Quinta-feira, 15 Outubro 2026

Elas no Archipelago

Karolina Abramowicz: Às vezes, é preciso guardar um sonho

Em 2004, fui a Portugal ao abrigo do programa Erasmus. Decidi ficar numa residência universitária e tive a sorte de viver num complexo onde moravam muitos estudantes estrangeiros. A maioria vinha de países africanos de língua oficial portuguesa. Foi ali que Cabo Verde entrou na minha vida.

Naquela altura, eu ainda não sabia que aquela experiência haveria de ficar comigo durante muitos anos. Não sabia sequer que, muito mais tarde, acabaria por aprender crioulo cabo-verdiano, traduzir livros infantis para essa língua e criar um projecto à volta deles.

Na época, era simplesmente uma estudante estrangeira a descobrir um mundo novo. Havia festas, música, comida e muitas pessoas de diferentes países. Foi aí que provei a cachupa pela primeira vez. Foi aí que dancei passada pela primeira vez. E funaná. Foi aí que ouvi os cabo-verdianos a cantar pela primeira vez. Não conhecia ainda a palavra morabeza, nem sabia explicar o que significava. Mas, de alguma maneira, já a sentia.

Gostava de estar naquelas festas. Sentia-me bem entre aquelas pessoas. Havia qualquer coisa naquela música, naquela forma de estar, naquela energia, que me fazia sentir que aquele mundo também podia ser um pouco meu. Naquela época, eu ainda não falava português, muito menos crioulo. Por isso, não era fácil entender as letras das músicas. Mas descobri rapidamente que não precisava de compreender cada palavra para sentir a música. Com o tempo, comecei a pedir aos meus amigos que me explicassem as letras. Muitas vezes, explicavam-me em português e isso permitiu-me começar a fazer algumas ligações entre as duas línguas.

Sem me aperceber, comecei a entender as relações entre o crioulo e o português. E, à medida que o meu português melhorava, também se tornava mais fácil reconhecer palavras e compreender aquilo que ouvia em crioulo. Até que, a certa altura, pensei: quero aprender esta língua. Só havia um problema. Em 2004, o único curso de crioulo cabo-verdiano que consegui encontrar era presencial, em Lisboa. Eu vivia e estudava em Braga. Para ir às aulas, teria de fazer uma viagem de três ou quatro horas para cada lado. Para uma aula de uma ou duas horas por semana, era simplesmente impossível. E foi assim que o meu primeiro plano para aprender crioulo ficou adiado.

Não desisti dele. Mas também não sabia se algum dia conseguiria concretizá-lo. Quando voltei  para a Polónia, continuei a procurar materiais. Procurava livros, textos, páginas na internet, qualquer coisa que me pudesse ajudar a aprender. Naquela época, havia muito pouco disponível online. Encontrava informações dispersas, poucos materiais e quase nenhum recurso pensado para alguém que estivesse a aprender esta língua. Mas continuei. Ainda hoje tenho o meu caderno daquela época, cheio de notas da minha aprendizagem autodidacta. Não foi assim que aprendi a falar crioulo, mas aquele trabalho não foi inútil. Graças a ele, fui construindo uma base que me permitia entender cada vez melhor a música.

Depois chegou a pandemia. De repente, uma grande parte da nossa vida passou para a internet. E eu pensei novamente no crioulo. Voltei a procurar cursos. Desta vez, tive mais sorte. Aquele mesmo curso que, dezoito anos antes, só existia presencialmente em Lisboa estava agora disponível online. Eu continuava a viver na Polónia, mas já podia, finalmente, assistir às aulas em Lisboa sem sair de casa. Fiquei entusiasmadíssima. Só que o entusiasmo foi diminuindo à medida que as aulas avançavam. Percebi que aquele curso não era o mais adequado para mim e para a forma como eu aprendia. Podia ter parado ali. Mas pensei numa coisa muito simples: se aquele curso tinha chegado à internet, talvez outros também tivessem chegado.

