezes, em personagens reais, puxados da memória, outras vezes não. No romance, o trabalho do escritor é conferir vida aos personagens, buscar compreender e traduzir o que pensam e sentem, interpretar as questões que deixam seu coração inquieto. O desafio é construir a trama que junta os personagens num enredo interessante. No conto, a narrativa curta se sobrepõe ao personagem, é ela que cativa ou não o leitor.
VA – O título do seu romance Escrevo porque te amo sugere que a escrita tem para si uma dimensão afetiva. Escrever é também uma forma de amar?
AS – O romance narra a estória de personagens inspirados em meus antepassados. Situa-se numa região do Brasil, o estado de Minas Gerais, no início dos anos quarenta do século passado. É um mundo dominado pelo coronelismo, em que as mulheres podem pouco. Este rincão do país resistia às transformações que vinham ocorrendo no Brasil com a revolução que levara à queda da Velha República, na década anterior. Este é o pano de fundo em que se desenvolve a história de Rebeca, o personagem principal. O título traduz, em certa medida, a relação afetiva do escritor com o personagem e sua história.
VA – Os seus contos prometem levar o leitor a conhecer um pouco do Brasil. Que Brasil é esse que quer mostrar — o das grandes cidades, do interior, das contradições sociais?
AS – Os contos narram pequenas histórias, a maioria delas passadas no Brasil. Falam de personagens ou de situações do interior, especialmente de Minas Gerais, mas também da cidade grande como São Paulo. Retratam a diversidade da sociedade brasileira. Outros contos abordam situações e contextos diferentes, por onde passei ou por onde minha imaginação voa.
VA – Sendo brasileiro e a publicar num jornal cabo-verdiano, que pontes culturais encontra entre os dois países?
AS – Temos mais proximidade do que geralmente se pensa. O Brasil tem uma população majoritariamente negra, cujos antepassados foram sequestrados em diferentes regiões da África e trazidos para cá como escravos. Ao longo de três séculos e meio, foram os trabalhadores que moveram a economia brasileira. Apesar da abolição da escravatura em 1888, a cidadania aos ex-escravos foi sistematicamente negada. Houve uma ética do silêncio na sociedade para acobertar essa história. Houve resistência e lutas, essa realidade mudou e precisa ainda mudar muito. A presença africana no Brasil pulsa em cada canto, em cada região, no mundo do trabalho, nas manifestações culturais. Precisamos estreitar laços. A literatura é uma das pontes. Publicar contos no VA pode contribuir para nos aproximar um pouco mais.
VA – O realismo fantástico é uma corrente muito associada à literatura latino-americana. Quais são as suas grandes influências literárias?
AS – A pergunta é muito abrangente para ser respondida sinteticamente. Fui introduzido aos grandes nomes da literatura brasileira na adolescência, como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Carlos Drumond, para mencionar apenas os mais icônicos entre tantos autores importantes. Na história do romance moderno, minhas principais referências foram Flaubert, Tolstói e Henry James. Na vertente latino-americana do realismo fantástico, as principais influências foram Gabriel Garcia Marques, Juan Rulfo e Jorge Luis Borges. Continuo lendo novos autores, especialmente autores negros e negras, mantenho os clássicos como leitura de cabeceira.
VA – Como define o realismo fantástico para um leitor que nunca contactou com esse género?
AS – O realismo fantástico inverte os parâmetros do mundo real. Cria personagens e situações inimagináveis que parecem e se tornam reais na narrativa que encanta, seduz e envolve o leitor. Cria um universo onírico, com base no mundo cotidiano, tornando real a fantasia.
VA – O que espera que os leitores do Voz do Archipélago retirem da leitura dos seus contos?
AS – Que se divirtam com a leitura. Que viajem com os personagens e situações. Que especulem ideias a partir das histórias narradas. Que compartilhem os contos com amigos e conhecidos. Que sonhem e se tornem contadores de histórias.