Quinta-feira, 14 Maio 2026

A análise de Alex Sgreccia

BRICS+ e o redesenho da ordem mundial

Há tempos se vem discutindo a crise de hegemonia dos Estados Unidos no mundo contemporâneo, traduzida na reduzida capacidade de influência para assegurar a ordem mundial e interpretada como ineficácia do recurso à força para dirimir conflitos em áreas onde seus interesses geopolíticos estão em disputa. Esse processo ocorre ao mesmo tempo em que se observa o deslocamento do polo dinâmico da economia do Ocidente para o continente asiático. Uma nova configuração de poder multipolar, com novos atores destacando-se no tabuleiro geopolítico internacional, vem se instituindo no lugar do sistema dominado pelos Estados Unidos há décadas. Neste contexto de crise e de transformações, o BRICS+ assume um papel cada vez mais relevante.

O termo BRICS foi cunhado em 2001 pelo economista Jim O’Neill, da Goldman Sachs, para denominar países em rápido crescimento. Originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o bloco expandiu-se em 2024 para incluir Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, totalizando 11 membros, representando cerca de 39 % do PIB mundial e 49% da população global. 

Para além dos números, em si expressivos, o que chama a atenção é o lugar que bloco poderá ocupar na nova ordem internacional que está se constituindo. A perda de hegemonia dos Estados Unidos, processo em curso nas últimas décadas, está sendo contraditoriamente acelerada no governo Trump, através das medidas que supostamente devolveriam ao país a posição de potência inquestionável. Recuperar esta condição foi o mote de sua campanha eleitoral: Make America Great Again. (Transformar a América Grande Novamente).

A imposição arbitrária de tarifas para subordinar países aos interesses da economia estadunidense acabou produzindo o efeito contrário e perdeu força depois que a Suprema Corte impediu Trump de continuar aplicando a medida. Seu efeito sobre a economia mundial, no entanto, foi disruptivo. Gerou um clima de insegurança e de instabilidade, estimulou a busca de alternativas ao mercado norte-americano e provocou crescente desconfiança em relação aos Estados Unidos.

Investidas de Trump contra organismos internacionais, como a Organização Mundial do Comércio-OMC, a Organização Mundial da Saúde-OMS e a Organização das Nações Unidas-ONU, assim com o rompimento com Acordo de Paris sobre a questão climática, fragilizaram instituições multilaterais fundamentais à governança global e provocaram, para além do descrédito, o isolamento dos Estados Unidos no cenário mundial.  Este quadro se deteriorou com a tentativa de anexar a Groenlândia e com as ameaças de esvaziar a OTAN-Organização do Tratado do Atlântico Norte, deixando os países europeus à própria sorte. Em outras palavras, os Estados Unidos não são mais capazes de combinar poder militar, capacidade financeira e legitimidade política para arbitrar crises e estruturar consensos.

O desfecho em aberto da guerra contra Irã, aventura em que Trump embarcou para atender aos interesses do governo genocida de Netanyahu, talvez seja o exemplo mais evidente do declínio dos Estados Unidos como potência hegemônica. A ação militar intensiva e rápida – visando destruir a estrutura bélica do país, especialmente suas usinas nucleares, fragilizar o regime político autoritário de Teerã e desobstruir o Estreito de Ormuz-, acabou sendo ineficaz diante da resistência iraniana. Os tradicionais aliados de Washington se recusaram a participar da agressão considerada ilegal do ponto de vista do direito internacional.

Segundo a analista Maria Luiza Falcão e Silva, “O que se vê não é o fim de um conflito, mas a revelação de um limite — e, com ele, a abertura de um espaço. É nesse espaço que o debate sobre o papel do BRICS ganha densidade. O ponto central não é que o BRICS+ esteja prestes a substituir os Estados Unidos como novo centro hegemônico. O ponto é outro: o mundo já não comporta mais uma hegemonia única.

É nesse contexto que o BRICS+ deve ser compreendido. Não como um bloco coeso pronto para ‘governar o mundo’, mas como uma plataforma de coordenação entre grandes economias emergentes que passam a ter papel crescente na definição dos termos da ordem internacional.”

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