Terça-feira, 14 Abril 2026

Empreender nas Ilhas

Praiamar já tem sistema próprio de captação e dessalinização de água

A água doce é um recurso limitado em Cabo Verde, e a dependência de sistemas de dessalinização é uma realidade quotidiana, daí que a forma como o setor turístico gere este recurso tem implicações que vão muito além de cada unidade hoteleira. É neste cenário que o Oásis Atlântico Praiamar concluiu, recentemente, um projeto que lhe confere autonomia total no abastecimento de água: a execução de um furo na própria propriedade, com captação direta para uma dessalinizadora instalada no local.

A solução implementada pelo Oásis Atlântico Praiamar assenta numa lógica de integração vertical do processo hídrico. A água captada através do furo alimenta diretamente a dessalinizadora, garantindo um fluxo contínuo e controlado, independente de falhas ou pressões externas. Segundo os responsáveis do projeto, o novo modelo permite melhorar a qualidade da água fornecida internamente, reduzir o desgaste dos equipamentos associados ao abastecimento e aumentar a capacidade de monitorização dos consumos.

Para o setor hoteleiro, onde a água é um insumo crítico — das cozinhas às piscinas, da lavandaria à limpeza de espaços —, a imprevisibilidade no abastecimento representa um risco operacional permanente. A autossuficiência hídrica surge, neste contexto, não apenas como uma escolha ambiental, mas como uma estratégia de resiliência.

Ana Abade, Administradora Executiva do Grupo Oásis Atlântico — cadeia hoteleira portuguesa com seis unidades em Cabo Verde, distribuídas pelas ilhas de Sal, Santiago, São Vicente e Boa Vista —, enquadra a iniciativa numa visão de longo prazo: “Mais do que uma melhoria técnica, este é um investimento no futuro do hotel, na eficiência da operação e no conforto de quem nos escolhe. Esta visão integrada demonstra como o setor do turismo pode ser um motor de inovação e responsabilidade ecológica.”

A declaração sublinha uma tendência crescente no setor: a sustentabilidade deixou de ser um argumento de marketing para se tornar um critério de gestão com impacto direto na viabilidade e competitividade das operações.

Um modelo replicável?

A questão que o caso do Oásis Atlântico Praiamar levanta para o setor é precisamente a da escalabilidade. Cabo Verde tem visto o seu turismo crescer de forma expressiva nas últimas décadas, com novas unidades hoteleiras a surgir em ilhas com recursos hídricos ainda mais limitados do que os da ilha de Santiago. A pressão sobre os sistemas públicos de abastecimento tende a agravar-se à medida que a capacidade de alojamento aumenta.

Soluções como a captação por furo combinada com dessalinização local não são novas — já são utilizadas noutros destinos insulares do Atlântico —, mas a sua adoção sistemática no contexto cabo-verdiano ainda é incipiente. O exemplo desta unidade pode funcionar como referência para outras que enfrentam os mesmos desafios logísticos e ambientais.

A gestão eficiente da água no turismo é, cada vez mais, uma condição de sustentabilidade — não apenas ecológica, mas também económica e operacional. Num arquipélago onde este recurso é simultaneamente escasso e essencial, as escolhas que o setor fizer hoje terão consequências duradouras para o território e para as comunidades que nele vivem.

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