O turista procura a cultura genuína, os costumes, a nossa forma de viver e de estar, a nossa gastronomia, além das nossas montanhas, das nossas praias, do sol e do mar. Quer conhecer a essência deste povo que habita essas ilhas espalhadas no meio do Atlântico.Devemos com isso manter o nosso sentir cabo-verdiano, desenvolver a nossa morabeza, preservar a paz e a tranquilidade dessas ilhas. Para mim, a nossa maior riqueza, além da nossa cultura são a paz e a tranquilidade que devem ser preservados a todo o custo. Outrossim, devemos cuidar e bem do nosso ambiente, dos nossos mares, das nossas praias.
No que se refere â percentagem ou cota mínima por lei para a reprodução da nossa música nos estabelecimentos hoteleiros e outros espaços turísticos, penso que não existe nenhuma lei ou obrigatoriedade. No entanto, existem duas obrigações legais e comerciais muito importantes que estes estabelecimentos devem cumprir ao tocar qualquer tipo de música. Os pagamentos variam consoante a localização do espaço turístico. Em Cabo Verde, o licenciamento e a retribuição aos criadores são geridos pela Sociedade Cabo-verdiana de Música (SCM).
Os hotéis e espaços turísticos não podem utilizar contas pessoais de streaming (como Spotify ou Apple Music) para passar música ambiente, pois estas licenças são estritamente de uso pessoal. É obrigatório. Não tenho conhecimento que estes preceitos são rigorosamente seguidos, se existe fiscalização e acompanhamento da situação.
Estou em crer que, apesar do perigo que corremos com a globalização, a nossa cultura está bem enraizada na nossa sociedade, pois a essência do cabo-verdiano forjada ao longo dos séculos soube resistir a todas as vicissitudes da vida. Entretanto, com a globalização e a facilidade com que as redes sociais, as tecnologias informacionais viajam pelo espaço cibernético, as novas gerações sentem-se pressionadas a consumir toda e qualquer espécie de música.
Em relação à música cabo-verdiana, julgo que deve ser oficializado, regulamentado e definido que géneros fazem parte da música tradicional. Não restam dúvidas de que a música tradicional cabo-verdiana é uma das mais ricas do mundo, nascida da fusão de influências africanas e europeias. Mais do que canções isoladas, a tradição musical do país divide-se em géneros e ritmos fundamentais, cada um com a sua própria história, instrumentos e alma.
A morna (a alma nacional) é o género musical mais icónico de Cabo Verde, considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Caracteriza-se por ser uma melodia dolente, lenta e melancólica, que canta a “sodade” (saudade), o amor, a partida para a emigração e o mar. A coladeira (o ritmo alegre) surgiu como uma variação célere e satírica da morna. Tem um ritmo contagiante, sensual e descontraído, muitas vezes com letras repletas de humor e crítica social.
O funaná, originário de Santiago, tem um ritmo extremamente rápido, enérgico e dançante. Historicamente, era a música de protesto e expressão dos camponeses no interior da ilha. O batuque/batuku é um dos géneros mais antigos de Cabo Verde, predominantemente percussivo e comunitário, executado quase exclusivamente por mulheres (as batucadeiras) que se sentam em círculo, batendo no compasso do ritmo com uma trouxa de pano entre as pernas (da tatchu). Enquanto produzem o ritmo, alternam cantos de chamada com resposta sobre a vida quotidiana, geralmente improvisados.
Outros ritmos tradicionais importantes são a mazurca e valsa, danças de salão de origem europeia adaptadas à identidade crioula, muito populares nas ilhas de Santo Antão, São Nicolau e Fogo. Já talaia Baxu é um ritmo dolente e acústico muito específico e tradicional da ilha do Fogo, ao passo que a tabanka consiste numa manifestação musical associada aos santos populares, marcada pelas melodias produzidas através de búzios e tambores.
Devemos fomentar o intercâmbio entre as diversas ilhas por forma a enriquecermos o que oferecemos aos turistas. Porque não convidar um grupo de talaia baxu da ilha do Fogo ou de mazurca e valsa de Santo Antão ou de São Nicolau para se apresentarem aos turistas que chegam à ilha do Sal?
Outro aspeto a ter em conta é a qualidade dos grupos que são apresentados aos turistas, pois muitos desses grupos desvirtuam a essência das danças e cantares de Cabo Verde. No Sal, os grupos de dança aparecem de forma espontânea, muitas vezes sem enquadramento legal, operando sem direitos e sem cobertura legal, em horários não muito adequados. Outra situação a ter em conta é a falta de projetos para o incentivo dos nossos artesãos por forma à afirmação do artesanato nacional.
Apesar destes constrangimentos sou de opinião de que a nossa cultura tem todas as condições para continuar a desempenhar um papel importante na nossa afirmação no Mundo.