Ara pois. Seguindo a querela com as ideias, assuntei sobre o que via. Será corpo de homem feito? A pele tem a cor natural do jambo ou terá sido escurecida pela quentura do sol? O peito, largo e forte, foi formado na lida dura do eito ou nas andanças e aventuras de quem não teve paradeiro certo? Terá abrigado coração generoso, que entrelaça no amor paixão e ternura? Indago ainda. De onde vieram as cicatrizes em corpo tão jovem? De disputa com jagunço, a mando de pai que teve a filha violada, ou de luta com fera selvagem? Foi obra de punhal afiado ou de garra de suçuarana?
Deixado no relento, foi curtido pelo sol e pelo vento? Foi endurecido pelo tempo que nem lenho? Por que não foi devorado por cachorro do mato ou por ave de rapina? Alguém terá velado por ele dia e noite, tanto tempo? Quem terá sido a pessoa de alma tão tinhosa? Terá feito para o amado mortalha de flores do campo ou deixado o musgo crescer e enfeitar, a sua moda, o corpo nu?
Sem respostas certas para as perguntas, o mistério ficou por conta do imaginado. Que sentimentos terá o corpo sem vida despertado na beata benzedeira? Foi mais compadecida que Maria Madalena? Limpou o corpo do amado com zelo, usando pano alvo e umedecido em água de mina? Untou as feridas abertas na carne com unguento de folhas de alecrim, maceradas com óleo de fruto de buriti? Derramou sobre ele lágrimas miúdas de desconsolo?
Olhou, por vez derradeira, a imagem que trespassou seu coração com os punhais das sete dores e de tantos outros desejos? Caiu em tentação ou em maus pensamentos? Benzeu em cruz a testa, a boca e o peito? Beijou a medalha de Senhora dos Aflitos e dos Arrependidos? Rezou com fervor? Pediu perdão antecipado pro pecado que haverá de pagar no purgatório? Suplicou por ele e por ela, agora e depois? “No inferno não, que o Senhor meu Deus o tenha! Misericórdia infinita a Sua, me livre também da danação do fogo eterno!”
E a antiga amante? Que lembrança carregará na memória? Da serpente que desliza pelas coxas e virilhas, sondando com a língua o corpo que a quer e a espera? Ou da potranca selvagem, que geme e sangra no estocado da espora, enquanto chicoteia os peitos rijos com a cabeleira solta?
E o amigo amado? Continuará amargando o sentimento que o desnorteia ainda tanto? Por razões desencontradas, por que terá dito não? Ligando para nenhuma delas, continuará querendo dizer sim? Dará conta do nó que ainda aperta e pede pra ser desatado? Terá espaço no coração, dividido com cerca invisível, para acolher e alimentar amor tão estranho? Se arrependeu de não ter atravessado a ponte suspensa que liga dois mundos, separados por despenhadeiro tão profundo?
Entonce, cicatrizes do desejo e da paixão podem ter ficado invisíveis também no corpo de quem viveu para lembrar e remoer a estória. Paixão será ainda o fogo que abrasa a entranha e consome pensamento, dia e noite, noite e dia? Água benta terá serventia contra essa queimação? Haverá sabedoria para compreender que o amor é um só e diverso? Disso não sei, deveras.