Sexta-feira, 30 Outubro 2026

Em tom de opinião

Saúde gratuita, mas será que acessível e humanizada?

A gratuitidade dos cuidados de saúde constitui, inegavelmente, uma das medidas de maior alcance social no domínio das políticas públicas. Eliminar os custos directos suportados pelos utentes no acesso aos serviços de saúde é reconhecer que a vida, a dignidade e o direito à assistência médica não podem estar condicionados à capacidade financeira de cada cidadão. Em Cabo Verde, a entrada em vigor da gratuitidade dos serviços do Serviço Nacional de Saúde representa, por isso, um avanço que importa reconhecer. Contudo, entre garantir que o cidadão não paga pelos cuidados de saúde e assegurar que consegue efetivamente recebê-los existe uma distância que não pode ser ignorada.

Uma experiência recente, vivida no seio de uma família, trouxe novamente esta questão para o centro da reflexão. Perante a necessidade de assistência médica de uma criança com uma condição de saúde que exige acompanhamento especializado, a família deparou-se com dificuldades de atendimento em diferentes unidades de saúde. Entre números de atendimento esgotados, quotas diárias preenchidas e procedimentos que não permitiram encontrar uma solução, acabou por regressar a casa sem a assistência procurada.

Mais do que um episódio isolado, esta situação suscita questões sobre a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde e sobre o equilíbrio entre os protocolos institucionais e a dimensão humana dos cuidados médicos. É inegável que os serviços de saúde precisam de regras, critérios e procedimentos. Os protocolos são fundamentais para organizar o atendimento, gerir recursos limitados e estabelecer prioridades.

Mas não podem transformar-se em obstáculos que impedem o acesso à assistência. Uma quota esgotada não significa que as necessidades dos utentes tenham desaparecido, assim como a ausência de uma consulta agendada não elimina a possibilidade de uma situação exigir atenção médica. Por outro lado, a gratuitidade deve ser acompanhada de condições que permitam responder à procura: mais capacidade de atendimento, disponibilidade de profissionais e medicamentos, melhor articulação entre os serviços e mecanismos que assegurem a continuidade dos tratamentos.

Mas há uma dimensão que nenhuma reforma administrativa ou política de saúde pode negligenciar: o humanismo. A medicina não se faz apenas de diagnósticos, prescrições e protocolos. Faz-se também de escuta, empatia, sensibilidade e capacidade de compreender que, por detrás de cada utente, existe uma pessoa com necessidades, preocupações e vulnerabilidades próprias. O desafio não consiste em colocar a humanização em oposição às regras, mas em garantir que as regras não anulam a humanidade do atendimento.  Um sistema de saúde eficiente não é aquele que apenas cumpre procedimentos, mas aquele que consegue encontrar respostas para as pessoas, mesmo quando estas não se enquadram nas situações previstas.

A gratuitidade é um passo importante, mas não pode ser confundida com a concretização plena do direito à saúde. É necessário garantir que os cidadãos conseguem efectivamente ser atendidos, que os tratamentos têm continuidade e que as unidades de saúde dispõem de alternativas para responder às situações que não podem simplesmente esperar.

A questão que se coloca, portanto, não é se a saúde deve ser gratuita. Deve, naturalmente, ser um direito acessível a todos. A verdadeira questão é saber se estamos a criar as condições para que essa gratuitidade se traduza numa assistência efectiva, atempada e de qualidade. Porque o direito à saúde não se mede apenas pelo que o cidadão deixa de pagar, mas também pela assistência que efetivamente recebe.A gratuitidade abre a porta. A eficiência garante o acesso. O humanismo dá sentido à missão de cuidar.

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