Quinta-feira, 11 Junho 2026

A análise de Alex Sgreccia

Relações Estados Unidos e Brasil: entre tarifas, terrorismo e geopolítica

Duas questões chamaram a atenção na relação do governo Trump com o Brasil na última quinzena, com impacto no tabuleiro geopolítico regional. A primeira foi a retomada da política tarifária. A segunda foi o reconhecimento de organizações criminosas presentes no território brasileiro como organizações terroristas. Foram duas tarifas: de 25% exclusivamente a produtos brasileiros e de 12,5% abrangendo, além do Brasil, outros 59 países, acusados de falha em impedir o comércio de mercadorias associadas ao trabalho forçado. Há muito se vem questionando a eficácia de medidas protecionistas para dinamizar a indústria estadunidense, promessa de campanha do presidente Trump. Não haverá migração em massa de indústrias taxadas para os Estados Unidos, particularmente para as “cinturões de ferrugem”, como são chamadas as regiões que sofreram forte processo de desindustrialização a partir dos anos oitenta.

A nova divisão internacional do trabalho criada com o colapso do fordismo deslocou a produção industrial para o continente asiático e criou novas cadeias produtivas, envolvendo países em diferentes continentes. Isso não se desmonta com a aplicação de tarifas. O que tem ocorrido, em resposta às medidas protecionistas, tem sido a busca de novos mercados e a celebração de acordos comerciais envolvendo blocos de países, como o acordo União Europeia-Mercosul.

Outra medida que vem sendo adotada é a transação comercial com moedas locais, prática crescente entre países do BRICS+. O resultado, não calculado pelo governo Trump, tem sido maior independência em relação ao mercado dos Estados Unidos e o enfraquecimento do dólar como moeda de troca internacional. No caso brasileiro, a imposição de tarifas teve objetivos políticos, além do combate a práticas comerciais consideradas “desleais”. A medida foi adotada poucos dias depois do pré-candidato da extrema-direita, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ter se encontrado com Trump na Casa Branca. A visita ocorreu no momento em que o eventual candidato se via envolvido num dos maiores escândalos financeiros do país.

Os resultados do encontro de Flávio Bolsonaro com representantes da ala mais radical do governo estadunidense, o vice-presidente J.V. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio, mostraram que a visita foi além do propósito de lançar uma cortina de fumaça aos reveses sofridos no cenário nacional. O pleito para enquadrar o PCC-Primeiro Comando da Capital e o CV-Comando Vermelho como organizações terroristas foi atendido.

O governo Lula avalia a medida   como um retrocesso no enfrentamento ao crime organizado.  A iniciativa pode provocar prejuízos à cooperação policial, à economia e à soberania do País.  Para os EUA, trata-se de segurança nacional, discurso usado para legitimar a intervenção em países da América Latina e Caribe, mantê-los em sua área de influência e combater a crescente presença chinesa na região. O propósito foi enunciado com todas as letras no encontro com lideranças políticas de direita, patrocinado pelo governo Trump, ao lançado o projeto Escudo das Américas.

Para analistas, a proposta de derrotar carteis do crime organizado com o uso da força militar já se provou desastrosa, sendo um equívoco em relação à forma como as facções criminosas operam hoje. Desmontar esse sistema exige mais cooperação internacional em inteligência, integração de dados financeiros e logísticos, além de ações coordenadas para desestruturar as redes que alimentam o crime internacional.  Esta tem sido a linha defendida pelo governo Lula.

Se o propósito do governo Trump fosse o combate efetivo ao crime organizado, estaria conduzindo a investigação e desmonte da rede existente em seu território de lavagem de dinheiro e de vendas de armas ao crime organizado atuando no Brasil. Provavelmente, a iniciativa revelaria como interesses dos criminosos estão imbricados com os interesses de políticos da extrema-direita que se posam de defensores da segurança.

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