Artemisa Ferreira levou quase uma década a investigar as causas das fomes em Cabo Verde para construir o filme “Os 47s – Depoimentos que ficaram”. Sem financiamento e, muitas vezes, num percurso solitário, a cineasta reuniu testemunhos, arquivos e memórias de sobreviventes para recuperar uma história que considera essencial para compreender o presente. Nesta entrevista ao Voz do Archipelago, fala sobre o processo de realização do filme, a sua relação com o documentário, o papel do cinema e da diáspora na denúncia social e as dificuldades de fazer arte em Cabo Verde.
Por: Bruna Araújo
Voz do Archipelago (VA) – Explique-nos um pouco o processo de investigação para construir o filme “Os 47s – depoimentos que ficaram”, nomeadamente as dificuldades, a consulta dos arquivos?
Artemisa Ferreira (VA) – Por volta de 2015 surgiu o interesse pelo arquivo, por entender as fomes e, aquilo por que nós passamos devido a elas. Tem alguns autores que falam através de poesia, através de crónicas. Então levaram com que me interessasse no assunto. Comecei a fazer a investigação e entrevistas com o antropólogo Arlindo Mendes. Através de arquivos do Arquivo Histórico Nacional e do Arquivo Ultramarino em Lisboa, acabei por conseguir alguns dos arquivos que uso no documentário.
A nível da fotografia, era muito escasso e acabámos por conseguir pouca coisa. Conseguimos algumas através dos arquivos e o Teté Linho acabou também por arranjar algumas. Consegui também ajuda de um amigo, o Duca Fonseca, que me apoiou na animação e na parte gráfica. Ao longo de todo esse tempo, foi um processo duro. Devido ao financiamento zero (risos), acabei por fazer o trabalho praticamente sozinha. Aliás, consegue-se ver que é um trabalho sem financiamento, através das técnicas de produção, pois há ainda algumas falhas.
Vamos fazendo e vendo como está, se se encaixa ou não. Se não, apagamos e vamos construindo, assim, aos poucos. “Os 47s – Depoimentos que Ficaram” faz parte da justificação da localização geográfica e climática, mostrando então porque Cabo Verde passou por todas essas crises de fome. Além disso, os depoimentos são contados com um certo “humor dramático”. A forma como eles estão encaixados apela ao foco na narrativa.
VA ─ Conte-nos como foi entrevistar pessoas que viveram o Desastre da Assistência de 1949?
AF ─ Entrevistei pessoas de quase todas as ilhas, nas férias, no fundo, é algo que eu gosto, então não considero como trabalho. Nalgumas situações as pessoas não queriam dar entrevista porque não queriam recordar o passado, é um passado doloroso. Houve situações em que as pessoas desabaram ao longo do relato, acabando por chorar, e, nesses momentos, senti-me culpada, por tocar numa ferida, mas, era um toque necessário. Nós temos de perceber o que realmente eles passaram. Quando ouvimos falar que se passou fome, sinceramente, nós não temos ideia do que é a fome, pensamos que é aquela fome de quando vamos comer daqui a umas horas. Por outro lado, havia pessoas que mandavam recado dizendo que queriam contar-me as suas histórias.
É por isso que temos de aproveitar, se temos avós e “gente grande”. Nós, jovens, perdemos muito a paciência com os “grandes” lá em casa, mas é necessário. Eles precisam de atenção e desabafar sobre aquilo por que passaram naquela altura. E nós, precisamos de os conhecer melhor, de compreender as suas atitudes, porque hoje a nossa sociedade, a nossa cultura — o comportamento que nós, cabo-verdianos, temos — deriva principalmente daquela época. Então, é sempre necessário sentar-nos, “pormos” uma hora de paciência e ouvi-los.
VA ─ Que reações espera do público mais jovem deste filme?
