Sendo o PR o representante da Nação, é positivo que todas as pessoas que sintam o chamamento para essa missão e que se encontrem devidamente preparadas para representar uma Nação tão gloriosa como a cabo-verdiana, se apresentem, por si, ao Povo. Por isso a candidatura presidencial é pessoal e não partidária. É a foto da pessoa que aparece no boletim de voto e não o símbolo do partido.
Para além disso, num tempo em que vemos cada vez menos interesse na participação no ato eleitoral, ter um bom número de candidatos, pessoas que já demonstraram competência no exercício de funções públicas e que querem muito continuar a servir o país, aumenta as opções de escolha do eleitorado e dinamiza a sua participação no ato eleitoral. E esta ideia parece-me muito mais válida em Cabo Verde num momento em que as pessoas dizem estar cansadas do bipartidarismo.
As discussões políticas são sempre centradas nos dois maiores partidos. Ora, se da área de um dos grandes aparecerem candidatos diferentes, o debate tenderá a ir para além da filiação partidária. Não será apenas um debate entre projetos de sociedade radicalmente opostos ( centrados nos dois maiores partidos políticos), mas um debate assente em formas de exercício de um cargo que cada vez se mostra mais essencial para o bom funcionamento das instituições democráticas e equilíbrio dos poderes. Sendo as duas candidatas figuras bastante conhecidas , o confronto entre si e com outros candidatos, designadamente com o atual PR, criará um maior interesse e mobilizará mais o eleitorado.
Não desconsidero o argumento contra candidaturas múltiplas da mesma área política que defende que em vez de mobilizar esta situação pode afastar eleitores pois estes , podem-se convencer que esta divisão conduzirá a uma dispersão de votos e pensará que o seu candidato preferido (mesmo sendo bom) não tem hipóteses reais de chegar à segunda volta, pode considerar o voto “desperdiçado” e optar pela abstenção. É um risco, mas considerando que nós gostamos de uma boa disputa, e agora que comprovamos que somos bons a lutar contra improváveis, mais energia temos para nos envolver em pleitos nos quais depositamos a nossa vontade de ganhar.
Há um elemento fundamental e , ele também importante, neste teste democrático que nos é apresentado: capacidade de nos enfrentarmos sem nos tornarmos inimigos. A disputa acesa na primeira volta não pode destruir a necessária união dos eleitores da mesma área política em volta do(a) candidato(a) que passar à segunda volta.
Aqui, sim, os candidatos devem assumir linhas vermelhas intransponíveis. Nada de insultos pessoais que impossibilitem o perdão público. O foco da campanha de cada um deve ser o seu percurso próprio, as realizações alcançadas, a sua visão do exercício do cargo a que se candidatam. Importante que a estratégia de cada um tenha em vista que vai precisar dos apoios do ora seu adversário na 2ª volta. Isto implica disciplinar com muito rigor as equipas de campanha e as redes de comunicação digital. Nada de destruir o carácter e a imagem do adversário. Além disso, cada um dos candidatos deve ter sempre uma linha aberta direta de comunicação pessoal , preservando o bom relacionamento e permitindo o imediato pedido de desculpa nos casos em que a linha vermelha tenha sido inadvertidamente passada. É um desafio, mas um desafio que dá vontade de assumir!
No atual quadro político, a escolha do(a) próximo(a) Chefe de Estado terá um impacto real e direto na nossa vida quotidiana e na preservação do valores e princípios consagrados da Constituição Democrática que ora nos rege. Ter já duas mulheres cujo percurso de vida as capacita perfeitamente para assumirem o cargo de PR é um privilégio que o país há muito ansiava. Seria uma pena desperdiçar esta oportunidade de termos uma campanha dinâmica , centrada nas ideias dos candidatos e não nas cores partidárias.
No dia em que celebramos a Mulher Africana, celebremos também as vitórias que este país tem tido no percurso da igualdade e equidade de género.