Terça-feira, 01 Setembro 2026

Entre o Real e o Sonho

Norma

Prepara-se para ir ao trabalh0. Não foi difícil conseguir emprego na multinacional como auxiliar de escritório, um cargo abaixo ao das secretárias. Bastou abrir o sorriso e conversar descontraidamente com o chefe do departamento. Dá uma retocada na maquiagem, passa os dedos nas sobrancelhas levemente arqueadas, alisa o cabelo e faz um rabo de cavalo. Olha-se novamente no espelho. Os traços são delicados e o rosto perfeito. Os olhos negros reluzem por um instante.

Entra no quarto para se despedir do marido enfermo. “Toma os remédios. Isso, levanta um pouco o corpo e toma a água devagar, assim. Logo Dona Sebastiana chega para cuidar de você. Deixei a sopa preparada. Talvez tenha que chegar mais tarde hoje, o serviço está acumulado na seção”. Beija-o no rosto, esforça-se para conter com um sorriso o nojo daquele bafo cálido e hircoso, não presta muita atenção nas palavras enroladas de quem está perdendo o controle da fala e nem se incomoda mais com seu olhar esgazeado, sobrecarregado de cobre, que prenuncia a morte.

Desce as escadas sujas do prédio de três andares, passa pela pesada porta de ferro enferrujado. Caminha apressada pelas ruas do bairro, sem olhar para os lados, ouvindo o som ritmado do salto do sapato na calçada. Passa a mão no ventre onde já são visíveis os sinais da gravidez. Chega ao ponto de ônibus e aguarda até passar um menos apinhado.

As horas são intermináveis e o trabalho repetitivo, enfadonho. Já usou todas os subterfúgios para interromper o que está fazendo para ir ao banheiro ou tomar um cafezinho. Ainda tem que datilografar documentos, abrir novas pastas, organizar o arquivo. Começa a sentir certa dificuldade para manipular as pastas nas gavetas inferiores. Faz de conta que não o vê passar pela seção para conversar com o coordenador. É o sinal de que pode esperá-lo no local combinado, depois do expediente.

Despede-se dos colegas e corre para o elevador. Caminha alguns quarteirões pela avenida, misturando-se ao fluxo de mulheres bem vestidas e homens engravatados que acabam de deixar o local de trabalho. As luzes dos postes de metal escuro nas calçadas e nos canteiros centrais da avenida são acesas, amalgamando-se com o lusco fusco impreciso em que a luz do dia cede vagarosamente ao mistério da noite. Sente-se mais segura nesse universo de sombras. Nele, não há lugar para o remorso nem para a culpa.

Entra no bar e escolhe uma mesa mais discreta, ao fundo.  Acende o cigarro e pede um copo d’água. Olha para as mãos e percebe que precisa retocar o esmalte das unhas.  Passados alguns minutos, ele chega sorrindo, enquanto caminha em sua direção. “Vai pedir alguma coisa para tomar?”, pergunta depois do beijo no rosto. “Acho que não, temos coisas mais interessantes para fazer”, diz enquanto esboça um ar cínico. “Deixa que eu pago a conta”. Saem abraçados em direção ao carro estacionado um pouco mais adiante numa travessa.

“Onde vamos dessa vez, a um motel?” “Penso que não”, ele responde. “Nada mais estimulante do que transar na escuridão do parque, no meio de putas e travestis. Este mundo também nos pertence”.  Estaciona o carro debaixo de uma árvore, apaga as luzes e rebaixa o encosto do banco. Ele a abraça, puxando-a para junto de si. Ela se entrega ao ritual de corpos se contorcendo no espaço exíguo e desconfortável. O beijo prolongado e o estremecer de músculos e nervos esgota-se em lágrimas em suas entranhas.

Ele a deixa a dois quarteirões de casa, na rua de cima. Sobe apressada e cabisbaixa as escadas, abre a porta da sala em penumbra, vai direto para o banheiro. Deixa a água do chuveiro escorrer lenta e prazerosamente pelo corpo.  Enxuga rapidamente os cabelos, veste os pijamas. Mira-se no espelho e sente a luz do olhar sendo tragada pela escuridão das sombras em redemoinho. Não sabe mais quem é.  Entra no quarto e percebe que ele continua acordado. Deita-se ao seu lado, beija seu rosto e diz: “Boa noite, meu amor!”

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