Quinta-feira, 09 Julho 2026

A análise de Alex Sgreccia

Guerra na Ucrânia: desfecho incerto

A guerra do Irã deixou em segundo plano o conflito que entra no quinto ano no Leste Europeu entre a Rússia e a Ucrânia. Putin rejeitou o apelo de Zelensky para um cessar-fogo, alegando que o objetivo de Kiev seria apenas dar tempo para reorganizar suas tropas.

Em meados de maio, a situação na frente de batalha havia chegado ao impasse e o avanço das Forças Armadas russas era mínimo. Moscou recorreu ao uso de misseis balísticos contra alvos no território ucraniano. Analistas consideraram a iniciativa o início da “guerra das cidades”, típica de um conflito estagnado.  O Orechnik é um míssil balístico de alcance intermediário, desenvolvido para levar cargas nucleares a qualquer capital europeia. Quando carrega apenas ogivas cinéticas, sem explosivos, o estrago provocado ainda assim é grande. Diante do impasse na mesa de negociação e em retaliação à ofensiva russa, a Ucrânia realizou, no dia 10 de junho, um ataque massivo de drones e mísseis contra 20 regiões russas. 

Os ataques mais impactantes aconteceram na região de Samara, que fica a uma distância de aproximadamente 900 km de Moscou. A iniciativa provocou nova escalada no conflito. Kiev continuou com os ataques de drones dirigidos a áreas estratégicas, continuando a levar a guerra para o território russo. A ofensiva atingiu refinarias de petróleo e a rede de distribuição de gás, setores nevrálgicos da economia. Chegou-se a falar de falta de combustível para mover a guerra em território ucraniano, além do impacto negativo dos ataques na imagem do governo Putin. A retaliação russa não tardou, com novos ataques de mísseis a Kiev, provocando enorme destruição e número elevado de mortes.

Os pontos de impasse continuam. Putin recusa-se a abrir mão dos territórios que anexou e reivindica (Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporíjia) e insiste no reconhecimento dessas áreas como território russo. Exige ainda a não entrada da Ucrânia na OTAN e na União Europeia e o desarmamento do país. Para Kiev isso seria capitulação. O Kremlin tem dificultado o envolvimento da Europa nas negociações e classificado exigências ocidentais como inaceitáveis.

Os países membros da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte  – tentam manter o apoio estratégico a Kiev, num momento em que a aliança militar com os Estados Unidos vem sendo questionada e enfraquecida pelo governo Trump. O presidente dos EUA afirmou estar decepcionado com os países europeus que se recusaram a apoiá-lo na desastrada aventura contra o Irã. Mas as fissuras no interior da aliança são anteriores, remontam à tentativa fracassada de anexar a Groenlândia, provocando o repúdio da União Europeia, assim como às infrutíferas iniciativas de negociar diretamente com Putin um acordo de paz na Ucrânia, excluindo os europeus. Remontam ainda ao próprio esvaziamento da OTAN pelos Estados Unidos e à necessidade de sua reestruturação, sinalizada pelo governo estadunidense como “OTAN 3.0”, sem deixar claro o que isso significa.

Em outras palavras, a crise no interior da antiga aliança favorece a Rússia.  Os países europeus não conseguem oferecer a Zelensky os recursos de que precisa para mudar a seu favor os rumos do conflito, nem os Estados Unidos, desgastados pela derrota na guerra com o Irã e questionados como potência hegemônica unipolar, conseguem levar a Rússia à mesa de negociação. O cenário cria condições para o Kremlin prolongar o conflito, minando a resistência de Kiev.

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