Olha para os próprios pés e constata que os sapatos não são aqueles que calçou, antes de sair de casa. Eram de anos passados, como suas roupas. Visivelmente incomodado, levanta-se e caminha em direção à pequena fonte. Ouve o burburinho da água jorrando da boca do felino, criando ondas concêntricas na superfície translúcida do chafariz. Molha as mãos, o rosto e os cabelos como se quisesse se despertar da miragem. Lembra-se dos momentos em que ali parava por alguns instantes para se esquecer do tempo. Observa a imagem tremulante refletida no espelho d’água e não se reconhece.
Aturdido, volta a sentar-se no banco, à espera de mais um pouco de tempo, o suficiente para reequilibrar o pensamento, deixar passar o mal-estar passageiro. Talvez algo esteja perturbando sua visão ou não tenha ainda saído de casa e estivesse apenas sonhando. Intrigado, ouve o conhecido ruído de passadas esmagando as pedrinhas britadas sob a sola dos sapatos. Ele se aproxima e senta-se ao seu lado.
Não acredita no que está vendo. O rosto, as mãos, as roupas, os sapatos são idênticos aos seus, aos da pessoa que estava para sair de casa. Até os cabelos, que começam a ficar grisalhos. “Quem é você? O que quer de mim”, pergunta com a voz hesitante. “Não preciso responder o que você já sabe.” “Diga-me que tudo isso não passa de uma brincadeira de mau gosto”, suplica. “Você ainda não se deu conta?”, pergunta ao mostrar o relógio que tira do bolso. “Mira, cada minuto a mais é um a menos. Seu tempo está contado.”. Entrega-lhe uma folha arrancada do calendário.
Os olhos refletidos no espelho transmitem o anseio diante do inevitável, o medo do desconhecido, a angústia pela travessia não preparada, tão precoce como inapelável. O tempo, cada vez mais escasso, segue o batido ritmado do coração, cada vez mais inquieto. Aos poucos, lágrimas miúdas transbordam para os cílios, tremulam sobre os fios arqueados e os fazem vergar, deixando nas faces o traçado de uma vereda incerta.
O dia está sendo comemorado com um jantar. Estão todos reunidos ao redor da mesa, a mulher, os filhos, a irmã e o cunhado, os sobrinhos e a mãe. A conversa ruidosa é interrompida com o toque do talher na taça de cristal. Os olhares dirigem-se ao anfitrião que diz não pretender fazer um discurso, mas revelar um segredo. A concentração toma conta do ambiente. Aos poucos, a apreensão aumenta diante do silêncio perturbador, enquanto seus olhos perscrutam cada um deles, num giro sem pressa. Perde a noção do tempo. Não imaginava que tivesse tantas dobras, nem que se confundisse com o sopro do universo. Como se estivesse saindo de um sonho, balbucia: “Hoje celebramos a vida.”
Ouve a amiga, encabulada. “Deixou tudo organizado, as contas pagas, o testamento assinado, os documentos separados em pastas, um caderno com orientação sobre aplicações financeiras, contratos firmados e transações efetuadas pelo escritório. Deixou também um diário, onde relembra a infância, a vinda para Santana, os anos de estudo para se formar em Direito, os primeiros trabalhos, os planos para o futuro. Junto encontrei esta folha arrancada de um calendário, com o dia marcado da sua morte.”