Ela o deixa beijar sua nuca, desvencilha-se dos braços fortes e pergunta: “Aceita um salgadinho? Eu mesma fiz”. Coloca uma bandeja na mesinha em frente ao sofá. “Aceita uma batida de maracujá ou prefere uma bebida mais forte?” “Aceito uma cachaça da boa, se tiver”. Entre um gole e outro, um salgadinho e outro, ele a puxa para junto de si, beija-a com sofreguidão. Treme, tomada por sensações desconhecidas, ao sentir as mãos fortes percorrendo seu corpo. Ele a trata com carinho, ao perceber que ainda é virgem
Os encontros se repetem ao longo da semana. Ele a leva a descobrir sensações inimagináveis. “Agora você está pronta, meu amor. No sábado, farei uma surpresa”. Não diz o que é, ela também não pergunta, preferindo entregar-se à fantasia. Ele chega, na noite esperada, acompanhado de um amigo, um marinheiro dinamarquês. Ela olha para Antônio, tentando disfarçar a surpresa. “Hoje é dia especial”, diz. Ela vacila, mas logo se entrega aos dois amores.
Sobe a serra em direção ao planalto paulista, mergulhada nas lembranças. Realizou sonhos e viveu momentos da mais delirante fantasia. Sabe que foi um divisor de águas. É outra mulher, conhece parte da vastidão do prazer, oceano incomensurável, mas tem que voltar à dura realidade de Santana, onde é vista, tida e confirmada como mulher recatada, de nome e reputação ilibados, sem ter cedido um milímetro à tentação da carne ou alimentado, por menor ou mais discreto gesto, a ousadia daqueles que a desejam, disfarçada ou despudoradamente.
Chega a São Paulo e, no mesmo dia, compra passagem para Aparecida do Norte, onde se redimirá da transgressão. Aluga um quarto na pensão barata, destinada a romeiros, e assume o ar contrito de quem vem em busca de consolo espiritual. Sai ao amanhecer em direção à Basílica Velha para se confessar. Sobe devagar e de joelhos os poucos degraus da escada da antiga construção barroca, simulando pesar e arrependimento. Decide comprar duas velas grossas, mas diante das lembranças que evocam, decide por apenas uma, fina e comprida. Deixa o local e se coloca na fila do confessionário.
Cobre o rosto com o véu de rendas acinzentadas, cor entre o branco imaculado que já não lhe pertence e o preto da austeridade que jamais terá, ajoelha-se e pede a bênção do confessor: “Padre me perdoe porque pequei.” “Está arrependida minha filha e disposta a não mais pecar?” “Sim padre, estou muito arrependida.” “Abre seu coração pois Deus é misericordioso.” Criando coragem, diz: “Padre, meus pecados são horríveis, os mais vergonhosos.” “A misericórdia de Deus é infinita.” Ela os revela, um pouco temerosa no início, para os despejar, em seguida, aos borbotões. Arregala os olhos e pergunta: “Fez tudo isso minha filha?” Em seguida, mal contendo a respiração, interroga: “Isto também?” Quase perdendo o fôlego, não consegue conter a exclamação: “Minha nossa!” Por fim, se recompondo, lembra-se de dizer: “Eu te absolvo de todos os pecados, minha filha.”
Volta regularmente a Santos, fora da temporada, para reencontrar Antônio, que aos poucos vai se tornando o amor de sua vida, compartilhado em períodos imprevisíveis e igualmente felizes com Christian, o marujo europeu. Aprendeu e aperfeiçoou, com os dois, quase toda a dissertação do amor. Foi deles a ideia de transformar o bangalô, na ponta da praia, numa casa de prazeres.
Ao descer do Jaguar cor de prata, esguia e elegante no conjunto de linho cor de palha, com o chapéu Paris de aba larga pendendo sobre os óculos escuros, Zilah causa admiração e desperta ciúme das antigas amigas, mulheres de peitos caídos, barrigas volumosas e ancas largas. Cumprimenta-as com um sorriso e meneio de cabeça, enquanto dirige-se à agência do banco para tratar de novas aplicações financeiras com o gerente. Seu sucesso continua intrigando a imaginação dos conterrâneos.