A cidade de Espargos é um péssimo exemplo do que é uma cidade desordenada, sem áreas públicas, sem jardins ou praças ornamentadas, sem equipamentos sociais, sem áreas verdes, com um amontoado de casas, ruas desordenadas, uma lugar sem atractivos. Cimento, e mais cimento, alcatrão e mais alcatrão, centenas e mais centenas de casas por acabar, uma cidade cinzenta, triste, rodeada de bairros informais, onde falta tudo, sem arborização, sem espaços de desenvolvimento comunitário.
A nossa cidade não tem atractivos, não tem um museu, nem uma sala de cinema a funcionar. O Anfiteatro José Cabral está obsoleto, sem o mínimo de conforto, e a Biblioteca Jorge Barbosa continua pobre e mal-organizada, funcionando em horário burocrático. No meu tempo de estudante, em S. Vicente, a Biblioteca funcionava à noite permitindo aos estudantes ter uma fonte de consulta, de estudos e conhecimento.
Santa Maria padece dos mesmos males, e está pessimamente iluminada e com falta de atrativos culturais. Não tem um centro de congressos, nem uma sala de cinema, nem uma sala de espectáculos, e muito uma biblioteca, nada que eleve o seu nível cultural. É uma cidade que não apresenta opções nenhumas, além de uma praia suja e malcuidada. A areia está a sedimentar-se nas redondezas dos beach clubs, em cima da orla marítima, pelo que se não forem tomadas medidas, dentro de poucos anos a área estará sedimentada em toda a sua extensão. Os canais normais de circulação das areias, que antes alimentavam as praias de Santa Marias, foram todas obstruídas no sentido nordeste/sudeste. E as dunas desapareceram todas devido à má gestão dos sucessivos autarcas que, nos últimos anos, vêm administrando a ilha do Sal.
Os nossos bisavós e avós souberam construir, preservando a vista do horizonte e preservando as nossas praias livres de obstáculos de toda a espécie. Hoje é o que se vê. Praias todas invadidas, todas destruídas com obstruções em cima da orla marítima. Para mal dos nossos pecados, não há comparação possível entre a areia das praias de Santa Maria, e a areia das praias da Boa Vista. Estas são limpas, brancas, e renovadas naturalmente, trazendo beleza à Boa Vista, e preservando a sua originalidade
O sol é o único bem que, até agora, não foi poluído na ilha do Sal. A antiga Povoação de Palmeira, hoje vila, tinha tudo para ser uma cidade costeira, portuária bonita, com outras condições de habitabilidade, respeitando o ambiente, desfrutando da sua irmandade com o mar, servindo a sua população integrada no meio.
A costa que vai das imediações da Electra até junto ao Morro Leste (Oeste), tem uma beleza incomensurável, desmedida, com reentrâncias que agradam aos banhistas, com piscinas naturais (ex: Regona, Buracona) que, bem aproveitadas, equipadas com mobiliários adequados, uma gestão amiga do ambiente, cumprindo escrupulosamente o caderno de encargos assinado com a autarquia ou outra entidade qualquer, traria outra beleza à actual vila. Imagine-se uma Marginal com quatro vias, mais uma pedonal e ciclovias, devidamente arborizadas com palmeiras, tamareiras, coqueiros e plantas ornamentais, rasgando a costa oeste da vila até as imediações da Buracona.
Bangalós, restaurantes, esplanadas, quiosques e residências de um só piso ─ onde hoje estão implantados armazéns, esses monstros, todos desordenados, que privam Palmeira de desfrutar dum espaço nobre e natural para o crescimento da futura cidade a oeste ─ fariam com que a Palmeira fosse transformada na cidade mais bonita da ilha. Mas, não! No silêncio dos gabinetes foram transacionados, alienados grandes lotes de terrenos nessa zona, sem que houvesse da parte da autarquia uma visão inteligente e holística do desenvolvimento da urbe.
Hoje esse espaço nobre está irremediavelmente perdido, devido à falta visão e planeamento das sucessivas câmaras e dos governos que nos últimos 20/30 anos governaram esta ilha. E, na tentativa de remediar o mal, transferiram a cedência de lotes para construção de novos armazéns para o lado este da vila, nas imediações da Shell e da Enacol, em direcção à subida da Casa do Sr. Adolfo Osório, ficando a vila de Palmeira estrangulada, manietada entre dois muros de armazéns, um a este e outro a oeste. Pior a emenda que o soneto. O sonho do Tio Paulo Évora, que há décadas atrás idealizou e colocou no papel um desenho com avenidas largas, descendo a encosta e rasgando em direcção à Palmeira, está irremediavelmente perdido.
Resta até agora a zona Costeira de Fontona, que, paulatinamente, vai sendo ocupada com grandes mansões voltadas para a Baía de Palmeira. Que seja elaborado um Plano Urbanístico Detalhado da zona que vai das imediações da Enacol (salvaguardando a área de servidão e segurança). Ter atenção que estão em causa duas unidades petrolíferas ─ a Vivo Energy e a Enacol ─ que armazenam milhares de toneladas de combustível e produtos altamente inflamáveis, pelo que a segurança deve ser dita em conta.
A Baía de Palmeira, visitada ao longo do ano por um número razoável de iates, precisa ser drenada. Também, lá deve ser construída, numa parceria público-privada, uma marina para assistir a esta classe de navios, criando mais um atractivo para a ilha, prestando um serviço de melhor qualidade a este sector de grande procura e rentabilidade. Igualmente deve ser equacionada a deslocação da entrada e a saída de grandes camiões e toda a maquinaria pesada do centro de Palmeira, da rua mais movimentada da vila, que põe em perigo a segurança das pessoas e o sossego da comunidade.
Da Pedra de Lume falarei em momento próprio. Ali, enquanto subsiste o conflito com a titularidade dos terrenos, o impasse continuará para desespero dos seus habitantes, hipotecando o desenvolvimento do sitio histórico e cultural, berço da nossa identidade salense. Um sitio único no Mundo, segundo a Unesco, um Património, uma das 7 Maravilhas de Cabo Verde.