Terça-feira, 05 Maio 2026

Entre o Real e o Sonho

Kaliash

Existe um lugar no Tibet aonde ninguém conseguiu chegar. É o topo de uma montanha de quatro vértices alinhados com os pontos cardeais como uma pirâmide egípcia. Em Kaliash o tempo navega noutro ritmo. Alpinistas siberianos que tentaram escalar o maciço íngreme e congelado perceberam transformações estranhas no corpo, as unhas e os cabelos cresceram rapidamente, a pele tornou-se mais flácida e rugosa. Ao voltarem para suas aldeias, envelheceram em poucos meses e faleceram em menos de um ano. O mistério permanece, intrigando.

Observa as mãos antes de calçar as luvas forradas de pele. Trilhas cavam sulcos acentuados, traçam rotas sem destino aparente, cruzam vias menos profundas, rastreiam o tempo antes de desaparecerem em suas bordas. Ondulações erguem-se com o movimento silencioso dos dedos fechando-se, formando dunas rosadas de duração efêmera.

Deixam o vilarejo bem cedo para poderem armar acampamento no meio da tarde, antes que escureça como breu e as correntes gélidas de ar, vindas do Leste, açoitem o paredão de pedra e a nevasca feche o caminho estreito. Os óculos de lentes foto-cromáticas e proteção de couro nas laterais são presos na nuca por tiras elásticas, sob o capuz de pele e o espesso cachecol de lã. Ajeita nas costas as mochilas com alimentos, roupas, cobertores aluminizados, equipamentos para a escalada e alimentos enlatados. Pesam como uma montanha.

Caminham em silêncio, em ritmo compassado, atrás do guia nativo. Passadas as primeiras horas, são orientados a seguir em fila indiana, presos uns aos outros pela corda de segurança, e a manter a distância da margem que se perde na pirambeira. O ar frio e rarefeito resseca os lábios, queima os pulmões e volta como labaredas de névoa expelidas pelo fole incansável. Aos poucos, tem-se uma sensação de desequilíbrio, com tonturas passageiras, falta de ar e dor de cabeça que vai e volta, apesar da medicação.

Depois de três dias de caminhada, chegam à base onde se arma o último acampamento antes da escalada. Comemoram o descanso, ouvem estórias divertidas, outras sinistras. O topo do monte seria inalcançável, melhor desistir enquanto é tempo. Grupos inteiros de alpinistas haviam desaparecido sem deixar rastro. Teriam caído em fendas na rocha, agora cobertas de gelo, ou tragados pelo portal do tempo que existiria nas encostas da montanha. Seus vértices, como os das pirâmides, concentram energia cósmica, estabelecendo um canal de comunicação com civilizações de outras galáxias, viajantes em cápsulas do tempo. Naquela noite, mal conseguiu dormir, tomado pelo anseio.

Foi encontrado, dias depois, por uma equipe de resgate. Era o único sobrevivente do grupo. Exangue, foi carregado até o acampamento base, de onde foi levado de helicóptero para um hospital em Lassa. Ao recobrar a consciência, não soube explicar o que acontecera. Decidiu não voltar ao país de origem e a se recolher a um mosteiro, aos quarenta e oito anos, segundo documentos encontrados com ele.

Aos poucos, começou a notar mudanças no corpo. A pele do rosto foi ficando mais lisa, os cabelos grisalhos tornando-se mais escuros, os músculos das pernas e do peito mais fortes, os sentidos mais agudos, o pensamento mais vibrante. Em poucos meses, rejuvenesceu cerca de trinta anos.

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