É do conhecimento geral, que estas ilhas foram achadas pelos navegadores portugueses em 1460, tendo a ilha do Sal, sido aportada a 3 de dezembro desse mesmo ano. Ilha estéril, com um clima seco, sem chuva e despida de vegetação e água, não foi fácil a fixação de gentes nestas paragens, tendo permanecido desabitada por mais de três séculos, apesar de esporadicamente barcos de diversas nacionalidades por aqui passarem à procura do precioso sal, peixe, e óleo de tartarugas.
Com a chegada de Manoel António Martins, vindo da Boa Vista, nos finais do seculo XVIII, mais precisamente em 1796 depois de um naufrágio na Boa Vista, e ter descoberto as Salinas da Pedra de Lume, iniciou-se o povoamento da ilha com gentes da Boa Vista, e muita mão de obra escrava. Estabeleceu-se uma comunidade com as suas crenças, seus anseios, seus hábitos e costumes, sua religiosidade. A história da colonização tem como ponto comum a convergência da sua religiosidade, surgindo assim a sua aproximação e os primeiros aglomerados populacionais. Em resumo foi o que aconteceu na ilha do Sal, quando Martins se instalou na Pedra de Lume e iniciou a exploração das Salinas.
De imediato, mandou edificar uma pequena capela, com o beneplácito do Bispo D. Frei Cristóvão de S. Boaventura, com Residencial Episcopal na Ilha de S. Nicolau, onde começou a funcionar uma cadeira de gramática latina e outra de teologia, entre outros benefícios como abertura de poços, caminhos, e mandou vir carpinteiros, pedreiros para ensinar as artes aos naturais da ilha de S. Nicolau.
Fr. Cristóvão de S. Boaventura faleceu em 29 de abril de 1798. Por falar de Bispos, posso informar que o primeiro Bispo de Cabo Verde foi Dr. Braz Netto, encarregado por D. João III de negociar em Roma a introdução do Tribunal da Inquisição em Portugal, foi nomeado primeiro bispo de Santiago, por Bula de 31 de janeiro de 1533. Entretanto, não saiu de Portugal, onde faleceu. Tinha a côngrua de 200$000 (reis) O bispado de Cabo Verde era, ao tempo da sua criação, sufragâneo do arcebispado do Funchal.
Como vimos a primeira capela foi construída após a chegada da Martins ao Sal, sem data precisa, mas após a sua morte a 6 de julho de 1845 pelo seu filho Aniceto António Ferreira Martins e sua esposa e sobrinha Maria da Piedade Sousa Martins, que iniciaram a construção da atual capela em 1846. Mais tarde, por toda a Ilha foram erguidos templos religiosos dos quais destacamos a Capela de S. António nos Espargos, a de N. S. de Fátima na povoação do mesmo nome, e a de S. José na Palmeira.
Sobre estes templos, não existe consenso nem dados quanto a data exata da sua construção. Ainda que de forma breve falaremos de cada um destes templos.
Capela de Nossa Senhora da Piedade
A capela de Nossa Senhora da Piedade, na povoação da Pedra de Lume, como dissemos antes, foi mandada construir pelo filho de Manoel António Martins, Aniceto António Ferreira Martins e Esposa, que em requerimento dirigido ao Revmo. Bispo da Diocese de Cabo Verde, em 1846 pediram que se pudesse “celebrar nella quotidianamente o Santo Sacrifício da Missa e mais Solemnidades do Culto”. A mesma Capela foi inaugurada em 1853, perfazendo neste ano de 2026, cento e setenta e três anos da sua abertura ao culto. Foi a capela consagrada no dia 17 de abril de 1855, pelo Pároco da Freguesia da Ilha do Sal, o Padre Pedro Rodrigues Tavares, como consta do auto lavrado num velho livro encontrado na dita capela. Este auto está assinado pelo Pároco, pelo fundador da capela, pelo encarregado dela e pelo Escrivão Eclesiástico.
Atualmente, esta capela é o único dos santuários antigos da ilha que subsiste com os seus traços originais, e que tem alguma beleza interior, notando-se um elegante arco de cantaria a frente do altar e outro entre o altar e a mesa da comunhão. Nos princípios do século passado a capela tinha a sua cobertura muito danificada, devido a ação dos temporais, e depois de diversas reparações feitas pela empresa estabelecida na Pedra de Lume, a mesma foi salva tendo sido substituídos o telhado, portas, janelas e pavimento. Muitas das reparações posteriores foram feitas com o apoio dos trabalhadores que deram um dia do seu trabalho, e também com o apoio da tropa portuguesa como atestam correspondências trocadas.
