Gostava de fazer o reconhecimento do bairro, em busca de locais conhecidos ou de novidades que sempre a surpreendiam. Caminhava pelas ruas, misturando-se com as pessoas comuns. Entre os roteiros prediletos, começava pelo Boulevard Saint Germain, atravessava ruas pitorescas, repletas de lojinhas de antiguidade e obras de arte, em direção à Praça Furstemberg. Continuava pela Rua Mazarine até chegar à Passage Daufine, um oásis no bairro.
Era hora de parar no aconchegante L’Heure Gourmande, para um rápido lanche. Nada como continuar batendo pernas até o famoso Bon Marché, onde se deliciava diante dos alimentos expostos na famosa seção “La grande épicerie”. Passava boas horas no mercado, conferindo as novidades de utensílios domésticos, objetos de decoração e roupa da cama e banho.
Noutro dia, fazia o caminho noutra direção. Atravessava a Pont des Arts, indo para a Île de la Cité, onde se enfrenta uma fila não muito pequena para contemplar a beleza singular da Sainte-Chapelle. Uma passagem pela Île Saint Louis, para rever de perto o “savoir vivre” da burguesia parisiense, precedia a caminhada pelas ruas do Marais, bairro com cara e cheiro de tempos passados. Ou então, pegava um taxi até o Arco do Triunfo e fazia o caminho de volta, atravessando descontraidamente a Champs Elysées, parando numa transversal para almoçar num dos deliciosos bistrôs. Continuava pelo Jardin des Tulieries até chegar ao Louvre, onde sempre revia a galeria de esculturas clássicas. Por alguns dias, parecia ser cidadã do mundo.
Olha novamente para o anel lembra-se da última vez em que que o usou em público. Era uma tarde fria de inverno. A igreja estava lotada para a cerimônia de casamento. Escolheu uma toalete comprada em Paris, um tailleur preto de lã, com a parte de cima debruada com pele de arminho e caindo em viés sobre os quadris. Escolheu o conjunto de brincos e o medalhão cravejados de brilhantes, deixando à vista, no dedo anular, o reluzente anel de diamante. Fez jus à fama, e à inveja, de ser a mulher mais elegante de Santana.
Os tempos de bonança terminaram com a morte do marido. Vive sozinha, em reclusão voluntária. Hesita em vender o anel, única peça valiosa da antiga fortuna. Tem medo de ser ludibriada. Perdeu o contato com as joalherias exclusivas de São Paulo, onde talvez pudesse confiar numa avaliação segura. Reluta em gastar parte dos últimos recursos para alugar um taxi e se nega a pegar aquele ônibus de poltronas malcheirosas, sem poder escolher quem se sentará ao seu lado.
Bebe mais uma dose de whisky e desfaz o coque. Olha-se no espelho e não se reconhece. As pálpebras e bochechas enrugadas, os lábios caídos, os olhos sem brilho não são dela, são de outra pessoa que invadiu seus sonhos, durante a noite e tomou o seu lugar. Desconfiada, guarda novamente o anel no cofre e coloca a chave entre os seios.