Quinta-feira, 29 Outubro 2026

Elas no Archipelago

Karolina Abramowicz: Três ilhas em nove dias

Quando comecei a preparar a minha primeira viagem a Cabo Verde, não sabia se estava a preparar a primeira de muitas ou a primeira e última. Por isso, decidi fazer aquilo que, olhando para trás, parece completamente absurdo: tentar ver e fazer tudo o que fosse possível numa única viagem de nove dias.

Durante vários meses, fui construindo o plano ao pormenor. Horários de voos, barcos, deslocações, escolas, encontros, apresentações, lugares que queria conhecer. Queria aproveitar cada minuto. Se só tivesse uma oportunidade para conhecer Cabo Verde, queria regressar a casa com a sensação de que tinha realmente estado lá.Cheguei à Praia a 9 de março de 2024. O meu primeiro momento em Cabo Verde foi passado com duas polacas. Talvez não haja melhor maneira de começar uma viagem tão longe de casa do que encontrar, logo à chegada, duas pessoas que nos fazem sentir por uns instantes que estamos entre os nossos.

Com Emilia Wojciechowska já me tinha encontrado pessoalmente alguns meses antes, na Polónia. Durante os meses que antecederam a viagem, foi uma das pessoas que mais me ajudou a preparar tudo. Conhecia bem as possibilidades e, sobretudo, as limitações logísticas de viajar entre as ilhas. Dominika Swolkien, por outro lado, conheci pessoalmente naquela noite pela primeira vez. Até então, tínhamos falado apenas através da internet. Jantamos no Quintal da Música e depois acabámos a beber uns copos no Seven, na Quebra Canela. Foi uma noite que me fez sentir em casa. Na manhã seguinte, tinha um voo muito cedo para Fogo.

Fogo

No aeroporto, já estava à minha espera o Lúcio Barros, o meu motorista em Fogo. Tinha comigo um plano bastante ambicioso para aquele dia: dar a volta à ilha. Fogo surpreendeu-me. Parecia-me muito maior do que tinha imaginado. E também muito mais montanhosa. As subidas, descidas, curvas e contracurvas foram um verdadeiro teste ao meu estômago, mas, de alguma maneira, consegui sobreviver sem grandes consequências.

E valeu a pena. O vulcão é impressionante. A paisagem é lindíssima. E o vinho de Chã das Caldeiras, bebido ali mesmo, aos pés do vulcão, parece-me ainda hoje uma das melhores maneiras de o provar. A minha viagem não era apenas uma viagem turística.  Eu tinha comigo uma mala cheia de livros e um segundo objectivo muito claro: levar a Stória pa Mininus até às crianças e às escolas de Cabo Verde. Entre Chã das Caldeiras e Mosteiros, numa estrada estreita e sinuosa pelas montanhas, fizemos mais uma paragem, desta vez para encontrar o José Alberto Andrade. Tínhamos combinado encontrar-nos ali para lhe entregar livros destinados a quatro escolas.

Logo no primeiro dia, consegui encontrar-me com o diretor da escola de Santa Filomena, José Ribeiro, e entregar livros para a biblioteca escolar. Como tinha pouco tempo em Fogo, não era possível visitar pessoalmente todas as escolas. Por isso, fiquei muito agradecida por algumas pessoas terem sido suficientemente flexíveis para se encontrarem comigo ao domingo, permitindo-me deixar os livros para que fossem entregues nas escolas.

Na segunda-feira, antes do voo de regresso à Praia, ainda consegui fazer duas apresentações em escolas primárias de São Filipe: a Escola Pedro Cardoso e a Escola Cobom. Fui recebida de uma forma que ainda hoje recordo com muito carinho. Pelas equipas pedagógicas, pelas direcções das escolas – obrigada, Leida Alves e Carlos Canuto – e, sobretudo, pelas crianças. Estavam curiosas. Queriam saber mais. E, para muitas delas, aqueles eram os primeiros livros que tinham nas mãos escritos na sua língua materna. Algumas aceitaram imediatamente o desafio de ler em voz alta, diante dos colegas. Confesso que fiquei impressionada com a coragem delas.

