A respiração está cada vez mais ofegante. Acelera o movimento da mão, a pressão sanguínea dilata as artérias do pescoço, o coração explode e os músculos se contorcem no espaço exíguo de madeira. Segura o uivo de prazer na garganta, contém a ejaculação no lenço. Com a voz ofegante, de quem esteve perto do paraíso, a abençoa, fazendo o sinal da cruz: “Eu te absolvo de todos os pecados.”
É assim que cuida do rebanho de gazelas. Muitas continuarão arredias e escaparão de suas artimanhas. Outras não resistirão à abordagem cada vez mais ousada. Deixarão segurar a mão por mais algum tempo, sem se desvencilhar daquela que a aperta com insistência. Algumas responderão com o delicado movimento dos dedos, a primeira carícia. Com o tempo, deixarão o toque aparentemente casual no seio ser desejado com anseio.
Mas o caminho é tortuoso e nem sempre recompensado, de gestos sutis, mensagens de duplo sentido, movimentos dissimulados, olhares convidativos, encontros apressados na penumbra das capelas; de horas marcadas no escritório da casa paroquial, retoque em peças de paramento dourado na sacristia, arranjo de flores nos altares e rezas solitárias. É dissimulado em cerimônias solenes incensadas por turíbulos lavrados em prata, alimentado por abraços cada vez mais envolventes e entrega relutante em hora e local inesperado, o porão escuro da casa ou o leito ainda morno de uma manhã de outono.
Na escassez de cabritinhas, fugidias ao cerco tão bem arquitetado em noites de insônia e prazer solitário, decide investir numa das filhas solteiras e encalhadas do coronel. Filha de Maria de longa data, de frequência assídua a rezas, novenas, missas e procissões, oferece certa resistência no olhar surpreso e ar de espanto, quase de indignação, no enrubescer das faces, na respiração ofegante e piscar nervoso das pálpebras. Percebe, em sinais nem sempre contraditórios, a tensão se instalando no espírito em conflito, o coração sendo constrangido pela dúvida, a alma sendo esgarçada por pensamentos impuros e arrependimentos imediatos.
Os dias de enlevo e paixão, de entrega em horas e locais combinados, de corpos entrelaçados, são substituídos pelo pesadelo, ao constatar que está grávida. Ele reage com preocupação e exige o mais rigoroso sigilo. Não resiste ao tormento e acaba revelando o segredo à irmã, confidente de todas as horas. A irmã não segura a informação diante do olhar severo e desconfiado da tia.
Aterrorizada, sem saber por onde começar a contar a desgraça, com as mãos contorcendo-se uma sobre a outra e olhando os próprios pés deformados pela artrose, comunica ao irmão o pecado infame da sobrinha. Golpeado pela desonra, permanece em silêncio. Os olhos esbugalhados, os lábios trêmulos e as mãos que não encontram amparo sinalizam o desnorteio de ideias desencontradas e sentimentos irascíveis de natureza primitiva. “Ele vai pagar”, grunhe.
Mantém a desonrada incomunicável em cárcere privado na sede da fazenda, enquanto decide onde será feito o aborto. Humilhado, não aparece mais em público. Reúne o grupo mais restrito de asseclas e ordena a punição. Se o criminoso não fosse membro da Igreja, o esfolaria vivo. Deve desocupar imediatamente a casa paroquial e jamais botar os pés novamente em Santana. Que o Senhor Bispo entenda de vez quem dá ordem nessa corrutela! Diante de seu poder e mando, Sua Excelência pode pouco.
O acontecido vira o comentário do dia, semanas seguidas. “Podia imaginar uma coisa dessas”, pergunta uma recatada senhora à amiga, durante a novena. Responde ainda incrédula: “Parecia tão devota, quem suspeitaria?” “Ouvi dizer que limparam a casa paroquial, carregaram tudo: móveis, talheres, cristais, louças, lençóis, quadros, candelabros de prata, toalhas de linho finamente bordadas, paramentos de fios de ouro, até imagens valiosas de santos. Tudo comprado com dinheiro de nossas doações”.