Quinta-feira, 16 Abril 2026

A análise de Alex Sgreccia

Guerra no Irã: o frágil cessar-fogo

Diante da resistência do Irã em aceitar os termos do acordo de cessar-fogo, Trump deu um prazo até o final do dia 7 de abril para o estreito de Ormuz ser liberado. Caso contrário, ameaçou com uma escalada sem precedentes de ataques à infraestrutura bélica e civil do país, numa clara manifestação do propósito de cometer crimes de guerra, algo jamais visto na história recente. Prometeu extinguir “toda a civilização” no Irã. Antes de expirar o prazo, os EUA atacaram a estratégica ilha de Kharg, que concentra 90% de todo o petróleo produzido no Irã, mas sua infraestrutura foi poupada novamente. Israel, por sua vez, fez incursões aéreas no território iraniano tendo como alvo pontes, trens, aeroportos e edifícios. Explosões atingiram Teerã. O Irã revidou. Convocou a população a formar escudos humanos ao redor de usinas. Anunciou que a época de “boa vizinhança” com países do Golfo acabara e que abandonaria qualquer contenção em novos ataques.

O mundo acompanhou com apreensão as últimas horas do prazo tido como fatal. Pouco antes de expirar, foi anunciado o acordo de um cessar-fogo de duas semanas mediado pelo Paquistão, tendo como ponto central a abertura do estreito de Ormuz, além de algum avanço em relação a questões postas na mesa de negociação e de difícil aceitação pelos dois lados. O impacto foi imediato. O preço do petróleo despencou, o dólar caiu e, no sentido contrário, as bolsas de valor tiveram alta. 

Mas a continuidade da agressão de Israel contra o Líbano, no primeiro dia de trégua, provocou a reação do Irã, que voltou a fechar o estreito de Ormuz, demonstrando a complexidade dos interesses envolvendo o conflito e a fragilidade da paz na região. A avaliação do acordo cessar-fogo foi, no geral, favorável ao Irã. Mais uma vez, Trump recuou nas ameaças, usou um discurso alusivo a uma grande vitória dos Estados Unidos, quando na realidade sofreu uma vergonhosa derrota.  Nenhum dos alegados objetivos estratégicos foi alcançado pela via militar. A aventura em parceria com Israel e com o apoio pusilânime das monarquias do Golfo Pérsico está custando caro e poderá significar o fim de uma era de hegemonia dos EUA na região. O regime político iraniano manteve-se em pé, apesar do assassinato de lideranças militares e civis, e mais radicalizado com a influência crescente da Guarda Revolucionária. A reação à agressão externa ganhou força com a ameaça de Trump de destruir uma civilização milenar, mobilizando a população e minando os movimentos civis que haviam crescido, meses antes, contra o poder autoritário. O tiro parece ter saído pela culatra, é nos Estados Unidos que se fortalece a oposição ao governo, em decorrência da guerra. 

Apesar da incalculável destruição de sua infraestrutura, nada indica que o Irã tenha perdido a capacidade de enriquecer urânio ou de produzir mísseis supersônicos. Grande parte de sua indústria bélica continua intocada, a mais de 400 metros do solo, protegida por camadas naturais de pedra. O controle do estreito de Ormuz, que Teerã usou como principal trunfo no enfrentamento de uma guerra assimétrica, continua sob seu controle. Apenas embarcações de países amigos foram autorizados a passar pelo estreito antes do cessar-fogo. Os termos do acordo que permitem novamente a navegação asseguram a Teerã o direito de cobrar taxas, interpretação que faz à luz da soberania do país. O Irã sai fortalecido econômica e politicamente. A derrota dos Estados Unidos é semelhante àquela sofrida pelos britânicos no Suez, em 1956. E vem carregada de simbolismo: pode ser a derrocada do império.