No meu pouco entendimento, acho que a capela da Pedra de Lume, pelo seu simbolismo e valor espiritual, arquitetónico, paisagístico devia ser declarada como Património Municipal e quiçá Nacional. A mesma necessita urgentemente de uma intervenção profunda, preservando os seus traços originais. Na fachada da Capela, ao cimo da porta está colocada a pedra das armas, o Brazão da família. Dentro da capela, ao alto do arco central, está uma lápide com a seguinte inscrição:
“Aniceto A. Ferreira Martins e Maria da Piedade Souza Martins a religião dos seus Pays
Igreja de Nossa Senhora das Dores
A maior destas construções foi a Igreja Paroquial da então Vila de Santa Maria, dedicada a N.S. das Dores, e que passados longos anos se arruinou, tendo sido substituída por uma igreja nova, sólida, vasta e de linhas sóbrias, dádiva duma empresa estabelecida na vila a Companhia Fomento de Cabo Verde. Ali neste sítio, foram lançadas a 8 de Marco de 1851, as bases para a construção da Igreja, no terreno anteriormente doado pela D. Maria Josefa Ferreira Martins, esposa do falecido Manoel António Martins. A cerimónia que se revestiu de uma grande solenidade, foi dirigida pelo Bispo de Cabo Verde.
Este, que chegara a ilha a 18 de fevereiro de 1851 constatou a grande necessidade de se construir uma Igreja, dando vazão aos anseios espirituais da população, que por esta altura contava com um número superior a 600 almas. Até então, a população de Santa Maria, dispunha de um Oratório, que inicialmente havia sido” câmara de um navio que ali naufragara, e que o falecido conselheiro Martins tinha oferecido para servir de igreja, enquanto esta não se edificasse” Para a edificação da Igreja o Bispo socorreu-se dos habitantes por meio de subscrição, tendo arrecadado 657$400 reis para além de carros para condução dos materiais pedra e mão-de-obra.
No interior da Ilha existiam Capelas particulares, onde se exercia o domínio público do Culto. Estamos a referir às capelas de Nossa Senhora do Rosário, de Santo Eduardo na Palha Verde, e a de Nossa Senhora do Socorro no sítio do mesmo nome, que estão irremediavelmente perdidos, cujos muros se desfizeram melancolicamente, roídas pelo tempo, numa paisagem deserta e vazia onde outrora se conheceu vida alegre de gentes nas hortas.
Capela de S. José
A capela de S. José, na então Aldeia de Palmeira, de construção precária também tinha ruido há muitos anos, mas foi reconstruída por subscrição feita entre os habitantes da aldeia e de outros sítios da ilha. Nesse tempo a missa era ali celebrada periodicamente, quando vinha um missionário a Ilha. Num dos seus escritos, dizia Basílio Ramos.
Citação: Diz a tradição que a Capela fora inicialmente construída na “Igrejinha”, nas imediações da desembocadura da ribeira do mesmo nome, localizada a meio caminho entre Palmeira e Fontona. Tendo ruído com o tempo, a “imagem de S. José” nela colocada foi resgatada pelos fiéis e preservada num quarto na Palmeira pertencente a Miguel Cotão (Nha Mdjel Cotõn) no linguajar de então), cuja localização coincide, mais ou menos, com a da atual capela e que servia para guardar apetrechos de pesca, nomeadamente cordas.
O padre benzeu a imagem e passou-se a rezar a missa nesse espaço.
Com o correr do tempo, o quarto também ruiria e Miguel Cotão, enquanto “patriarca” local, assumiu a guarda da imagem e conservou-a na sua própria casa.
Quando surgia algum padre na localidade, o que era raro, rezava-se a missa em casa do Cotão.
Foi o que aconteceu, por exemplo, em 1929, aquando de uma visita do Padre Agostinho Martins Vieira, que se encontrava no Sal por algum tempo e terá viajado de Santa Maria à Palmeira via Fontona, de burro.
A Capela de S. José viria a ser construída em 1932, no local aonde acabou por ficar em definitivo, por iniciativa de Miguel Cotão e Gastão Barros Ramos que promoveram uma subscrição para angariação de fundos, junto das pessoas da ilha.
Os recursos arrecadados permitiram a contratação de dois pedreiros (António d` Antónia Maria, de Feijoal, e Djô Florenço, de Madama) que, com o apoio dos moradores locais, ergueram um pequeno edifício coberto de palha.
A fachada apresentava uma configuração em arco – uma espécie de abóboda – que era uma réplica (mais pequena) da Igreja de N. S. das Dores, Santa Maria.
Palmeira passava assim a dispor da sua capela, onde se realizavam as atividades religiosas – ladainhas e cânticos, regularmente, e missas, ocasionalmente, quando havia padre na ilha.
Em 1942, aquando da presença de militares portugueses no Sal, devido à II Guerra Mundial, o Capelão José da Costa Parente reconstruiu a capela, tendo-a ampliado um pouco a superfície do lado traseiro.
Em 1961, com o apoio financeiro da Diocese e da Administração do Concelho, sendo Administrador César Gil dos Reis, o Padre Leonardo Maria di Roma, capuchinho italiano então em serviço na ilha, remodelou e ampliou a Capela que passou a ter a configuração e as dimensões atuais.
