A notícia do acordo de paz foi dada pelo primeiro ministro do Paquistão e confirmada, em seguida, pelo presidente estadunidense. O documento finalmente assinado no dia 17 de junho confirma que o Irã que pode cantar vitória, os Estados Unidos cedem em pontos essenciais, enquanto Israel amarga a mais séria derrota. A proposta prorroga por sessenta dias o cessar-fogo, período em que seguem as negociações para um acordo definitivo.
O governo iraniano não abre mão de nenhum dos pontos considerados estratégicos ao país. O estreito de Hormuz foi aberto, mas permanece como parte soberana do território iraniano. O regime político sai fortalecido pela forma como enfrentou a maior potência militar do mundo. Sua indústria bélica, apesar de avariada, continua em condições de produzir armas em série, especialmente os temidos mísseis balísticos de longo alcance, capazes de furar o bloqueio dos escudos de proteção de Israel.
Um fundo no valor de 300 bilhões de dólares, e provavelmente providenciado por países do Golfo Pérsico, deve financiar a reconstrução da infraestrutura destruída pelos ataques inimigos. O Irã também conseguiu a suspensão das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e países europeus ao comércio do petróleo e a liberação dos ativos iranianos retidos no Ocidente. Segundo os negociadores estadunidenses, ficou acertado o controle do programa de enriquecimento de urânio, através de inspeção periódica das usinas nucleares por técnicos ocidentais. O governo do Irã contesta este ponto.
Israel é o principal perdedor no desfecho negociado e provisório do conflito. Não conseguiu atingir nenhum dos objetivos estratégicos ao desencadear a agressão militar ao Irã. Está sendo obrigado, pelo acordo em que não tomou parte e que contesta, a interromper as agressões no Líbano, sem ter conseguido desarmar o Hezbollah. Perde força no tabuleiro geopolítico regional, ao assistir à ascensão do Irã, reconhecida na mesa de negociação com os Estados Unidos e no reposicionamento dos países do Golfo Pérsico.
Netanyahu tenta sabotar o acordo ao atacar novamente Beirute e o Sul do Líbano. Precisa da guerra para manter a coalisão com a extrema direita que o mantém no poder. Seu futuro continua incerto e poderá ser decidido nas eleições de outubro. Israel continua cada vez mais isolado e o país mais odiado no mundo.
O acordo representa um alívio aos países mais atingidos com o fechamento do estreito de Hormuz e com a elevação do preço do petróleo. A pressão interna contra a alta da gasolina nos postos de combustíveis deve ter pesado na decisão de Trump. Mas foi o fato de o confronto ter se tornado insustentável, com impacto negativo e irreversível nas eleições de novembro, que deve ter sido decisivo. O desafio de Trump é manter até lá os termos do acordo e encontrar a narrativa que transforme a derrota em vitória. No entanto, a questão nuclear a ser resolvida com o Irã e o boicote de Israel ao acordo que cria obstáculos ao seu projeto expansionista fragilizam a perspectiva de paz na região.
Duas questões ficaram evidentes nesta história, o aumento do descrédito do governo Trump, que ele tentará reverter com a manutenção do acordo, e o questionamento da sanidade mental do presidente que chega aos oitenta anos e acredita que o mundo real é aquele que traduz em suas mensagens no Truth Social.
Um documento assinado por psiquiatras, neurologistas, psicólogos e especialistas em saúde pública e mental ligados a universidades prestigiadas, como Harvard, Columbia e George Washington foi entregue ao Congresso dos EUA no dia 30 de abril. Nele apontam para a piora das condições neurológicas do presidente Trump no último ano. Os profissionais afirmam que têm o dever ético de “alertar para o fato de que o presidente dos EUA representa um perigo crescente para a população”.