Terça-feira, 02 Junho 2026

Entre o Real e o Sonho

A Noite

Ele caminha mais alguns passos, tateante. Carrega só a manta. Não tem mais nada, deixou tudo para trás para não ser roubado. Mas tem um peso, que não sabe de onde vem e faz curvar o corpo magro. A dor no peito parece ter subido no cangote. Dá mais alguns passos. Não olha de lado, só o movimento dos pés na calçada. Está chegando. Encosta-se na parede e deixa as costas escorregarem devagar até cair no chão sujo. As pessoas caminham apressadas.

Evita olhar os rostos estranhos, só vê pernas que passam e outras que somem, ouve o som abafado dos sapatos, o ruído impaciente dos carros. A luz dos faróis ofende seus olhos, ilumina o céu e não deixa a escuridão da noite chegar. Espera o movimento diminuir, estica as pernas e depois o corpo sobre a grade de onde vem o sopro morno das entranhas da terra. Aguça os ouvidos e ouve o ruído intermitente do trem que faz o chão tremer. Puxa a manta sobre o corpo, fecha os olhos e mergulha na imensidão das sombras que carrega dentro de si.

Ela acomoda a trouxa a uma certa distância. O lugar é mais tranquilo e iluminado. Carrega poucas coisas, restos catados na rua. Precisa deles para preencher seu vazio. Por um instante, as ideias alvoroçam dentro da cabeça. O corpo treme e os olhos se espantam com o fiapo de sonho. Aperta o peito com as mãos sujas para segurá-lo entre os seios murchos: um dia, voltará para casa. Aproxima-se devagar, coxeando. O nervo da perna continua doendo. Ele dorme tranquilo. Cobre um dos seus pés com a manta. Volta devagar para seu canto.

Observa com estranheza o rasgo de luz da estrela que acaba de cair no céu. Benze a testa com medo. “Mau agouro”, pensa. Puxa os poucos pertences para perto de si. Fedem como ela. Deixa a cabeça cair o e o queixo encostar no peito. Antes de vencer o cansaço, observa pelo rabo do olho a calçada ao seu redor. Encontra resto de comida nas latas de lixo. Se tiver sorte, um dos fregueses que sai da padaria lhe dará uma gorjeta. Vive do pouco e da sobra.

Acorda assustada com o cachorro lambendo seu rosto. Escuta risadas e vozes abafadas. “Ele não tem nada, só um pé de chinelo e a coberta imunda. E ela?” “Não sei porque essa vagabunda carrega a trouxa. Só tem lixo”. Aproxima-se e chuta sua barriga. “Levanta o rabo, filha de uma égua”, grita puxando-a do chão e colocando-a de quatro. Levanta sua saia e dá seguidas estocadas, até urrar de gozo. “Agora é tua vez”.   Ela geme de dor. Seus olhos embaçados encontram os dele, estarrecidos. Suplica em silêncio para fingir que está dormindo.

Afasta a manta devagar e mira um pouco mais longe para esquecer o que aconteceu. Tem sempre uma pessoa que passa, para um pouco, passa a mão no cabelo e olha de lado, nem com dó ou receio, só de capricho de assuntar de tudo um pouco. Olha rápido, de entremeio, pelo rabo do olho. Ela continua encolhida, a cabeça coberta com trapos fedidos. Cutuca. “Acorda, tá na hora! Vamos embora!” Cutuca de novo. A perna mexe que nem cadela que se espicha devagar com medo do frio. “Vamos, o sol já amornou” “Pra onde?” “Pra casa, num carece levar essas tralhas. Lá tem tudo!“

Ela geme baixinho, enquanto caminha. Apenas o segue. Ele sonha. Os pés descalços pisam as manhãs orvalhadas da serra. Solta baforadas de névoa. A criação quase que desaparece na neblina. Mais um pouco e chega em casa. Bota mais um pau de lenha e uns gravetos no fogo, sopra a brasa. A fagulha brilha por um instante, tremula caprichosa, antes de pegar. Assopra de novo, escuta o estalido da lenha, a língua de fogo lambe suas mãos enrijecidas.

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