A nova divisão internacional do trabalho criada com o colapso do fordismo deslocou a produção industrial para o continente asiático e criou novas cadeias produtivas, envolvendo países em diferentes continentes. Isso não se desmonta com a aplicação de tarifas. O que tem ocorrido, em resposta às medidas protecionistas, tem sido a busca de novos mercados e a celebração de acordos comerciais envolvendo blocos de países, como o acordo União Europeia-Mercosul.
Outra medida que vem sendo adotada é a transação comercial com moedas locais, prática crescente entre países do BRICS+. O resultado, não calculado pelo governo Trump, tem sido maior independência em relação ao mercado dos Estados Unidos e o enfraquecimento do dólar como moeda de troca internacional. No caso brasileiro, a imposição de tarifas teve objetivos políticos, além do combate a práticas comerciais consideradas “desleais”. A medida foi adotada poucos dias depois do pré-candidato da extrema-direita, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ter se encontrado com Trump na Casa Branca. A visita ocorreu no momento em que o eventual candidato se via envolvido num dos maiores escândalos financeiros do país.
Os resultados do encontro de Flávio Bolsonaro com representantes da ala mais radical do governo estadunidense, o vice-presidente J.V. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio, mostraram que a visita foi além do propósito de lançar uma cortina de fumaça aos reveses sofridos no cenário nacional. O pleito para enquadrar o PCC-Primeiro Comando da Capital e o CV-Comando Vermelho como organizações terroristas foi atendido.
O governo Lula avalia a medida como um retrocesso no enfrentamento ao crime organizado. A iniciativa pode provocar prejuízos à cooperação policial, à economia e à soberania do País. Para os EUA, trata-se de segurança nacional, discurso usado para legitimar a intervenção em países da América Latina e Caribe, mantê-los em sua área de influência e combater a crescente presença chinesa na região. O propósito foi enunciado com todas as letras no encontro com lideranças políticas de direita, patrocinado pelo governo Trump, ao lançado o projeto Escudo das Américas.
Para analistas, a proposta de derrotar carteis do crime organizado com o uso da força militar já se provou desastrosa, sendo um equívoco em relação à forma como as facções criminosas operam hoje. Desmontar esse sistema exige mais cooperação internacional em inteligência, integração de dados financeiros e logísticos, além de ações coordenadas para desestruturar as redes que alimentam o crime internacional. Esta tem sido a linha defendida pelo governo Lula.
Se o propósito do governo Trump fosse o combate efetivo ao crime organizado, estaria conduzindo a investigação e desmonte da rede existente em seu território de lavagem de dinheiro e de vendas de armas ao crime organizado atuando no Brasil. Provavelmente, a iniciativa revelaria como interesses dos criminosos estão imbricados com os interesses de políticos da extrema-direita que se posam de defensores da segurança.