E percebi ali uma coisa que viria a repetir-se muitas vezes nas minhas viagens seguintes: as crianças cabo-verdianas são extremamente curiosas e gostam de se envolver quando lhes damos a oportunidade de ler na sua própria língua. Para mim, aqueles primeiros encontros foram muito mais do que apresentações de um projeto. Foram uma confirmação de que aquilo que estava a fazer fazia sentido. Ainda nesse dia, voltei à Praia. Mal cheguei ao hotel, tomei um duche rápido, peguei novamente as minhas coisas e fui para a escola de Lavadouro. Era a terceira apresentação do dia. Desta vez, em vez de algumas dezenas de crianças, tinha diante de mim mais de 200. Confesso que, por alguns segundos, fiquei um pouco assustada. Não sabia muito bem como iria conseguir gerir uma sala tão cheia.

Mas a organização da escola e o apoio da equipa fizeram toda a diferença. Obrigada, Analina Rocha. A apresentação correu muito bem. As perguntas foram muitas e, sobretudo, muito interessantes. E depois aconteceu uma coisa que não estava a esperar. Quando algumas das crianças me encontravam na rua, corriam na minha direcção a gritar “tia!” e vinham abraçar-me.Foi uma recepção que não estava à espera de ter. E que nunca esqueci. Um dia que não devia ser de trabalho

Na terça-feira, eu tinha decidido que seria finalmente turista. O plano era simples: passar o dia a conhecer Santiago com o Edmilson Sousa, descobrir os seus cantos e recantos e, durante algumas horas, esquecer livros, escolas, apresentações e reuniões. Só que há um problema quando se viaja por Cabo Verde com uma mala cheia de livros. É muito difícil ser apenas turista. Pouco mais de uma hora depois de sairmos da Praia, já estávamos a fazer a primeira paragem: a escola de Chã de Tanque. O professor de inglês, Eliseu Lopes Tavares, tinha-nos convidado a passar por lá. A ideia inicial era apenas deixar alguns livros. Ficámos. Apresentámos o projecto às crianças. E, mais uma vez, a pequena paragem transformou-se num encontro.

Seguimos depois em direção ao Tarrafal. A meio do caminho, recebi um telefonema: “Será que podias encontrar-te com alguns alunos do liceu?” Porque não? O projeto não era propriamente dirigido a essa faixa etária. Os livros que traduzi são sobretudo para crianças mais pequenas. Mas havia uma razão para aquele encontro fazer sentido: na escola, o crioulo começa a ser estudado formalmente a partir do 10.º ano. Por isso, em vez de falar apenas sobre os livros, achei mais interessante conversar com os alunos sobre a língua, a aprendizagem e a relação que têm com o crioulo. O encontro foi organizado pelo professor de inglês Nelson Santos e pelo professor de crioulo Loisito Tavares Sousa.

Falámos. Conversámos. E acabámos a dançar funaná. Foi uma forma bastante cabo-verdiana de terminar uma conversa. Só depois disso consegui finalmente voltar ao meu plano original e passar a segunda metade do dia simplesmente a conhecer Santiago.

São Vicente e o plano que durou dez minutos. Na quarta-feira de manhã, apanhei o avião para São Vicente. Desta vez, a ilha pareceu-me pequena. Com o motorista, conseguimos percorrê-la em cerca de cinco horas, fazendo várias paragens pelo caminho para apreciar as paisagens e diferentes lugares da ilha. À tarde, ainda tive tempo para conhecer Mindelo. Depois da dimensão da Praia, pareceu-me uma cidade muito mais pequena e fácil de percorrer. Em poucas horas, consegui andar pelas ruas, conhecer diferentes zonas e absorver um pouco da atmosfera da cidade.

Para o dia seguinte tinha preparado aquilo que, na minha cabeça, seria um plano perfeito. Ia a Santo Antão. De manhã, apanhava o barco, passava o dia na ilha, fazia a volta que tinha planeado, regressava no barco da tarde, jantava em São Vicente e apanhava o avião para a Praia à noite. Tudo calculado ao minuto. Só havia um pequeno problema. A companhia aérea alterou o meu voo. Na Europa, quando um voo muda de horário, muitas vezes é atrasado. Nesse caso, até seria perfeito. Mas o meu voo foi antecipado. E bastante. O novo horário tornou impossível fazer aquilo que tinha planeado em Santo Antão.

