Terça-feira, 15 Setembro 2026

Entre o Real e o Sonho

O anel de diamante

Nos tempos em que prevaleceram os desígnios da fortuna, nada pode ser comparado aos dias passados, a cada primavera, em Paris. Deixava o marido cuidar do roteiro e da assistência ao bando de turistas de classe média, pessoas endinheiradas e vulgares, de gosto duvidoso e comportamento constrangedor nos locais preferidos e previsíveis, como a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, a Notre Dame. Hospedada em hotel cinco estrelas em Saint-Germain-des-Prés, longe da matilha de conterrâneos, fazia os próprios roteiros, percorridos a pé e compensados por horas de descanso nas dependências do hotel ou de ócio nos cafés da redondeza. Vez por outra, pedia um achocolatado acompanhado de croissant no Deux Magots, seu local predileto, e a ali permanecia no mais puro langor, para ver e ser vista.

Gostava de fazer o reconhecimento do bairro, em busca de locais conhecidos ou de novidades que sempre a surpreendiam. Caminhava pelas ruas, misturando-se com as pessoas comuns. Entre os roteiros prediletos, começava pelo Boulevard Saint Germain, atravessava ruas pitorescas, repletas de lojinhas de antiguidade e obras de arte, em direção à Praça Furstemberg. Continuava pela Rua Mazarine até chegar à Passage Daufine, um oásis no bairro. 

Era hora de parar no aconchegante L’Heure Gourmande, para um rápido lanche. Nada como continuar batendo pernas até o famoso Bon Marché, onde se deliciava diante dos alimentos expostos na famosa seção “La grande épicerie”. Passava boas horas no mercado, conferindo as novidades de utensílios domésticos, objetos de decoração e roupa da cama e banho.

Noutro dia, fazia o caminho noutra direção. Atravessava a Pont des Arts, indo para a Île de la Cité, onde se enfrenta uma fila não muito pequena para contemplar a beleza singular da Sainte-Chapelle. Uma passagem pela Île Saint Louis, para rever de perto o “savoir vivre” da burguesia parisiense, precedia a caminhada pelas ruas do Marais, bairro com cara e cheiro de tempos passados. Ou então, pegava um taxi até o Arco do Triunfo e fazia o caminho de volta, atravessando descontraidamente a Champs Elysées, parando numa transversal para almoçar num dos deliciosos bistrôs. Continuava pelo Jardin des Tulieries até chegar ao Louvre, onde sempre revia a galeria de esculturas clássicas. Por alguns dias, parecia ser cidadã do mundo.

Olha novamente para o anel lembra-se da última vez em que que o usou em público. Era uma tarde fria de inverno. A igreja estava lotada para a cerimônia de casamento. Escolheu uma toalete comprada em Paris, um tailleur preto de lã, com a parte de cima debruada com pele de arminho e caindo em viés sobre os quadris. Escolheu o conjunto de brincos e o medalhão cravejados de brilhantes, deixando à vista, no dedo anular, o reluzente anel de diamante. Fez jus à fama, e à inveja, de ser a mulher mais elegante de Santana.

Os tempos de bonança terminaram com a morte do marido. Vive sozinha, em reclusão voluntária. Hesita em vender o anel, única peça valiosa da antiga fortuna. Tem medo de ser ludibriada. Perdeu o contato com as joalherias exclusivas de São Paulo, onde talvez pudesse confiar numa avaliação segura. Reluta em gastar parte dos últimos recursos para alugar um taxi e se nega a pegar aquele ônibus de poltronas malcheirosas, sem poder escolher quem se sentará ao seu lado.

Bebe mais uma dose de whisky e desfaz o coque. Olha-se no espelho e não se reconhece. As pálpebras e bochechas enrugadas, os lábios caídos, os olhos sem brilho não são dela, são de outra pessoa que invadiu seus sonhos, durante a noite e tomou o seu lugar. Desconfiada, guarda novamente o anel no cofre e coloca a chave entre os seios.

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