AF ─ Espero que, com “Os 47s – Depoimentos que Ficaram” possamos aprender para depois construirmos, não digo o futuro, mas o presente. Quero dar a conhecer, principalmente, aos nossos jovens, aquilo por que realmente passámos. Se nós não conhecemos o nosso passado, podemos construir um futuro sem alicerces. Espero que este filme sirva de inspiração para pesquisarmos mais sobre o nosso passado. Pensando a nível da agricultura, parece que não aprendemos com o passado. É uma forma de lembrar que, nos anos 40, passou-se isso (as fomes), através desse conhecimento, podemos prevenir para que não volte a acontecer. Amanhã são eles que estão no poder, têm de saber como agir em certas situações.
Talvez um dia apareça alguém que seja capaz de dizer “agora é o momento de agirmos consoante as condições que temos em Cabo Verde, devido ao que vivemos nos anos 40, ou antes”. O cinema tem esse poder para nos fazer refletir e chamar a atenção da nossa sociedade e, nas apresentações que já fiz do filme, sempre aparece um jovem que diz não saber o que passámos. Nós ainda vivemos o trauma da fome, mas, se amanhã a fome voltar, de alguma forma, teríamos os nossos próprios meios para ultrapassar isso? Até hoje dependemos de ajuda externa! Na agricultura não temos mão de obra. O que é que as pessoas estão a fazer para ultrapassar isso, tendo em conta que falta de terra não temos? O que é que falta para darmos um levantamento à nossa agricultura?
Há países que não têm água, mas que foram capazes de se desenvolver na área da agricultura, nós continuamos a trazer mais para o nosso país (importar), não nos mexemos para desenvolver aquilo que realmente nós temos. Continuamos aquele menino coitado que depende de outros países. E “Os 47s – Depoimentos que ficaram” é uma forma de dar um puxão na nossa própria orelha, não temos de continuar nessa pobreza que estamos.
VA ─ Como nasceu a sua paixão pelo cinema?
AF ─ A minha paixão pelo cinema surgiu na infância. Acho que o primeiro contacto de muitos de nós, cabo-verdianos, foi através de filmes de artes marciais, principalmente filmes asiáticos e hollywoodianos. Quando a minha avó voltava de França, trazia-nos filmes, reunimo-nos em sua casa, e vinham também os vizinhos. A minha avó passava o filme a fazer comentários e a antecipar o que ia acontecer (risos).
Foi nessa altura que surgiu a minha curiosidade sobre construção da narrativa e produção, questionava-me se aquilo era tudo verdade, pois na nossa cabeça, parecia real. Mais tarde, quando decidi fazer mestrado, acabei por escolher cinema. Foi quase por acidente, mas, no primeiro dia de aulas, que era sobre Charles Chaplin, a sua construção e o seu percurso, senti que estava realmente onde devia estar.
VA ─ O que pode o cinema documentário revelar sobre a identidade cabo-verdiana?
AF ─ À medida que estudava, ia aprofundando o conceito de documentário, a sua construção e a forma de divulgá-lo. Surgiu então, a ideia para o projeto final de mestrado, um documentário sobre identidade repartida, que seria uma forma de tentar entender como se identificam os descendentes cabo-verdianos no estrangeiro. É uma situação que me é familiar, pois tenho vários primos que nasceram no estrangeiro e que, percebi algumas vezes, travam uma luta de identidade. O que é que eu sou, se onde eu nasci sou considerado estrangeiro, e se no lugar de onde dizem que eu vim, sou também chamado estrangeiro? E, tendo em conta que o poder do documentário é criar simpatia e mobilizar as pessoas a favor de questões sociais, penso que, principalmente em Cabo Verde, é o meio mais assertivo de representar e falar daquilo que nós somos.
VA ─ Dentro e fora do cinema, quais são as suas maiores inspirações?
AF ─ No domínio da produção cinematográfica, Alfred Hitchcock, foi um realizador que me interessou relativamente à construção cinematográfica e forma de divulgar os seus ideais. No nosso continente, Ousmane Sembène, que é hoje considerado o Pai do Cinema Africano. E também tenho uma grande admiração por Flora Gomes, pela forma como fala sobre questões de colonialismo e mostra aquilo que realmente é. Ele fala da Guiné, mas acaba por refletir aquilo que África é. O que acho interessante nos realizadores do nosso continente é que refletem sobre as mesmas questões sociais, e isso acaba por se refletir na produção a nível do continente, mostrando uma linguagem cinematográfica africana.
