Terça-feira, 18 Agosto 2026

Entre o Real e o Sonho

Medusa Sertaneja

Valentias no Sertão são muitas. De quem corta carne de jagunço na ponta afiada de faca. De quem enfrenta onça com bacamarte, depois que cachorro acua. De quem amansa e doma cavalo que nunca foi montado. De quem atravessa rio, sem medo de correnteza. Assim se diz, assim se espera.

Valentia maior é enfrentar o medo, a assombração da morte, a malícia do demo. Esconjuro. Não tem amuleto ou reza brava pra espantar as coisas do oculto, pra proteger do maldito e do malfeito, pra fechar o corpo de bala encomendada. Esconjuro mais uma vez e sempre. Desconfio e não tenho certeza.

Paro diante da figura. Arrepio. Será medo? É respeito ou reverência? Hesito e tremo. Sinto calafrio. Existe estranheza maior? Tem formosura que encanta, tem mistério que amedronta. Benzo e rezo. É sagrado ou será profano?

Aproximo e toco. Tem secura de pele curtida pelo sol e pelo tempo. Quem armou essa cabeleira de Medusa sertaneja, que esconde a cara e protege o cangote, feita de cobra, mão seca, lagartixa, bico de mutum do brejo, pena de cotinga pintada, ossada de piranha, cabeça de urutu? E se o bicho acorda do sono que prende e amarra o corpo no tronco da árvore? Esconjuro de novo. Saio de banda e dou meia volta. E outra.

É devaneio da imaginação? Não parece. Assemelha mais obra feita e maturada, de nascença estranha, em sono ligeiro nesta curva do mundo. Poderá ser o que vejo, ou não ser o que enxergo, quem sabe?

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