Tive então duas opções: não ir ou ir, mesmo que por muito pouco tempo. Escolhi a segunda. Apanhei o barco, cheguei a Santo Antão, saí, pus os pés na ilha e voltei a entrar no mesmo barco. Dez minutos. Foi tudo o que consegui ficar. Para algumas pessoas, talvez pareça uma loucura atravessar o mar para ficar dez minutos numa ilha sem sequer sair do porto. Para mim, naquele momento, fazia sentido. O meu plano era ir a Santo Antão. E eu fui. O resto era secundário. Felizmente, nos anos seguintes tive oportunidade de voltar a Santo Antão e conhecer aquilo que naquela primeira viagem não consegui ver.

Naquele dia, porém, ainda consegui regressar a São Vicente a tempo de almoçar tranquilamente com a Eliane Semedo e com o Aires Semedo, co-autor do dicionário português-crioulo que, entre outras fontes, utilizei durante o meu trabalho de tradução. À Eliane entreguei também livros para a biblioteca da Universidade de Cabo Verde, no campus do Mindelo. E, antes de apanhar o avião para a Praia, ainda conseguimos passar pela praia de São Pedro. Mais uma vez, tudo encaixado.

A sexta-feira que parecia impossível

A sexta-feira foi, sem dúvida, o dia mais intenso de toda a viagem. E talvez aquele que mais me mostrou a diferença entre aquilo a que estava habituada na Europa e a forma como as coisas podem acontecer em Cabo Verde. Começámos muito cedo, com uma ida à rádio. No programa Café Central, com o Carlos Santos, falei sobre a Stória pa Mininus e sobre a apresentação que teria lugar nesse mesmo dia na Biblioteca Nacional. Obrigada pelo convite, Carlos. Assim que saímos da rádio, fomos buscar o resto da equipa e começámos a viagem.

Primeira paragem: Flamengos

Para mim, aquela escola tinha um significado especial. Foi ali que estudou a minha professora de crioulo, Ana Josefa Cardoso, antes de se mudar para Portugal. Conhecer a escola onde ela tinha estudado era uma das coisas que queria muito fazer na minha primeira viagem a Cabo Verde. O encontro foi organizado pelo professor Augusto Gonçalves, que tinha participado no projecto-piloto de ensino bilíngue naquela escola, e pelo delegado do Ministério da Educação, Francisco Semedo. No ano seguinte, graças ao contacto que estabeleci com o Francisco Semedo, conseguimos fazer chegar os livros a todas as escolas do município de São Miguel.

A apresentação tinha sido cuidadosamente preparada. Tínhamos computador, projetor e tudo o que era necessário para mostrar às crianças as ilustrações dos livros. Só não tínhamos previsto uma coisa. Não havia electricidade. Flamengos recebeu-nos sem luz. Mas, naquele momento, percebi mais uma vez que nem tudo precisa de correr como planeado. Tinha os livros comigo. E os livros tinham imagens, cores e histórias. Por isso, em vez de mostrar as páginas num ecrã, mostrámo-las directamente às crianças. E elas ficaram encantadas. Muitas já conheciam aquelas histórias em português. Agora podiam encontrá-las na sua própria língua.

Depois seguimos para Chã da Silva. Ali, o encontro era um pouco diferente. A Emilia já tinha estado anteriormente na escola, na turma do professor Miqueias Fernandes, e tinha gravado três alunos a recitar algumas das histórias que eu tinha traduzido. Naquele dia, mostrámos essas gravações aos restantes alunos. Alguns estavam a ouvir aquelas histórias pela primeira vez. Outros já as conheciam. Mas todos reagiram com entusiasmo. Deixámos também os livros na escola, disponíveis para todos os alunos. Depois seguimos para o liceu de Salineiros, dirigido por Quédi Barbosa Brandão. Nesse dia celebrava-se, com algum atraso, o Dia da Língua Materna. A ideia era aproveitar a minha presença para juntar a celebração às actividades dedicadas ao crioulo. Havia teatro, leitura e poesia

Eu não consegui ficar durante todo o programa, mas tive oportunidade de assistir à representação de duas histórias que tinha traduzido. Foi uma experiência especial. Até então, eu tinha visto crianças lerem os meus livros. Ali, vi-as interpretar as histórias. Já não era apenas uma criança a ler um texto. Eram várias crianças a representar personagens, a dizer diálogos, a interpretar. E o resultado estava muito bem conseguido.

