Terça-feira, 28 Julho 2026

Entre o Real e o Sonho

O ovo da serpente

O fim do dia estava perto. O sol fazia pouso atrás da Serra do Espinhaço que nem balão que pega fogo e não tem mais força pra ficar no ar. A mancha abóbora, margeada com fio de luz dourada, foi mudando de cor pra encarnado forte e tomando conta do horizonte. Diminuí o trote. Num carecia mais de pressa. O animal pedia descanso, depois de léguas de cavalgada, desde que deixamos pra trás Dores do Indaiá, lugarejo aonde tinha ido em missão de confiança. Segredo que não posso revelar. Do acertado e acordado, depende o futuro de disputa de gente grande que divide os Sertões em muitas guerras.

Parei na cacimba para abastecer de água. O animal agradeceu. Sorveu o quanto queria e necessitava, sem pressa. Depois de noite bem dormida, trotamos boa tirada, chegando mais perto da serra. A barreira de rocha assemelha deveras um espinhaço, fincado no chão pela mão de Deus e castigado pelo tempo. Até bater nesse paredão, a terra é plana e seca.Na banda esquerda de quem caminha em direção à serra, fica a passagem que separa o Cerrado e o Sertão. O marco é pau seco de jacarandá de Minas.

Apesar de morto, tem tamanho e forma que botam respeito e despertam receio. Dizem uns que morreu por obra de fogo que tropeiro esqueceu aceso. Dizem outros que o fogo foi posto pela mão daquele que não ouso pronunciar o nome. Não quero despertar a besta do sono ligeiro que prende ela neste pedaço perdido de mundo. De repente, o animal relinchou assustado. Assustado também fiquei. Levei a mão no peito e apertei a medalha de Senhora dos Aflitos. Entonce avistei, enrodilhado no cocuruto de cupim abandonado, urutu de cruz na testa. Mau agouro, pensei. Dois sinais do Maligno no mesmo lugar não podiam ser de boa sorte. Benzi a testa e o peito com o sinal da cruz.

Olhei pro céu em busca de coragem. Voando em círculo e procurando caça, avistei o carcará. Carcará, gavião de bico encurvado e garras afiadas. O bicho aprumou a cabeça pra baixo e despencou em queda livre, até fazer voo rasante sobre o urutu. Fincou as garras no espinhaço da cobra e levantou voo. Maravilha de ver!  Pousou no galho seco do jacarandá e deu a primeira bicada, arrancando pedaço de carne e gordura. Levou picada morteira no peito. O bicho, que morto não estava, caiu lá de riba. Bateu no chão e não mexeu. O gavião voou sem firmeza. Por pouco tempo, imaginei.

Foi tudo muito rápido. Aproximei, com receio e curiosidade. Vi o que nunca queria ter visto. Imagem gravada na memória que nem fotografia no papel. A pele escamada da criatura tinha chaga aberta. O ovo da serpente estava exposto, tinha sido rompido. O Maligno estava solto. Que o Senhor Jesus me proteja! Foi o que pensei mais de uma vez, vendo formar pé de vento. O redemoinho foi ficando mais forte, levantando poeira. Virou funil de nuvem escura, rodopiando que nem pião gigante, sugando o que encontrava pela frente. O céu fechou. Relampeou e trovejou. O vento forte não deixava andar pra frente ou de lado, nem animal, nem eu.

O jeito foi procurar abrigo atrás de pé de pau. Amarrei o animal no tronco, sentei no chão, botei a cabeça entre os joelhos, cobri a nuca com os braços cruzados. Que Deus me guarde, agora e sempre, supliquei. Foi quando ouvi o ronco e vi a figura da Besta Fera. Ronco mais forte que dúzia de trovão. Deu pinote e chicoteou o rabo, soltando fogo pelas ventas. Tô perdido! Nem com a ajuda de Jesus e de Sua Santa Mãe escapo das garras do Maldito, pensei apavorado. O sangue queimava nas veias que nem brasa acesa. Suei frio.

Foi quando apareceu São Jorge, montado em cavalo branco e reluzindo escudo e lança. Fechei os olhos com mais medo ainda da peleja que estava pra acontecer. Não sei quanto tempo durou, nem ao certo o que aconteceu. O sol já andava alto quando tive coragem pra abrir, de vez, os olhos e força pra levantar e continuar a cavalgada. A paz reinava na terra novamente. Era dia calmo, de céu azul e vento fraco. Quem teria intercedido por mim? Senhora dos Aflitos, Mãe de Deus? De coisa sagrada nunca mais duvido. E o amigo querido, vai acreditar na minha história?

Tags

Partilhar esta notícia

×