Para além do espaço central que também passou a funcionar como escola, a Capela contemplava ainda dois pequenos anexos para sacristia e cantina escolar.
Segundo a imprensa da época, a Capela foi inaugurada pelo Rev. Bispo de Cabo Verde, D. José Filipe Colaço, de passagem pelo Sal.” Fim da citação.
Igreja de Santo António
A então capela destinada a Santo António foi construída em 1943, por iniciativa do Corpo Expedicionário Militar vindo de Portugal, perto dos seus aquartelamentos. Era uma singela pequena construção, mas sólida e que grande serviço prestou ao exercício do culto católico no sítio onde se veio a estabelecer a aglomeração populacional mais importante da Ilha. Com a chegada dos Capuchinhos a Igreja foi ampliada e construíram–se diversas dependências, onde se destacava o Salão Paroquial.
Hoje, a Igreja conquistou novas valências e com o aumento populacional a mesma já se torna exígua para as necessidades de culto. No Sal não existia freguesia até à edificação da igreja de N.S. das Dores em Santa Maria em 1851. Também, como acontecia com os assuntos temporais, os assuntos espirituais da ilha do Sal dependiam da Boa Vista, em concreto da Freguesia de S. Roque. Durante quase toda a sua história, o Concelho do Sal só abarcava uma freguesia com sede em Santa Maria.
Recentemente, foi criada a freguesia de S. António com sede nos Espargos, abarcando as localidades de Pedra de Lume e Palmeira.Hoje, com o aumento populacional e as necessidades eclesiásticas no atendimento aos fiéis a igreja de S. António, parece pequena para uma Cidade em franca expansão e desenvolvimento.
Santuários e Romarias: as Comemorações de Santa Ana na Fontona
De acordo com o calendário religioso Santa Ana é assinalada no dia 26 de julho, data em que se celebra o Dia dos Avós, em louvor aos Santos Ana e Joaquim, pais de Maria e avós de Jesus. Em Cabo Verde, a efeméride é assinalada em vários pontos do território nacional, por vezes não no dia 26, mas no último domingo de julho, com celebrações religiosas – procissão e missa e atividades lúdicas diversas como bailes, festivais e jogos. Na ilha do Sal a data é comemorada na Fontona, localidade que dista cerca de 2 a 3 km da Palmeira, onde em 1954 foi construída uma capela em devoção à Santa. O promotor da iniciativa foi Augusto Pereira Pimentel, à época emigrante nos Estados Unidos da América, e um dos donos da propriedade onde se localiza a capela em cumprimento de uma promessa feita numa altura em que se encontrava gravemente doente nas Terras do Tio Sam.
Uma vez recuperado, enviou dinheiro a um familiar e este encarregou-se da gestão da construção, sendo de registar que na obra trabalharam os pedreiros Nha Matias, Dionísio Fortes, João de Nhô Nin, Mano Zego e o carpinteiro Abel Rocha. Ao longo dos anos, Santa Ana foi comemorada no último domingo de julho, com missa e procissão, dando lugar a uma grande concentração de pessoas, vindas de todas as localidades, afirmando-se como um dos momentos altos do calendário religioso na ilha.
Entretanto, com o decorrer dos tempos, a capela deteriorou-se bastante, por falta de manutenção, e os promotores das comemorações, nos últimos anos, resolveram transferi-las para a zona do Litém (Dbôx de Môte), na Palmeira, o que suscitou muitas críticas da parte dos fiéis, por entenderem que com tal medida, passou-se a sobrevalorizar a dimensão lúdica em detrimento da religiosa. Hoje, com o advento dos festivais, as celebrações de Santa Ana foram transferidas ou melhor dizendo esquecidas na sua forma original perdendo todo o seu encanto e religiosidade.
Festa de Santa Cruz
Nos primórdios do povoamento da ilha os seus habitantes trouxeram os seus costumes e hábitos e todos os dias 3 de maio, dia em que era dado plena liberdade aos escravos, comemorava-se com grande religiosidade e muita alegria a Festa de Santa Cruz, com início no Santuário de Lomba em Santa Maria. Há uma descrição pormenorizada destas festas feita por um tio-avô meu, Julio Hipólito Fortes, que nos ajuda a compreender todo o ritual que se seguida religiosamente neste dia.
Outras Festas
Também se comemora as festas de N. S de Fátima na localidade de Fátima no dia 13 de maio com missa e procissão.
Igualmente os Santos Populares, S. João, S. Pedro são comemorados com muito rufar de tambores, missa e procissão nos dias festivos.
Fontes e bibliografia:
História da Guiné 1418 a 1918, pelo Dr. João Barreto
A ilha do Sal: História e Cultura, pelo Dr. Edson de Brito
Escritos do Engenheiro Désiré Bonnaffoux
Escritos do Dr. Basílio Mosso Ramos