
No momento em que nos preparamos para mais umas eleições legislativas, seria natural esperar que o país estivesse mergulhado num grande debate nacional sobre o seu futuro. Um debate profundo, exigente, plural e intelectualmente mobilizador. Um debate que ultrapassasse os slogans partidários, as emoções imediatas e as disputas de superfície para tocar nas questões estruturais que verdadeiramente determinarão o país que seremos nas próximas décadas. Contudo, o que frequentemente se observa é um espaço público mais dominado pela reação do que pela reflexão, mais marcado pela velocidade das redes sociais do que pela maturação do pensamento estratégico.
Cabo Verde possui uma democracia consolidada, instituições relativamente estáveis e uma tradição de convivência política que merece reconhecimento. Num contexto internacional cada vez mais polarizado e agressivo, isso não é um dado menor. O país construiu, ao longo de décadas, um ambiente de liberdade que permite divergência, crítica e alternância política.
Mas liberdade, por si só, não garante qualidade do debate público. O desenvolvimento de uma nação depende também da capacidade coletiva de pensar o futuro com maturidade, densidade intelectual e coragem crítica. E é precisamente aí que começam algumas das nossas fragilidades. Discutimos intensamente política, mas nem sempre discutimos profundamente o país. Ouvimos, com demasiada frequência, mais a voz dos partidos e dos seus militantes mais fervorosos do que a voz crítica e independente da sociedade civil. Com isso, o essencial acaba frequentemente por ficar para segundo plano.
O espaço público tende a ser ocupado pela lógica da confrontação partidária, enquanto setores fundamentais da sociedade (universidades, investigadores, profissionais, estudantes, organizações cívicas e cidadãos independentes) permanecem relativamente discretos no debate nacional.
Falamos muito de partidos, de líderes, de campanhas, de polémicas e de disputas conjunturais. Falamos menos, porém, do modelo económico que queremos construir; das assimetrias territoriais; da dependência externa; da qualidade do sistema educativo; da produtividade nacional; da sustentabilidade do turismo; da preparação do país para os impactos da inteligência artificial e das transformações tecnológicas globais. Debatemos o imediato, mas raramente o estrutural.
Talvez uma das questões mais preocupantes seja a fraca participação estruturada das universidades e dos intelectuais no centro do debate nacional. Cabo Verde possui quadros altamente qualificados, dentro e fora do arquipélago. Possui investigadores, professores, estudantes brilhantes, profissionais experientes e uma diáspora intelectualmente rica. Contudo, essa massa crítica surge ainda demasiado dispersa, fragmentada e pouco estruturada como força permanente de pensamento público.
São muito poucos os grandes debates nacionais promovidos pelas universidades com impacto efetivo na agenda pública. É raro encontrarmos produção consistente de reflexão estratégica nacional amplamente discutida pela sociedade. É raro também assistirmos à emergência de movimentos estudantis ou intelectuais capazes de influenciar de forma organizada a qualidade da discussão política.
Parte desta realidade resulta também da própria dimensão do país. Em sociedades pequenas, onde quase todos se conhecem direta ou indiretamente, a exposição pública tem custos sociais, profissionais e relacionais mais elevados. Muitas vezes, instala-se uma prudência contida. Discutimos muito em privado, intervimos pouco em público.
Ao mesmo tempo, as redes sociais transformaram profundamente o espaço de debate. A lógica da rapidez, da reação emocional e da polarização tende a substituir o pensamento mais elaborado. A frase curta passou, muitas vezes, a substituir a análise profunda e o ruído tornou-se, por vezes, mais visível do que a reflexão. Mas encontramo-nos precisamente num momento histórico em que necessitaríamos de um debate nacional particularmente sofisticado.
O país enfrenta desafios enormes: pressão migratória, desemprego jovem, transformação cultural acelerada, vulnerabilidade climática, dependência económica externa, fragilidade do tecido produtivo nacional, necessidade de diversificação económica e redefinição do próprio papel de Cabo Verde num mundo em mudança. Nenhuma campanha eleitoral, por mais intensa que seja, substituirá a necessidade de uma reflexão estratégica permanente sobre o país.
As eleições são importantes. Mas mais importante ainda é a capacidade de a sociedade pensar para além delas. Talvez esteja na hora de Cabo Verde investir não apenas em infraestruturas físicas, mas também em infraestruturas de pensamento. Fortalecer universidades, centros de investigação, cultura de debate público, jornalismo analítico e espaços independentes de produção intelectual. Países pequenos como é o nosso, para sobreviverem num mundo cada vez mais competitivo e imprevisível, precisam de pensar ainda melhor do que os grandes.
A democracia não se consolida apenas através do voto, mas, sobretudo, pela existência de cidadãos conscientes, críticos e capazes de pensar, com lucidez e responsabilidade, o destino coletivo da sua nação.
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