Valentia maior é enfrentar o medo, a assombração da morte, a malícia do demo. Esconjuro. Não tem amuleto ou reza brava pra espantar as coisas do oculto, pra proteger do maldito e do malfeito, pra fechar o corpo de bala encomendada. Esconjuro mais uma vez e sempre. Desconfio e não tenho certeza.
Paro diante da figura. Arrepio. Será medo? É respeito ou reverência? Hesito e tremo. Sinto calafrio. Existe estranheza maior? Tem formosura que encanta, tem mistério que amedronta. Benzo e rezo. É sagrado ou será profano?
Aproximo e toco. Tem secura de pele curtida pelo sol e pelo tempo. Quem armou essa cabeleira de Medusa sertaneja, que esconde a cara e protege o cangote, feita de cobra, mão seca, lagartixa, bico de mutum do brejo, pena de cotinga pintada, ossada de piranha, cabeça de urutu? E se o bicho acorda do sono que prende e amarra o corpo no tronco da árvore? Esconjuro de novo. Saio de banda e dou meia volta. E outra.
É devaneio da imaginação? Não parece. Assemelha mais obra feita e maturada, de nascença estranha, em sono ligeiro nesta curva do mundo. Poderá ser o que vejo, ou não ser o que enxergo, quem sabe?