Terça-feira, 30 Junho 2026

Entre o Real e o Sonho

Deserto Azul

Desde pequeno, aprendi apartar o certo do errado. O que podia fazer e o que não devia, por obra de costume ou por força de lei. Lei de Deus e lei dos homens. Deus não fala como os homens. Suas palavras são que nem língua de fogo. Foi desses modos que gravou na pedra os Dez Mandamentos, para servir de guia para humanidade separar o bem do mal. Em Seu Santo Nome, essa lei que governa as gentes deve ser honrada e respeitada. Desde que o mundo é mundo, assim é e assim será. É o que se diz.

No Sertão não é obra do governo. Vale a lei de quem tem poder e mando. Em terra de coronel, a lei é ele e sua vontade.

Comanda bando de jagunço para impor respeito e obediência. Diferente da lei divina, que não muda e ninguém desafia, poder de coronel depende de habilidade para fazer aliança, de favor concedido a clientela, de quantidade de arma e de influência que movimenta. 

Lei dos homens, quem faz?

Com uma mão ameaça, com a outra agrada. Deus é misericordioso com quem se arrepende e confessa. Pecado é perdoado por ofício da Igreja. Dependendo da grandeza ou da quantidade de mandamentos violados, a penitência varia de muitos rosários a um Pai Nosso com Ave Maria. Assim aprendi, assim observei cegamente, até pouco tempo. Desrespeito à lei de coronel se paga com outro tipo de castigo. Trabalhador pode perder a terra onde mora de favor. Jagunço pode ameaçar e bater. Pai de família pode ter a filha-donzela deflorada ou a mulher desonrada. O cabra pode ser esfolado, antes de ter a goela aberta no gume da faca.

Assuntando bem, juntando pinguela com ribanceira, serventia da lei, por obra do divino ou do humano, é dizer quem manda e quem obedece nesse mundo. Assim, a vida pouco muda, quem manda continua no comando, quem tem juízo continua obedecendo. Tem escapatória para essa prisão que virou o mundo? Tem como mudar o rumo do destino? O Sertão terá lugar para viver, conforme lei ditada pelo coração? Foi perdido nessas ideias que avistei no horizonte a figura com quem ia ter a mais estranha das conversas.

Estava parado na encruzilhada, debaixo de pé de pau. Árvore minguada pela secura do chão, tinha pouca sombra. Nos galhos retorcidos, por teimosia de continuar vivendo, a figura tinha pendurado quinquilharias: vidros vazios, de formas e cores diferentes, chifre e pé seco de bode, gaiola com azulão entristecido, cabaças de diferentes tamanhos, tocos de vela, viola quebrada, fitas desbotadas pendendo de trapo esfarrapado de estandarte.

A figura me encarou com mistério. Sorriso miúdo em boca pequena e enrugada aliviou um pouco meu desassossego. Fez sinal para me aproximar. “Se aconchegue”, apontou para pedra que servia de banco, coberta com pedaço de couro gasto de cabra. “O Sertão é grande e pequeno. O destino pode ser um, pode ser outro. Esperava por sua pessoa. “Como é que pode?” pensei. Nunca vi antes a figura, nem sei seu nome. Nunca dela ninguém me falou. Será que sabia mesmo que eu ia passar por essas bandas?  continuei proseando em pensamento. “Não carece tanta preocupação. Por aqui sempre se passa, mais dia, menos dia”, sibilou quase não movendo os lábios. “Meu prazer é satisfazer sua vontade”, continuou com voz mais firme e macia.

“Vontade tenho poucas, pois o que comanda a vida é destino”. Observei o rebate das minhas palavras no relampejo dos olhos da figura, curto e forte que nem faísca. Seria satisfação de ver o peixe mordendo a isca? Não tinha certeza. Disfarçou, como se não tivesse interesse. “Vontade pode mais que destino, desde que se queira”. Não esperou resposta minha. Abriu a mucuta, de onde tirou espelho quebrado. “Vontade pode ditar o destino”. Apontou com dedo fino e enrugado para o pedaço sujo de espelho. A voz era suave e morna. A ponta da língua escura lambeu o lábio ressecado.

O embaçado no espelho foi sumindo que nem onda que bate e recua em areia de praia. Então, vi paisagem que habitava meus sonhos. Terra de mata cerrada, cortada por rio. Corredeiras e água de remanso onde amigo banhava mais eu. Roça de milho no ponto de ser colhido e bando barulhento de araras descansando na copa de pé de jequitibá. Tentei tocar com a mão para ver se o que via era verdadeiro. Como num susto, a imagem sumiu. Onde ele aprendeu essa magia, interroguei em silêncio. Pode ter me iludido, fazendo imaginar que via o que estava só no meu pensamento, continuei especulando, querendo botar um pouco de ordem nas ideias que começavam a ficar desencontradas.

“Para querer e poder, tem que confiar”, disse com sorriso mais intenso nos olhos encovados do que no rosto magro e encarquilhado. Estendeu a mão fina e segurou a minha com firmeza de laço bem dado com corda de couro trançado. O sangue gelou nas veias enquanto ele me conduzia em voo sereno, até pousar na única nuvenzinha que tinha no céu. “Tudo o que vê, até onde a vista alcança, e pra além desse limite, poderá ser teu”. Lá estava o Sertão, como nunca tinha visto: terra seca emendando com pastagem, veredas com nascentes de água, margeadas com palmeiras de buriti; mato cerrado acompanhando o curso do Urucuia, pássaros voando em bando na Serra das Araras.

“Poderá ser o mais poderoso de todos os coronéis. Tua vontade será obedecida pelos homens e pela natureza”, apontou pra baixo com a palma da mão. Então o que vi, tenho receio de contar, não é coisa desse mundo. Terra seca e mato cerrado foram sendo encobertos pela água. O Sertão virou mar. Onde antes tinha gente, roça, vila e traçado de caminho era só movimento das águas. O sopro de vontade poderosa arranhava na superfície molhada trilhas sem começo e sem destino. “Você não viu tudo ainda”. As águas foram baixando, sorvidas pela sede sem fim da terra. Deixaram uma camada grossa de lodo que o calor ressecou. Do que era mar sem fim restou uma crosta, com ranhuras feitas pelo tempo. O Sertão tinha virado imenso deserto azul.

Fotografia: Roberto Nardini

Tags

Partilhar esta notícia

×