Quinta-feira, 30 Abril 2026

A análise de Alex Sgreccia

Derrota da extrema-direita na Hungria

Victor Orbán, à frente do governo da Hungria por 16 anos e referência internacional da extrema-direita, admitiu a derrota nas eleições presidenciais ao constatar que a oposição já conquistara mais de dois terços das cadeiras do Parlamento. Não esperou a contagem final dos votos para reconhecer a vitória do candidato de centro-direita, Peter Magyar, fundador do partido Tisza. O resultado foi comemorado na União Europeia por anunciar o futuro de relações menos tensas com país e a retomada do Estado de Direito, promessas de campanha de Magyar. Sua vitória foi impulsionada pela enorme participação de jovens no processo eleitoral e pelo comparecimento histórico dos eleitores às urnas.

O candidato do Tisza fez uma campanha em defesa da paz, da segurança e da OTAN, em sintonia com a União Europeia. Explorou o descontentamento da população com o mal desempenho da economia, a elevação do custo de vida, em contraste com a ostentação de oligarcas favorecidos por Orbán. A corrupção no governo e as dificuldades cridas para os fundos da União Europeia chegarem ao país também foram alvo de críticas. 

Peter Magyar prometeu restabelecer equilíbrio de poderes, numa crítica direta aos ataques de Orbán à Corte Suprema e às mudanças feitas na Constituição para concentrar o poder no Executivo. O processo de construção do chamado modelo iliberal teve início depois da vitória esmagadora de 2010 que deu ao Fidesz, partido de Orbán, maioria de dois terços no Parlamento.

Inspirado no modelo russo, o premiê húngaro procedeu ao desmonte sistemático das instituições encarregadas de limitar seu poder. O que se seguiu foi uma profunda transformação política, social e cultural, cuidadosamente inscrita no texto constitucional de uma nova Constituição, promulgada em 2012. Este projeto se inspirou no exemplo russo e foi moldado em meio a relações tensas com as instituições europeias.

Além de reescrever a Constituição, Orbán redesenhou o mapa eleitoral, corrompeu o judiciário e a imprensa, traçando o projeto político que ficou conhecido como iliberalismo. Não por acaso, tornou-se bastião e referência da extrema-direita internacional, chegando a ser chamado de “irmão” pelo ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

A disputa política entre o experiente Orbán e o jovem Magyar, que no passado pertenceu às fileiras do Fidesz, foi acompanhada com interesse. Apoiado por Putin, Orbán contou com a desinformação patrocinada por Moscou e com uma equipe especializada de consultores eleitorais operando a partir da embaixada russa em Budapeste. Trump chegou a enviar o Vice-presidente para participar da reta final da campanha. JD Vance chegou a subir em palanque para manifestar apoio ao candidato que acabou derrotado.

Sem dúvida, o resultado mexe no tabuleiro político europeu onde a extrema-direita vem sofrendo reveses, como a derrota de Meloni ao tentar fazer reformas no poder judiciário italiano, a vitória da esquerda em Portugal e nas eleições para a prefeitura de Paris.  Resta acompanhar até onde irão as mudanças prometidas pela coligação de centro-direita liderada pelo Tizsa, que é mais um movimento do que um partido organizado e disciplinado. A Hungria continua sendo um laboratório a ser observado sobre os rumos da democracia.

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