A literatura tinha ganho outra dimensão

No final do dia, regressámos à Praia para o último compromisso: uma apresentação aberta na Biblioteca Nacional. Desta vez, não era uma atividade apenas para uma escola. Podia aparecer qualquer pessoa. E apareceram muitas. Havia professores, pais, crianças, pessoas interessadas em literatura em crioulo e pessoas que simplesmente queriam perceber melhor o projeto. O professor de português Ricardino Rocha trouxe um grupo de alunos do liceu Domingos Ramos. Também apareceram pais com crianças mais pequenas. Tive ainda convidados especiais: Alice Moreira, Manuel da Luz Gonçalves e Dominika Swolkien.

Ao longo de todo o dia, Marciano Moreira acompanhou-nos e ajudou a explicar às diferentes audiências algumas das diferenças entre o alfabeto português e o alfabeto cabo-verdiano. Depois da apresentação, surgiram muitas conversas. Perguntas. Opiniões. Discussões. Foi um daqueles momentos em que percebi que o projeto já não era apenas uma coisa que eu tinha começado sozinha. Havia outras pessoas a envolverem-se nele. E havia pessoas que queriam falar sobre a língua, sobre os livros e sobre a possibilidade de ler em crioulo. Quando finalmente cheguei ao hotel, só queria jantar e dormir. Mais nada.

O último dia

No sábado, praticamente o meu último dia em Cabo Verde, não tinha planeado nada. Depois de uma semana tão intensa, nem sabia se teria energia ou vontade de fazer alguma coisa. Tinha. Comecei o dia na Sucupira, onde conheci a Yara, do Senegal. Tornamo-nos amigas e, até hoje, continuo a procurá-la quando volto a Cabo Verde – e até faço compras com ela à distância, a partir da Europa. Passei também pela Biblioteca Nacional. Desta vez, não para entregar livros nem para apresentar o projeto.

Fui comprar livros para mim. Queria levar comigo um pouco mais de crioulo para casa. Consegui encontrar dois volumes de Na Boka Noti, de Tom Varela. Pesavam bastante. Mas não me arrependi nem por um segundo. Depois deixei as compras no hotel e saí para caminhar. Passei pela Prainha e pela Quebra Kanela, aproveitei algumas horas de praia e, à noite, jantei com a Dominika. No domingo, despedi-me de Cabo Verde. Ao meio-dia, estava no avião de regresso a Portugal. No dia seguinte, seguiria para a Polónia.

Tinha passado nove dias no país. Tinha estado em Santiago, Fogo e São Vicente. Tinha posto os pés em Santo Antão durante dez minutos. Tinha visitado escolas, falado com professores, conhecido crianças, apresentado livros, ido à rádio, participado numa celebração da língua materna, conhecido pessoas, dançado funaná, visto praias, atravessado ilhas e passado demasiado tempo dentro de carros, aviões e barcos. Tinha tentado fazer tudo. E, quando estava no aeroporto da Praia à espera do voo, percebi uma coisa. Eu não estava triste por estar a ir embora. Estava tranquila porque tinha a certeza de que voltaria. Aquela não tinha sido a minha última viagem a Cabo Verde. Tinha sido a primeira.

Depois da primeira vez

Desde então, volto a Cabo Verde todos os anos. Às vezes uma vez, outras vezes duas.  E, curiosamente, os meus planos mudaram. Já não tento conhecer o maior número possível de ilhas em poucos dias. Já não preciso de preencher cada hora do dia. Quero ter tempo. Tempo para comer com calma. Para conversar. Para conhecer pessoas novas. Para voltar a lugares onde já estive. Para descobrir aqueles que ainda não conheço. Para estar numa ilha sem pensar imediatamente em como chegar à próxima.

E, sobretudo, quero aproveitar Cabo Verde de uma maneira diferente. A primeira viagem ensinou-me que é possível fazer muito em nove dias. As viagens seguintes ensinaram-me que não é preciso fazer tudo. A cada regresso, descubro qualquer coisa nova. Aprendo mais sobre as ilhas, sobre as pessoas, sobre a cultura e, inevitavelmente, sobre a língua que me trouxe até aqui. O meu crioulo está cada vez melhor. É-me mais fácil compreender pessoas que falam variantes de outras ilhas. E o círculo de amigos cabo-verdianos que fui criando ao longo destes anos continua a crescer. Por isso, quando penso naquela primeira viagem, não penso apenas nas três ilhas que consegui conhecer em nove dias.

Penso sobretudo no momento em que percebi que nove dias não chegavam. E talvez essa seja a melhor coisa que uma primeira viagem pode fazer: deixar-nos com vontade de voltar.

 

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