Houve também especulação sobre os bastidores do acordo, especialmente a ação das potências que movem forças no tabuleiro geopolítico regional. Favorecida com a suspensão das sanções, a Rússia passou a vender mais petróleo e a preços mais altos. Especula-se também que Moscou tenha atuado nos bastidores diplomáticos para dissuadir Trump de escalar o conflito. Comenta-se que o Irã usou o mar Cáspio para receber equipamentos bélicos da Rússia, que teria fornecido, assim como a China, serviço de inteligência para os militares iranianos atingirem com precisão alvos estratégicos nos países do Golfo e em Israel. Um regime alinhado aos interesses das duas potências é considerado fundamental ao equilíbrio de forças na região em disputa. Enquanto cresce a influência da Rússia e da China no Irã, o fiasco da proteção oferecida pelos EUA aos tradicionais aliados no Golfo Pérsico compromete sua imagem de potência hegemônica.

Trump não tem condições de retomar a guerra. Como já foi dito, o desastre representado pela aventura insólita teve elevado custo político. O aumento do preço dos combustíveis bateu no bolso do consumidor, ampliando a desaprovação do governo que vem enfrentando reveses nos tribunais e resistência nas ruas. Há também oposição à ação militar nos bastidores do poder, apesar de Trump ter colocado aliados fieis em postos chaves do governo e das forças armadas. O general Daniel Caine, Chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, alertou para os riscos da guerra – possibilidade de número elevado de mortes, baixo estoque de munição, falta de apoio de aliados na região – riscos descartados pelo presidente. Parte considerável do MAGA (Make America Great Again) é contrária à ação militar no Irã. Uma derrota dos republicanos nas eleições de meio mandato em novembro poderá fortalecer o movimento pelo impeachment do presidente.

Um dos pontos centrais do conflito e que continua em aberto diz respeito ao papel que Israel continuará exercendo na região. Especula-se sobre os argumentos usados por Netanyahu para arrastar Trump a para a guerra, mas não há dúvida que o premiê usa os Estados Unidos para favorecer seu próprio jogo de interesses. Não se alinha incondicionalmente, isto é método, não acaso, sejam quais forem as justificativas. Como não foi divulgado documento escrito sobre o acordo de cessar-fogo, foi fácil argumentar que o acerto não abrange a ação militar no Líbano. Fez uso da carta branca para a mais avassaladora investida contra Beirute no dia 8 de abril, deixando 254 mortos e 800 feridos. Não ousou mais na escalada contra o Irã porque foi barrado pela China, de onde veio o recado: o uso de arma nuclear seria o fim de Israel como país.

Apesar de lidar com um exército desfalcado e à beira da exaustão, Netanyahu não parece ter desistido do projeto expansionista na região. Isolado internacionalmente, sob ameaça de ser levado a julgamento por crimes de guerra, mas apoiado por partidos extremistas que aprenderam pelo avesso as lições do Holocausto, o premiê israelense conta com lobbies fortíssimos a favor de Israel para manter o apoio dos Estados Unidos e resistir às pressões de outros países nos fóruns internacionais. 

Restava saber como a questão libanesa seria tratada nas negociações em Islamabad e se haveria avanços nos demais pontos – abertura do estreito de Ormuz, fim do programa nuclear do Irã e da produção de mísseis supersônicos. São pontos de difícil acerto, considerando os interesses em jogo. Segundo informações de um membro da delegação iraniana, as negociações haviam avançado, mas ficado mais dura na questão nuclear, quando foram surpreendidos com exigências inaceitáveis.  O vice-presidente JD Vance interrompeu o processo e anunciou, no final do sábado, dia 11, que não haviam chegado ao acordo em nenhuma das questões postas na mesa. Trump ameaçou com o bloqueio total do estreito de Ormuz, a partir do alto mar, envolvendo todos portos iranianos. Navios serão interceptados, petroleiros iranianos serão impedidos de passar. O bloqueio a petroleiros iranianos tem como objetivo sufocar a economia iraniana, dependente da exportação de petróleo, e impedir que pedágios sejam cobrados no estreito de Ormuz. Não está descartada a possibilidade de bombardeio cirúrgico que prepare a invasão por terra. Israel, por sua vez, anunciou que vai transformar o Sul do Líbano em zona de contenção, sob seu controle, já que o Estado libanês não consegue desarmar o Hezbollah.

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