Por isso, continuei à procura. Escrevi para diferentes pessoas e instituições. Entre elas, contactei o Centro Cultural de Cabo Verde em Lisboa, a perguntar se me poderiam indicar alguém que ensinasse crioulo. Foi assim que encontrei a minha futura professora, Ana Josefa Cardoso. E tive muita sorte. Ana Josefa revelou-se uma professora extraordinária. Tinha uma forma muito flexível de ensinar, prestava atenção às minhas necessidades e adaptava os materiais e o ritmo das aulas àquilo que eu conseguia e queria fazer.

Começámos a estudar juntas no final do verão de 2022. Uma hora por semana. No início, falávamos sobretudo português. Depois, pouco a pouco, havia cada vez mais crioulo nas nossas conversas e cada vez menos português. Alguns meses depois, conseguimos finalmente encontrar-nos pessoalmente durante uma curta viagem minha a Lisboa.

Ao longo desse primeiro ano de aprendizagem, fui percebendo que já conseguia entender cada vez mais e comunicar com muito mais facilidade. Ainda estava longe de ser uma falante avançada, mas já tinha chegado a um ponto em que sentia que podia dar o passo seguinte. E esse passo seguinte era ler livros em crioulo. Só havia um pequeno problema: havia muito poucos. Foi precisamente aí que a minha aprendizagem tomou um rumo inesperado.

Como queria continuar a aprender e, ao mesmo tempo, queria ter histórias para ler em crioulo, comecei a traduzir contos infantis. A primeira tradução demorou-me várias semanas. As seguintes foram ficando progressivamente mais rápidas. Precisavam de menos correções. Eu reconhecia mais estruturas, encontrava mais facilmente as palavras certas e começava a sentir que já não estava apenas a estudar a língua, estava realmente a usá-la.

E foi assim que uma coisa levou à outra. A vontade de aprender levou-me a procurar materiais. A falta de materiais levou-me a criá-los. E a criação desses materiais ensinou-me ainda mais. Até que, a certa altura, senti que estava preparada para fazer aquilo que tinha imaginado durante tanto tempo. Ir a Cabo Verde.

Desde o início, tinha uma condição para essa viagem. Não queria chegar a Cabo Verde apenas como uma turista que comunica em português ou inglês. Queria poder falar com as pessoas na sua própria língua, mesmo que ainda não a dominasse perfeitamente. Por isso, disse a mim própria que só iria quando soubesse crioulo. E cumpri essa promessa.

A viagem que durante tanto tempo parecia distante tornou-se realidade.  Hoje, quando penso naquela estudante de 2004, vejo alguém que não fazia ideia de quanto tempo algumas coisas podem levar. Na altura, não tinha condições para fazer aquele curso em Lisboa. Então guardei o sonho.  Não o deitei fora. Guardei-o numa gaveta.

E, muitos anos depois, quando as circunstâncias mudaram, voltei a abri-la. Talvez esta seja uma das coisas que aprendi com esta história: nem tudo aquilo que não conseguimos fazer agora precisa de ser abandonado. Às vezes, simplesmente ainda não chegou o momento certo. E também aprendi que não há uma idade certa para começar a aprender uma língua. Não há uma idade certa para voltar a um sonho. E a distância também não tem necessariamente de ser uma barreira.

Em 2004, eu vivia em Braga e o curso que queria frequentar estava em Lisboa. Em 2022, continuava a viver na Polónia, mas Lisboa já podia chegar até mim através de um computador.  O mundo tinha mudado.  E eu também.  Por isso, quando alguém me diz que gostaria de aprender uma língua, começar um projecto ou fazer alguma coisa que tem adiado há anos, penso muitas vezes naquela gaveta.

Nem todos os sonhos precisam de ser realizados imediatamente.  Alguns precisam de tempo.  Alguns precisam que o mundo mude um pouco.  Alguns precisam que nós mudemos primeiro.  Mas isso não significa que tenhamos de os esquecer. Às vezes, basta guardá-los.E, um dia, voltar a abri-los.

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