Todas as histórias do meu projeto Stória pa mininus foram traduzidas para crioulo cabo-verdiano por mim — um ser humano. Isto inclui os 10 livros com contos conhecidos em todo o mundo. E também os 8 contos de autores polacos publicados no meu livro “Stórias di nha infansia”. Estas histórias não foram simplesmente traduzidas palavra por palavra a partir de outra versão. Foram adaptadas tendo em conta a realidade cultural do meu público-alvo. Os nomes, os animais, as plantas, os instrumentos musicais e outros elementos foram adaptados para corresponderem àqueles que existem realmente em Cabo Verde.E só depois de eu própria trabalhar cada um dos textos é que estes passaram por outra etapa: foram verificados por um falante nativo, um professor de crioulo ou um linguista com formação universitária.
Foi desta forma que pude assinar estas obras com o meu próprio nome e assumir a responsabilidade pela sua qualidade. Depois vieram os audiolivros. Podia ter colocado os textos já preparados num gerador de text-to-speech e ter as gravações prontas em poucos minutos? Claro que podia. Fiz isso? Claro que não. Gostariam de ouvir algo que soa como uma mistura de português do Brasil com espanhol e acreditar que estão a ouvir crioulo cabo-verdiano? Eu nunca enganaria os meus leitores e ouvintes dessa forma.
Muitas das pessoas que utilizam estes recursos nunca ouviram crioulo cabo-verdiano antes. Estão precisamente a aprender a língua através destes materiais. Como poderia eu induzi-las em erro? Por isso, organizei um casting online. Recebi muitas candidaturas e, juntamente com a minha equipa, selecionei 10 mulheres para gravarem os audiolivros. Todas são falantes nativas. Vêm de diferentes ilhas do arquipélago. Cada uma tem a sua própria pronúncia e a sua própria forma de falar. O resultado é, por isso, diversificado — mas verdadeiro. Autêntico. Credível. É assim que as mulheres falam realmente em Cabo Verde. Não é assim que um gerador de text-to-speech “acha” que o crioulo cabo-verdiano deve soar.
Depois vieram os videolivros. Uma combinação de imagem, texto e áudio. Poderia a IA ter feito isso? Claro que sim. Mas, neste caso, teria demorado mais tempo a corrigir tudo o que a IA faria do que a fazê-lo eu própria. Mais uma vez, um ser humano. A IA ajudou, sim — mas apenas numa pequena parte do processo. Converteu os meus ficheiros de texto para os formatos adequados, facilitando a criação das legendas. E aí terminou, essencialmente, o seu papel. Olhem para o resultado final. As legendas aparecem perfeitamente sincronizadas com o texto que está a ser lido. As ilustrações mudam exatamente no mesmo momento em que mudam as páginas dos livros. Esse nível de precisão é importante.
Este ano estou também a trabalhar nas edições bilingues, e é aqui que a IA se tornou muito mais útil. Traduzir qualquer coisa para crioulo cabo-verdiano através de IA continua a não ser uma opção viável se queremos obter um resultado fiável. Os textos apresentam demasiados erros. Mas traduzir para línguas que a IA teve muito mais tempo, dados e recursos para aprender já produz resultados bastante melhores. Melhores — mas nunca perfeitos. É por isso que todos os textos passam por várias etapas de verificação humana. Falantes nativos estão envolvidos no processo. Nas línguas que eu própria falo, faço primeiro uma verificação: O texto foi bem traduzido? Existem erros ou alterações de significado? A ortografia está correta e é consistente? A pontuação está correta?
Depois, os textos seguem para especialistas — linguistas e falantes nativos — que verificam a versão na língua de destino. Nem sempre conhecem crioulo cabo-verdiano, por isso o trabalho deles concentra-se na verificação da qualidade e correção da língua de destino. E depois volto a verificar tudo para garantir que as alterações introduzidas não alteraram o significado do texto original. Por isso, sim, o processo demora tempo. E sim, envolve muitas pessoas. Humanos. Vale a pena?
Claro que vale! Porque é assim que se conseguem materiais de elevada qualidade. E há outra coisa que é muito importante para mim: ninguém que participa neste projeto é anónimo. Os nomes das pessoas envolvidas aparecem nos materiais como um selo de qualidade. Tenho orgulho de poder ver nos meus audiolivros algo como: “voz de [nome]”, em vez de “Voice generated by AI”. E ainda, dentro dos meus livros, poder encontrar “Texto verificado por [nome]”, em vez de “Text generated by AI”.
A IA pode tornar algumas coisas mais rápidas. Mas mais rápido não significa automaticamente melhor. E quando estamos a criar materiais para crianças, para pessoas que estão a aprender uma língua e para pessoas que confiam em nós para lhes proporcionar uma representação autêntica dessa língua, acredito que a responsabilidade humana continua a ser fundamental.
Por isso… Humano vs. IA? Talvez a pergunta mais interessante não seja se a IA consegue fazer alguma coisa. Muitas vezes, consegue. A verdadeira pergunta é: Deverá fazê-lo? E, quando o faz — quem verifica o resultado?