Fora do cinema, o que me tem inspirado é o próprio desconhecido. São temas que desconheço e que me inspiram a trabalhar sobre isso, para tentar perceber. Tanto a nível de “Identidade Repartida”, como “Oji” e também “Os 47s – depoimentos que ficaram”. Primeiro procuro entender para desenvolver a temática. E depois divulgar para o povo.
VA ─ Para além de produtora e realizadora, és escritora. Quais são as dificuldades que encontras em ser artista em Cabo Verde?
AF ─ Acho que, a nível artístico, é aquilo que podemos gritar numa única voz: as dificuldades financeiras. É algo que toca em todas as áreas artísticas, no feminino e masculino, é um problema que todos sentimos. Mas precisamos também de mais reconhecimento da sociedade, capaz de reconhecer, e de mais convites para apresentar o nosso trabalho nos meios de comunicação nacionais, isso ajudaria no nosso reconhecimento. Temos, no entanto, uma ausência completa de divulgação de trabalhos audiovisuais de cabo-verdianos nos canais nacionais. É incompreensível que produções com reconhecimento a nível internacional não sejam exibidos nesses canais, e isso se deve também à ausência de uma política para o setor.
VA ─ Acha que estamos perante um novo movimento social do cinema e da literatura?
AF ─ Acho que sim. A literatura, ao longo dos anos, têm estado a falar sobre causas sociais, numa abordagem crítica da sociedade. Agora temos o cinema, entrando com a mesma força, tentando fazer com que falemos um bocadinho sobre as nossas questões políticas, sociais. Portanto, acredito que é uma nova forma de reivindicar, de criticar a nossa sociedade. Já não estamos na época em que o colonizador dizia que não temos direito à fala. Houve uma altura em que, no Senegal, o cinema era praticamente proibido, diziam que não se podia falar sobre certas coisas, como naquele filme de Flora Gomes, Nha Fala — “bu ka pudi fala pa ka morri”. Hoje nós falamos sem medo. Temos todos os meios para falar sobre quem somos e sobre a forma como fomos tratados, que é como ainda somos vistos. Não há uma arma mais poderosa do que o cinema para tentar mudar aquilo que achamos que deve ser mudado.
VA ─ Que histórias sobre Cabo Verde ainda faltam contar, e a partir do olhar de quem?
AF ─ Falta contar tudo (risos). O cinema tem crescido, mas ainda estamos no início. Temos todo o tipo de temas possíveis para serem contados. E, sem ter aquele receio de falar por ser um tema sensível, ou do sistema não permitir falar sobre isso por causa de consequências, sejam jurídicas ou outras. É isso que vai tornar o cinema aquilo que ele é: não ter medo de falar e de representar aquilo que realmente existe.
A partir de um olhar de dor, de um olhar reivindicativo e de um olhar que quer chamar a atenção para resolver um certo problema. Aquele olhar que está incomodado.
VA ─ E, voltando um pouco ao início, mas juntando com o que estamos a falar agora, que papel ocupa o olhar da diáspora cabo-verdiana?
AF ─ A diáspora ocupa um papel fundamental no desenvolvimento artístico e, em particular, no cinema. Se nós, em Cabo Verde, somos um bocadinho mal resolvidos a nível da nossa história, imagina quem nasce no estrangeiro e, é lembrado constantemente das suas origens. Assim, a forma como a diáspora apresenta os seus trabalhos, os temas que a incomoda, força-nos aqui também, a nível nacional, a tentar perceber o que sentem na sua pele, a percebê-los e acolhê-los. É por isso imprescindível termos os seus trabalhos cá em Cabo Verde, porque muitas vezes estamos a deduzir e não vemos realmente o que acontece.